Memória viva: espetáculo investiga prisão e celebra legado de Teuda Bara em BH
Montagem resgata diários da atriz americana Judith Malina escritos na ditadura e marca o último processo criativo da icônica atriz mineira

Os bastidores políticos e artísticos de um dos episódios mais marcantes da ditadura militar em solo mineiro ganham os palcos de Belo Horizonte. Estreia nesta sexta-feira (22), no Teatro Francisco Nunes, o espetáculo “Viagem pela noite de Minas”. Com direção de Eduardo Moreira (Grupo Galpão), a peça investiga os diários da diretora e atriz americana Judith Malina, fundadora do grupo The Living Theatre, escritos durante o período em que esteve presa pelo DOPS em Minas Gerais, em 1971.
A temporada fica em cartaz até 31 de maio, com apresentações de sexta a domingo e ingressos a preços populares: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), disponíveis na plataforma Sympla.
Mais do que um resgate histórico, a montagem carrega uma forte carga emocional para a cena local: este foi o último processo criativo que contou com a participação da genial atriz mineira Teuda Bara (1941-2025), um dos pilares do Grupo Galpão, falecida recentemente.
"Mesmo diante das maiores adversidades, o teatro ainda pode ser uma forma de responder ao mundo", ressalta a premissa do projeto, que une a força de Judith e Teuda em uma lição de continuidade e resistência.
O diário como performance e proteção
A trama se desenvolve a partir do encontro de três figuras no palco. Dois pesquisadores mergulham nas ruínas de um ideal de teatro para decifrar os registros de Judith Malina em 1971. Nessa busca, eles encontram uma terceira figura: uma atriz-entidade em constante transformação, que atravessa tempos e encarna as múltiplas camadas da escrita de Judith.
A pesquisa do grupo revelou que, para além do relato histórico, os diários de Malina funcionavam como uma extensão de sua própria atuação política. Ao mesmo tempo em que registrava as arbitrariedades da prisão, a escrita minuciosa servia como um escudo de proteção para o grupo e uma ponte com o exterior. O material, publicado à época pelo jornal Estado de Minas, gerou repercussão internacional e expôs a repressão que tentava calar a classe artística às vésperas do Festival de Inverno da UFMG.
O espetáculo também traz as inquietações dos próprios atores do presente (Marina Viana, Jean Gorziza e João Santos), que colocam em xeque os impasses do fazer artístico contemporâneo e o papel social do teatro hoje.
O legado de Teuda Bara e as ruínas do DOPS
Concebido inicialmente por Jean Gorziza e desenvolvido ao longo de 2025, o projeto tinha Teuda Bara como o eixo central da cena; sua voz memorável conduziria as leituras dos diários. Pouco antes de partir, a própria Teuda convidou Eduardo Moreira para assumir a direção.
Com a perda da atriz, a ausência foi incorporada à dramaturgia, transformando o espetáculo em um manifesto sobre herança artística. Paralelamente, a estreia de “Viagem pela noite de Minas” reverbera um debate atual na capital mineira: o antigo prédio do DOPS em Belo Horizonte é alvo de intensas disputas de movimentos sociais que reivindicam sua transformação em um espaço oficial de memória.
Homenagem no Teatro Marília
Em paralelo à temporada no Francisco Nunes, o público poderá conferir uma homenagem urbana dedicada a Teuda Bara na vitrine do Teatro Marília (espaço onde ela estreou profissionalmente em 1976). Com concepção de João Santos e fotos de Eugênio Sávio, a instalação temporária fica em exibição de 23 de maio a 22 de julho, posicionada estrategicamente entre o palco e a rua para saudar os pedestres e motoristas com a cor e a alegria típicas da atriz.
Serviço:
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Espetáculo: “Viagem pela noite de Minas”
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Temporada: de 22 a 31 de maio de 2026
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Horários: Sextas às 20h | Sábados às 18h e 20h (sessão dupla) | Domingos às 18h
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Local: Teatro Francisco Nunes (Av. Afonso Pena, 1.321 - Centro, Belo Horizonte/MG)
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Classificação indicativa: 12 anos
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Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) pelo site Sympla/TeatroFranciscoNunes
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Acessibilidade: sessões com interpretação em Libras
Giovanna Damião é jornalista da televisão, digital e do rádio. Desde 2020 como social media e redatora na televisão e, mais recentemente, atuando como apresentadora e repórter da editoria de cultura. Com versatilidade no jornalismo, caminha pela música, eventos, esportes e entretenimento.
