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Os extremos se tocam

Extremos são como as pontas de uma ferradura: elas se dizem opostas, mas estão mais próximas do que nunca

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Na cena, o sufrágio universal é simbolizado como uma conquista popular que justifica a deposição das armas • Wikimedia Commons

Como o leitor já percebeu, estamos em pleno período eleitoral. Finalmente, aproximamo-nos do grande dia, 06 de outubro de 2024, data do primeiro turno das Eleições Municipais, quando escolheremos nossos representantes aos cargos de Prefeito, Vice-Prefeito e Vereador Municipal.

Machado de Assis nos faz outras advertências importantes, em várias passagens do livro “Esaú e Jacó” (1904), que são atualíssimas nestes tempos de eleições. Ele aborda o clássico Oportunista Político – aquele para quem pouco importam os ideais, mas tão somente vencer a qualquer custo. Isso não é a regra, mas é preciso que o eleitor esteja atento -, tudo parece se resumir à luta pelo poder, à briga pela cadeira (vixe!), e ao espaço com ela advindo. Este fenômeno é bem mostrado no capítulo XLVII:

“No final do Império, os conservadores tinham perdido o poder, justamente quando Batista estava prestes a conseguir uma presidência. Ao revelar à esposa sua frustração com a derrota dos conservadores, de quem era tão fiel, ele é por ela questionado:

“– Batista, você nunca foi conservador! O marido empalideceu e recuou, como se ouvira a própria ingratidão de um partido. Nunca fora conservador? Mas que era ele então, que podia ser neste mundo?”.

Em seguida, refletiu sobre os dizeres da esposa, concluindo:

“E depois não era propriamente conservador, mas saquarema, como os liberais eram luzias. Batista agarrava-se agora a estas designações obsoletas e deprimentes que mudavam o estilo aos partidos; donde vinha que hoje não havia entre eles o grande abismo de 1842 e 1848. E lembrava-se do Visconde de Albuquerque ou de outro senador que dizia em discurso não haver nada mais parecido com um conservador que um liberal, e vice-versa. E evocava exemplos, o Partido Progressista, Olinda, Nabuco, Zacarias. Que foram eles senão conservadores que compreenderam os tempos novos e tiraram às idéias liberais aquele sangue das revoluções, para lhes pôr uma cor viva, sim, mas serena? Nem o mundo era dos emperrados...” (cap. XLVII).

Aqui, Machado discorre sobre um partidário de ocasião, que quer marchar sempre ao lado do exército vencedor. O livro traz outras passagens em que o importante “é ser governo”, o que nos dias de hoje seria o equivalente a estar ao lado dos “puxadores de voto”. Uma delas é descrita no capítulo LXII, quando se está às vésperas da Proclamação da República, meados de novembro de 1889. O personagem Custódio era dono de uma padaria conhecida como “Confeitaria do Império”, o que lhe fizera encomendar uma placa com estes dizeres. No dia seguinte à encomenda, ao acordar de manhã, vieram vindo as notícias da chegada da República em substituição ao Império. Ao se lembrar de sua tabuleta, Custódio viu que era preciso sustar a pintura. Então escreveu às pressas um bilhete e mandou um caixeiro ao pintor. O bilhete dizia: “Pare no D.” Quando o portador voltou trouxe a notícia de que a tabuleta estava pronta. Desesperado, Custódio solicitou ajuda ao Conselheiro Aires:

“-Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. – “Confeitaria do Império”, a tinta é viva e bonita.”

O Conselheiro lhe sugeriu pôr “Confeitaria da República”. Custódio então lembrou que poderia haver nova reviravolta, afinal, o novo regime ainda não era sólido. Aires propôs-lhe um meio-termo, “um título que iria com ambas as hipóteses”: “Confeitaria do Governo”. “Afinal, que tinha ele com política?” (cap. LXIII).

Por óbvio, este aprendiz não está a sugerir um desânimo com a política ou com os políticos. Há, sim, alguns bons e bem intencionados. Só é preciso um olhar atento, além das obviedades das redes sociais, das “fakenews” e da desinformação que tanto têm dominado o cenário eleitoral. E, também, claro, respeitar os pensamentos diferentes, sobretudo em relação àqueles que de fato amamos e admiramos, sejam amigos, parentes, etc. É preciso lembrar sempre: somos diversos e múltiplos. Nestes tempos de nervos à flor da pele, vale sempre uma reflexão: conhecemos mesmo por quem brigamos? Vale a pena perder relações históricas, verdadeiros amigos?

Aliás, no outro oposto, o que este aprendiz também não deseja ao caro leitor é uma espécie de letargia, de ausência completa de opiniões, tema também tratado pelo mesmo Machado (ele falava de tudo!), em crônica de 1888. Aqui ele se dizia o mais precavido dos seus contemporâneos, saindo “sempre de casa com o Credo na boca, e disposição feita de não contrariar as opiniões dos outros”. Mas quem o superava neste quesito era o Visconde de Abaeté, “de quem se conta que, nos últimos anos, quando alguém lhe dizia que o achava abatido:

— Estou, tenho passado mal, respondia ele.

Mas se, vinte passos adiante, encontrava outra pessoa que se alegrava com vê-lo tão rijo e robusto, concordava também:

— Oh! agora passo perfeitamente.”

Desse modo, “não se opunha às opiniões dos outros; e ganhava com isto duas vantagens. A primeira era satisfazer a todos, a segunda era não perder tempo”. O problema é que tal comportamento leva à perda da identidade e do senso crítico tão importante este na escolha dos nossos representantes. Afinal, estaremos a escolher os nossos dirigentes, por 4 anos, o que é muito significativo no nosso cotidiano, já que cabe a eles desenvolverem políticas públicas que rompam com este abismo social que tanto no assola. E não há solução que não passe pela política.

Ops. O quadro que abre está coluna é de Louis-Marie Bosredon, “Le vote ou le fusil”, pintado em 1848, em que um trabalhador abandona seu fuzil para depositar o voto. Na cena, o sufrágio universal é simbolizado como uma conquista popular que justifica a deposição das armas. É preciso depor as nossas armas.

Ops. Nestes tempos de tanto ódio e intolerância, sempre me lembro de Nelson Rodrigues: “Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade”. Façamos boas escolhas e boa sorte a todos nós!

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Doutor e Mestre em Direito Penal pela UFMG e Desembargador no TJMG. Escreve aqui sobre Literatura, Arte e Direito.