Belo Horizonte
Itatiaia

Nath Fiuza | Neymar vai à Copa. Agora começa o verdadeiro problema de Ancelotti

Camisa 10 do Santos estará com o Brasil na Copa, mas ainda existem questões em aberto

Por
Coluna da Nath Fiuza
Coluna da Nath Fiuza • Itatiaia

A grande dúvida das últimas semanas foi finalmente respondida: Neymar estará na Copa do Mundo. A convocação foi anunciada por Carlo Ancelotti, técnico da Seleção Brasileira, nessa terça-feira (18). Mas a confirmação do camisa 10 no Mundial não encerra o debate em torno do seu nome. Apenas mudam as perguntas.

Neymar será titular? Se for, sai quem? E, principalmente: como encaixá-lo em um time que, nos últimos meses, aprendeu a jogar sem ele?

A convocação é compreensível. Neymar superou a desconfiança em torno da sua condição física, voltou a atuar pelo Santos e mostrou estar apto para competir na Copa do Mundo. Ainda está distante do jogador explosivo de outros tempos, é verdade, mas o seu talento continua o mesmo. E um jogador com a capacidade técnica de Neymar, saudável, sempre será uma possibilidade real para qualquer treinador do mundo.

Ancelotti, inclusive, já deixou claro como imagina utilizá-lo: mais centralizado, próximo do gol. A decisão faz sentido. Talvez seja, hoje, a única forma de extrair o melhor do atacante sem comprometer o funcionamento e o equilíbrio coletivo da Seleção.

Porque o Neymar de 2026 já não pode ser o mesmo de 2014 ou 2018. Não adianta imaginar o camisa 10 recebendo a bola no meio-campo, conduzindo em velocidade até o ataque e ainda recompondo defensivamente depois de perder a posse. Esse jogador não existe mais. E insistir nessa versão do passado seria um erro que a Seleção pagaria caro.

Neymar precisa atuar perto do gol. Participar de jogadas curtas, tabelas, aproximações rápidas e infiltrações na área. Precisa tocar menos vezes na bola, mas em zonas mais decisivas do campo. E há uma lógica importante nisso: quanto mais próximo da área, mais protegido ele estará.

O problema é que encaixar Neymar ofensivamente é apenas metade da discussão. A outra metade acontece sem a bola.

Até aqui, o modelo preferido de Ancelotti na Seleção foi o 4-2-4, com dois meio-campistas de marcação e transição e quatro atacantes extremamente móveis. Dentro dessa dinâmica, a formação sem Neymar parecia relativamente definida: Luiz Henrique aberto pela direita, Raphinha pela esquerda, com Vinícius Júnior e Matheus Cunha atuando mais por dentro.

Com Neymar, porém, a engrenagem muda. Uma possibilidade seria sacar Luiz Henrique, deslocar Raphinha para a direita, colocar Vini pela esquerda e usar Neymar como um falso 9, tendo ainda Matheus Cunha circulando a bola ao seu redor, buscando passes e participando da construção das jogadas.

Porém, para jogar com quatro atacantes — sendo um deles Neymar — o restante do time precisará correr ainda mais. Raphinha e Matheus Cunha teriam responsabilidades defensivas enormes, fechando linhas de marcação ao lado dos volantes. Vinícius Júnior seguiria importante na pressão sobre os zagueiros. E Neymar, naturalmente, teria menos obrigações sem a bola.

Talvez o caminho mais equilibrado fosse outro: reduzir um atacante, fortalecer o meio-campo e construir uma equipe mais compacta. Mas Ancelotti parece disposto a apostar na abundância ofensiva que o Brasil possui. E faz sentido. Poucas seleções no mundo têm tantos jogadores capazes de decidir partidas no um contra um.

No fim das contas, o desafio do treinador italiano não é convocar Neymar. Isso era quase inevitável. O verdadeiro desafio é construir uma Seleção que consiga potencializar o talento do camisa 10 sem se tornar dependente dele — e, principalmente, sem perder intensidade. Neymar precisa ser parte do sistema, e não o sistema inteiro.

A questão aqui não é a minha preferência como comentarista, mas sim um exercício tático baseado no que o próprio Ancelotti usou até aqui. Afinal, um ano inteiro de trabalho, ainda que pouco diante do desafio de uma Copa do Mundo, não pode ser desperdiçado.

Por

Nathália Fiuza é comentarista da Rádio Itatiaia e escreve diariamente aqui.

Acompanhe Esportes nas Redes Sociais