Alexandre Simões | Acordo da Caixa com o Corinthians seria um hat-trick do absurdo
"Andrés Sanchez acreditou piamente que o estádio de Itaquera era um presente da empreiteira. Tanto que se apressou em administrá-la sem ter a menor condição para tanto. E ligava pra jornalistas para mostrar como seria fácil pagá-la. Na verdade, contava com reeleições seguidas do PT e as compensações que daí viriam para a Odebrecht em obras pelo Brasil e pelo mundo afora. Mas houve uma Lava Jato no caminho, um Odebrecht preso, um impeachment e a festa acabou. O presente virou dívida. A Odebrecht não só perdeu sua condição de dar presentes, como não cumpriu o que ficou de entregar e quer receber pelo que fez mal feito. Nas costas do Corinthians".
Esse primeiro parágrafo está entre aspas porque não é meu. É de Juca Kfouri e foi publicado em sua coluna no UOL em 23 de outubro de 2016, há exatamente dez anos.
Mesmo passada uma década ele é mais atual do que nunca num momento em que a Caixa Econômica Federal negocia com o Corinthians o fim de uma dívida de R$ 630 milhões, naquele que pode ser considerado o terceiro gol contra num hat-trick às avessas nos absurdos que cercam a história do estádio corintiano.
O que está sendo discutido entre Corinthians e Caixa é a troca da dívida pelos naming rights do estádio do clube em Itaquera e outros produtos, como títulos de capitalização, a transferências de todas as operações do clube para o banco e até cartões do programa Fiel Torcedor.
Seria a terceira ajuda do Governo Federal ao Corinthians, time do presidente Lula e também do atual ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, que participou da reunião da última sexta-feira (16), confirmada por nota pelas partes, e que além de dirigentes do banco e do clube, contou com integrantes da torcida Gaviões da Fiel, maior organizada corintiana.
Em 2010, quando a aposta era no Morumbi como o estádio paulista a ser indicado como uma das sedes da Copa de 2014, a força política do Corinthians, com Lula presidente da República, e Andrés Sanches, presidente do clube, sendo o homem de confiança de Ricardo Teixeira na CBF, tanto que foi o chefe da delegação brasileira no Mundial da África do Sul, falou mais alto e surgiu o Itaquerão, como uma aposta de impulsionamento da Zona Leste da capital paulista.
A coluna de Juca Kfouri explica qual era o plano e qual foi o desfecho. Isso porque em acordo de delação, Emílio Odebrecht, então presidente do Conselho de Administração da empresa que leva o nome da família, disse que a Arena Corinthians foi um presente a Lula, torcedor do clube. Isso aconteceu em 2016, quando seu filho Marcelo já estava preso desde 2015 e condenado a 19 anos.
Era o segundo gol contra nesse hat-trick às avessas que envolve o Itquerão. Pode parecer muito o valor do estádio para um presente, mas segundo levantamento da Folha de S. Paulo, nos dois primeiros mandatos de Lula, entre 2003 e 2010, o faturamento anual da Odebrecht passou de R$ 17,3 bilhões para R$ 132 bilhões.
Terceiro gol contra
Agora, pressionado por uma dívida superior aos R$ 2 bilhões e sem condições de pagar o “presente de grego”, o Corinthians tenta mais uma ajuda federal relacionada ao seu estádio. Coincidentemente, com Lula no poder. A Caixa já patrocinou clubes na temporada 2017. Vários deles carregavam a marca do banco na camisa.
Mas agora é diferente. E beira o absurdo. Um exemplo é o fato de o Corinthians projetar os naming rights da sua arena em R$ 70 milhões anuais. O São Paulo recebe por temporada R$ 25 milhões para seu estádio ser chamado de Morumbis. O nome Nubank na sua arena rende ao Palmeiras cerca de R$ 50 milhões ao Palmeiras a cada ano.
Os dois estádios são muito mais comerciais que o Itaquerão, pois recebem vários shows durante o ano todo, o que não acontece com a Arena Corinthians, pois o pretendido boom da Zona Leste paulistana não aconteceu.
Mas o absurdo vai a outro patamar. Por que o Corinthians ter ajuda financeira federal tão significativa no que se refere ao pagamento do seu estádio, e outros clubes sofrerem para pagar suas arenas?
O Internacional passa por dificuldades para cumprir o financiamento da reforma do Beira-Rio, também palco da Copa de 2014. O mesmo acontece com seu rival, o Grêmio.
O Atlético vendeu o Diamond Mall para poder erguer a Arena MRV, onde ainda contou com contrapartidas absurdas pedidas pela Prefeitura de Belo Horizonte, na época comandada por Alexandre Kalil, que foi presidente do Galo entre 2008 e 2014.
O Cruzeiro paga e caro para usar o Mineirão, que numa parceria público-privada foi reformado para as Copas das Confederações de 2013 e do Mundo de 2014.
O Flamengo, maior potência financeira do futebol brasileiro, pisou no freio na construção do seu estádio, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, justamente por questões financeiras.
É neste cenário que a Caixa negocia apenas com o Corinthians uma ajuda significativa para que o clube possa pagar o estádio que não tinha condições de construir, mas que surgiu como um presente da Odebrecht a Lula.
Alexandre Simões é coordenador do Departamento de Esportes da Itatiaia e uma enciclopédia viva do futebol brasileiro



