Leão XIV: acho que não vi um gatinho

Que coisa genuína é receber uma carta. Estamos acostumados a trocar mensagens freneticamente. As redes sociais facilitam a comunicação “fast”. Todavia, profanam a “palavra”. É tão bom poder se deter. Por isso, fica ainda mais romântico receber uma “carta”. Sim, estamos morrendo de amores. Sobretudo os padres - é saudável puxar saco do chefe! - com a Carta Encíclica de Leão XIV.
Esta semana, o Papa brilhou de novo. Com seu jeito discreto, “desarmado e desarmante”, entregou à Igreja e ao mundo um grande presente. Já teria sido muito, depois de mostrar a Trump que estava equivocado quanto à “fraqueza do Papa”. Parafraseando Piu-Piu e Frajola: para quem achou que viu um “gatinho”, escutamos um “rugido de leão”. Até a Ferrari ganhou com o Papa: depois da desconfiança diante de uma versão de quatro portas e cinco lugares, um aceno papal fez subir as ações...
O Papa é pop. Antenado! Vale a pena conferir a Encíclica. São alusões e reflexões lúcidas e contemporâneas. Sem a pretensão de esgotar o texto, detenhamo-nos sobre um aspecto fundamental. Na perspectiva de Leão, o tema da Inteligência Artificial convoca a uma reflexão mais profunda, não apenas sobre a tecnologia em si, mas sobre a importância do humano.
Nos termos de Leão, se o desenvolvimento não se une ao progresso social, a uma consciência profunda da inalienável dignidade humana e a uma reflexão moral, termina voltando-se contra o homem. A revolução tecnológica não pode significar uma tirania da técnica, uma tecnocracia. Há o risco de que o desenvolvimento da I.A. nos torne mais sós e mais expostos à lógica do domínio e da exclusão.
Em tempos de fascínio com as promessas do futuro, como são os nossos, o Papa convoca à lucidez do agora. Fala-se muito do indivíduo “híbrido” e do “pós-humano”. Mas o verdadeiro “mais que humano” não pertence apenas à linguagem e às promessas da tecnologia, mas ao cultivo de princípios, à busca do bem.
Traduzindo em linguagem de TikTok: na busca pela inteligência artificial, estejamos atentos às armadilhas da burrice natural! As máquinas não nos podem fazer retroceder no compromisso com aquilo que nos eleva e humaniza. De fato, não é curioso? Estamos cada vez mais conectados, artificiais - até nos afetos - , com hábitos de máquina. Paradoxalmente, queremos que as máquinas reproduzam afetos e comportamentos cada vez mais próximos do que é anímico e humano. Provocações...
Ah, e um ponto alto, corajoso, inaudito. Ao falar dos regimes contemporâneos de escravização por detrás do desenvolvimento tecnológico, o Papa pede, em nome da Igreja Católica, perdão por ela ter utilizado, ao longo da história, meios de violência e por, junto com outras instituições, ter sido “cúmplice e cega” diante do atentado contra a dignidade humana que foi a escravidão. Uma grande e profética fala! Alguns disseram que isso ainda é pouco, que demorou muito. Resguardada a pertinência da crítica, antes tarde que nunca.
Quando Pedro liga uma chave na terra, estejamos certos de que algo foi ligado também nos céus (Mt 16). Oxalá tenhamos, doravante, com menos medo e mais empatia, uma Igreja que assuma definitivamente raízes, legados e contributos de matriz africana; que ajude a reparar, com profetismo e parresia, os males do passado, cuja ferida se faz sentir ainda hoje.
Não sabemos - assume o Papa - os rumos do desenvolvimento tecnológico. Ajudará, todavia, ter clareza de que nosso passado, presente e futuro, antes que da I.A., devem ser mais comunitários, mais responsáveis, mais fraternos, mais empáticos, mais conectados com a ancestralidade, com o bem e, sobretudo, mais humanos.
Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
