Em um Mineirão lotado, venceu quem quis jogar futebol
Cruzeiro bateu o Boca Juniors por 1 a 0 nessa terça-feira (28), em jogo pela Copa Libertadores

Quando se imagina uma noite de Libertadores, a expectativa quase automática é de um jogo tenso, truncado, repleto de faltas, provocações e, até mesmo, episódios de violência. Se há um clube argentino do outro lado, esse roteiro parece ainda mais previsível. E ontem, no Mineirão, foi exatamente o que se viu.
O Boca Juniors, sem qualquer constrangimento, assumiu uma postura de – quase - desprezo pelo jogo. A equipe argentina se dedicou a interromper, provocar e esfriar a partida o tempo todo. E conseguiu fazer isso durante boa parte do confronto, contando com uma arbitragem permissiva e, em alguns momentos, claramente tendenciosa.
Mas a Libertadores não é feita só de tumulto. Também é palco de superação, coragem e talento. E foi nisso que Cruzeiro se impôs. Diante de um adversário que optou por não jogar, o time celeste fez justamente o contrário: insistiu, buscou, tentou.
Estratégias fazem parte do jogo — e ninguém é ingênuo a ponto de negar isso. O Cruzeiro, pressionado pela tabela e jogando em casa, precisava ser protagonista. O problema não está em só se defender, em jogar por uma bola. O problema é transformar o antijogo em regra. E isso ultrapassa a rivalidade ou a competitividade: é desrespeito com quem assiste, sobretudo com quem paga caro e vai ao estádio.
Não podemos nos iludir com a ideia de que o “futebol brigado” é melhor ou mais emocionante. O que encanta — e sempre encantará — são as jogadas bem construídas, os dribles, os passes improváveis, os momentos de inteligência e criatividade. O futebol pragmático também é válido, mas não pode ser sinônimo de confusão e desrespeito.
Dentro de campo brilhou Matheus Pereira. O cérebro da equipe encontrou um raro espaço e entregou o passe que decidiu a partida.
E há mérito também no banco. Arthur Jorge mostrou leitura de jogo e coragem ao mexer na equipe, aumentando a presença ofensiva e empurrando o time para a área adversária - algo determinante para o gol.
Mais do que os três pontos, a vitória representa afirmação. Confirma a evolução do Cruzeiro, fortalece a confiança do elenco e, sobretudo, reforça um princípio que deveria ser básico: ainda vale a pena jogar futebol.
Nathália Fiuza é comentarista da Rádio Itatiaia e escreve diariamente aqui.
