Entre o respeito e a desconfiança: o Brasil rumo à Copa do Mundo
Seleção não convenceu durante preparação para Copa do Mundo de 2026, mas precisa ser respeitada

A razão nos mostra que o Brasil não chega como favorito a esta Copa do Mundo. O amor pela Seleção, por outro lado, insiste em nos fazer acreditar. Mas não há necessidade de radicalismos. A análise é simples: existem seleções mais fortes? Sim. Mas o Brasil não vai ao Mundial apenas para competir. Também não é azarão.
Temos nossos problemas, é evidente. Um ciclo tortuoso, marcado por tempo desperdiçado. Uma equipe que ainda convive com dúvidas sobre escalação e modelo de jogo. Nomes importantes lesionados, e ainda um camisa 10 cujo futuro é incerto.
Por outro lado, contamos com atletas talentosos e protagonistas no futebol europeu. Temos um treinador experiente, vencedor e capaz de montar equipes extremamente competitivas. E não podemos desconsiderar a tradição da camisa mais pesada da história do futebol mundial.
Em um torneio curto, com apenas oito jogos — cinco deles eliminatórios — tudo pode acontecer. Em muitos momentos, provavelmente não será premiado o futebol mais bonito, mas sim o mais eficiente. Em tempos de tanto equilíbrio, o campeão será aquele que errar menos. E, seguindo essa lógica, é perfeitamente possível imaginar o Brasil chegando longe na competição.
Para mim, Espanha, França e Portugal são as principais favoritas ao título. Todas possuem inúmeras virtudes, mas também carregam pontos de atenção.
A França talvez tenha o elenco mais qualificado da Copa. São jogadores decisivos em praticamente todas as posições do campo. Há ainda uma base mantida dos dois últimos Mundiais, e o trabalho consolidado de Didier Deschamps. Trata-se de uma equipe agressiva e veloz, capaz de criar grandes oportunidades com poucos toques na bola.
O desafio francês é transformar todo esse talento em um desempenho coletivo consistente, sem dependência excessiva de Kylian Mbappé. Outro problema são os espaços deixados pelos laterais, em razão da postura ofensiva da equipe, que costumam ser explorados pelos adversários nos contra-ataques. Além disso, Deschamps terá a missão de garantir que a abundância de estrelas não resulte em disputas de protagonismo dentro do elenco. E vale sempre lembrar: a linha entre confiança e soberba é tênue — um risco que não pode ser ignorado.
A Espanha aposta em um estilo de jogo consolidado, baseado na posse de bola, na técnica e na movimentação constante. No ataque, conta com jogadores rápidos e dribladores, capazes de desequilibrar qualquer defesa, como Nico Williams e Lamine Yamal. Este último é o principal astro da equipe e uma das maiores promessas do futebol mundial.
O principal receio está justamente em sua condição física. Caso Yamal não esteja totalmente recuperado, a Espanha perde boa parte de sua capacidade de desequilíbrio individual e não possui um substituto à altura. Isso significa que o atacante precisará recuperar sua melhor forma em meio à disputa da própria Copa do Mundo.
Chegamos, então, a Portugal. O último Mundial de Cristiano Ronaldo. A boa notícia para o craque de 41 anos é que ele está inserido em uma seleção qualificada e organizada, diferente de outros momentos em que precisava carregar sozinho o peso do protagonismo.
O meio-campo português, confesso, enche os olhos. Vitinha, João Neves, Bruno Fernandes e Bernardo Silva formam um dos setores mais talentosos da competição. Controle de bola, criatividade, inteligência e dinamismo não faltam.
A dúvida em relação a Portugal não está no talento disponível, mas na capacidade de transformar essa qualidade em desempenho regular ao longo do torneio. Em alguns momentos, a equipe se torna excessivamente pragmática e lenta na circulação da bola, o que pode representar dificuldades diante de adversários mais fechados e defensivamente organizados.
Ou seja, todas as seleções têm virtudes e problemas. Assim como o Brasil.

Caberá a cada uma resolver suas próprias questões e superar as adversidades que surgirem pelo caminho. Não precisamos ser os mais emocionados do mundo, acreditando que a Seleção Brasileira é imbatível. Mas também não devemos nos deixar dominar pelo pessimismo exagerado ou pelo saudosismo que insiste em dizer que apenas o passado foi bom o suficiente.
A Seleção de hoje está longe de ser perfeita. Ainda assim, tem qualidade, talento e motivos suficientes para sonhar. E, em uma Copa do Mundo, às vezes isso já é mais do que o bastante.
Nathália Fiuza é comentarista da Rádio Itatiaia e escreve diariamente aqui.
