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Bruna Lombardi lança dois livros em BH e relembra experiência no sertão: 'Me transformou'

Atriz, escritora, poetisa e ativista, Bruna Lombardi relembrou a experiência como Diadorim e os momentos vividos no sertão mineiro durante uma noite dedicada à literatura em BH

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Bruna Lombardi lança duas obras no TCE em Belo Horizonte
Bruna Lombardi lança duas obras no TCE em Belo Horizonte • André Viana/itatiaia

A atriz, escritora e ativista Bruna Lombardi voltou às memórias do sertão mineiro nesta terça-feira (18), em Belo Horizonte. Aos 74 anos, ela reuniu o público no auditório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) para lançar dois livros que atravessam diferentes momentos de sua trajetória: “Diário do Grande Sertão”, relançamento da obra publicada originalmente em 1986, e “Mulheres que Sentem os Espíritos”, seu novo romance.

O primeiro livro chega às livrarias quatro décadas depois de sua publicação original e em meio às comemorações pelos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, e pelos 40 anos da minissérie baseada na obra, na qual Bruna interpretou Diadorim. A experiência de viver a personagem e passar meses no sertão marcou profundamente a atriz — e acabou dando origem ao diário que agora ganha uma nova edição.

“O sertão me transformou. [...] Essas descobertas, as pequenas, as grandes e as gigantes, para mim, foram absolutamente transformadoras. A minha vida começou uma segunda parte depois do sertão, porque quando você entende que a natureza é você, você não briga com ela. Existe uma entidade viva ali [no sertão] que, ou você se torna parte dela, ou você não vai ter força para enfrentá-la. Isso foi muito marcante para mim”, relembra Lombardi ao comentar sobre o relançamento da obra.

Durante as gravações da minissérie “Grande Sertão: Veredas”, Bruna escreveu anotações e diários sobre a intensa experiência vivida no sertão, onde deu vida a Diadorim. Na produção, a personagem é inicialmente apresentada como um jagunço e vive disfarçada de homem para vingar a morte do pai, o líder Joca Ramiro, e liderar no sertão. “É um dos personagens mais icônicos da literatura mundial”, destaca a atriz sobre Diadorim.

A ideia de transformar as anotações em livro, no entanto, não partiu inicialmente de Bruna. O incentivo veio do escritor e jornalista Caio Fernando de Abreu, que leu os registros e insistiu para que ela transformasse a experiência em uma obra.

“Ele [Caio Fernando de Abreu] está no prefácio. Ele dizia: ‘Bruna, você precisa fazer esse livro’. E eu não sabia porque eu achava que isso seria uma coisa íntima, não dava um livro, enfim. Mas ele insistiu de uma maneira tão obsessiva que eu acabei fazendo”, relembra ela, afirmando que adaptou a escrita para evitar spoilers da série, que estava no ar na época.

Agora, o reencontro com o livro trouxe uma nova percepção para a escritora. “Agora, quando eu revi o livro, eu descobri que tinha muita coisa que poderia estar e que era hora, que não tinha mais nada a perder, coloquei tudo. E o mais interessante é que o livro permanece, porque o sertão permanece, e ele é o sertão. Esse livro sou eu e o sertão virando uma coisa só”, frisa Lombardi.

“Mulheres que Sentem os Espíritos”

Já na segunda obra, Lombardi aborda uma história marcada por perda, memória e herança espiritual. A trama acompanha Lorena e também percorre as gerações anteriores à personagem, passando pela avó e pela mãe, em uma narrativa sobre como essas mulheres se ajudam e encontram seus próprios lugares.

“É superforte para mim estar aqui podendo falar desse livro. Ele é um livro que começa no luto. A personagem Lorena perde a mãe. E também é um livro de jornada, de travessia”, diz.

