Itatiaia

Governos caem

Por
Governos caem
Governos caem • Imagens cedidas

É lúcido pensar as eleições também do ponto de vista da derrota. Sendo este ou aquele lado o vitorioso, estamos diante da implosão de uma ordem política. Referimo-nos ao fato de o país sair deste pleito de novo, dividido? Sim. Nossa reflexão aponta para um abismo ainda mais profundo: nesta era de mudanças, de erosão dos sistemas, a política passou a ocupar o lugar da fé. 

Nada contra, evidentemente, as afinidades partidárias. Por óbvio, em maior ou menor grau de paranoia, o resultado de hoje define os rumos da democracia no país. A questão ultrapassa o limite do justo quando o respeito ao lugar de fala do outro é substituído pelo receio de que sua vitória nos imponha um "cálice". Somos convocados a um passo além do "otimismo" ou do "pessimismo": a um "realismo" esperançoso. 

A política ocupou o lugar da fé. Não porque tenhamos aprendido a confiar demasiadamente na democracia, mas porque passamos a exigir dos políticos aquilo que nenhuma construção humana pode oferecer: a salvação. Estamos entorpecidos pela ideia de que há um "messias" capaz de salvar a pátria. Não há mestre, pai ou mito capaz de salvar este país dos males em que escolheu estar. É certo, por um lado, que, fora da política, não há salvação. Este é um acordo civilizatório irrenunciável! Apreciar a diferença, compor com divergências; para além de simpatias, antipatias e patologias, mirar o bem comum. É certo, por outro lado, que políticos não salvam! 

Parece-nos que os gregos e romanos, que nos legaram a razão e as leis, continuam tendo algo a ensinar. A ensinar pelo fracasso! A democracia tensiona o fracasso. Sendo o coração humano rebelde e inconstante, o sistema democrático tende, em suas crises, a se deixar seduzir pela demagogia e pelo populismo. Seja ontem, com a retórica dos sofistas, seja hoje, com a performance dos influenciadores, seus exércitos digitais e seus fundos pretos, permanece a tentação de fazer da eficácia do discurso um substituto da verdade dos fatos. A promessa nunca corresponderá inteiramente à realidade. O discurso termina por flertar com algo de cínico, corrupto e perigoso. 

Nada contra a técnica algorítmica ou retórica. Faz parte do jogo. Marqueteiros e políticos, pela natureza da função, flertam com o diabo. Há culpa (e perigo) maior em quem sabe disso (ou finge que não sabe). 

Talvez venha em nosso auxílio, pensando nas crises dos sistemas, na falência das ideologias em cumprir a promessa de salvação e no risco de que a performance da retórica leve à catástrofe, o pensamento do grande Agostinho (santo, pero filósofo). 

Em suas reflexões acerca de De civitate Dei (A Cidade de Deus), Agostinho elucida que a história de Roma sempre foi atravessada por guerras, violência, crises e derrotas. Portanto, a dissolução de seus muros não constitui um fracasso final. Todos os reinos são transitórios. Nenhuma construção humana, por si mesma, é capaz de ser uma transposição exata da eternidade. A queda de Roma, antes de representar o fracasso da fé cristã, revelava a precariedade de toda ordem temporal que se pretende definitiva. 

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

Belo Horizonte