Após a morte da mãe, Lorena é levada a revisitar a própria história, marcada por ausências, relações frágeis e um persistente sentimento de inadequação. Criada por Laura, uma mãe solo de origem grega que sustentava a casa com sessões espirituais, a personagem sempre rejeitou o universo místico que a cercava.

“O legal disso tudo é que essa jornada do luto ao descobrimento de si mesma, ou seja, essa odisseia feminina, contém mulheres que vão em busca de nem sabem ainda do quê para encontrar a si mesmas, mas elas vão com humor, com amor, com amizade, com erro, com contradição, com todas as características de um ser humano. E eu acho que essa é a grande identificação do leitor com esse livro. É essa trajetória de humanidade que o livro contém. E eu estou muito, muito orgulhosa. Eu considero esse livro meu melhor trabalho”, acrescenta.

Bruna Lombardi autografa livros em evento em BH • André Viana/Itatiaia
Bruna Lombardi autografa livros em evento em BH • André Viana/Itatiaia

Livro como promessa

A artista conta que, enquanto escrevia “O Grande Sertão”, há quatro décadas, e pensava nas mulheres de sua família, prometeu a si mesma que lançaria uma obra futura, que se torna hoje “Mulheres que Sentem os Espíritos”. Lombardi só não sabia que o livro seria lançado no mesmo dia do relançamento da obra de 1986.

“E o curioso é que quando eu escrevi o Grande Sertão, eu, olhando do mesmo ponto de vista das mulheres, aquilo tudo, eu lembrei das mulheres da minha família e eu escrevi no diário há quatro décadas atrás: ‘Um dia eu vou falar sobre essas mulheres’. E, por acaso, esse é o livro que fala. E olha os mistérios da vida, os dois estão sendo lançados juntos, né? Não dá para discutir com o soberano lá em cima”, celebra.

Relação com Minas Gerais

A passagem por Belo Horizonte também abriu espaço para Bruna falar sobre a relação que mantém com Minas Gerais, que, segundo ela, é antiga. “Eu tenho muitos amigos mineiros que falam assim para mim: ‘Você nasceu em Minas e não sabe, né?’. E eu brinco, eu digo assim: ‘Deve ser isso, então’. Porque eu sou profundamente mineira em tanta coisa. Eu entendo tão bem essa maneira de ser, essa cultura tão arraigada e tão mantida, que não se dispersou. E a gente torce para que isso não aconteça”, diz.

Para a artista, Minas Gerais é berço da nova geração de escritores. “Minas é um dos lugares onde mais cresce literatura, né? Minas tem autores. Desde que eu comecei a escrever, desde meu primeiro livro, eu só conheci uma infinidade de autores mineiros, um melhor que o outro. Então eu falava assim: ‘Que lugar é esse que produz tanta gente com talento, né?’. É Minas”, conclui.

“Sempre Um Papo”

O encontro integra a celebração dos 40 anos do projeto “Sempre Um Papo”, que reúne grandes nomes da literatura e personalidades nacionais e internacionais com o público, ao vivo, em auditórios e teatros. Criado em 1986 pelo jornalista Afonso Borges, o projeto chega às quatro décadas com uma programação dedicada à literatura e à cultura.

“A gente tem aqui uma pessoa que conseguiu trazer para sua vida, para sua realidade, história, uma visão e uma posição coerente. Uma pessoa que conseguiu ultrapassar o padrão da beleza, dos padrões estabelecidos pela comunicação e está aqui com a gente falando da vida, da literatura e de tudo mais”, elogia Afonso, destacando a trajetória da artista.

 

Afonso Borges, criador do 'Sempre um Papo', ao lado da escritora Bruna Lombardi • André Viana/Itatiaia
Afonso Borges, criador do 'Sempre um Papo', ao lado da escritora Bruna Lombardi • André Viana/Itatiaia

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André Viana é jornalista, formado pela PUC-MG. Já trabalhou como redator e revisor de textos, produtor de pautas e conteúdos para rádio e TV, social media, além de uma temporada no marketing.

 

 

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