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Então é Natal, e o que você fez?

Natal é um período de reflexão, que convida a revisar as metas traçadas no início do ano e a planejar o futuro

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Neste Natal, que o descanso seja valorizado como um direito, e não um luxo • Freepik

O final de ano é tradicionalmente associado a férias, celebrações e encontros. Para muitos, é também um período de reflexão, que convida a revisar as metas traçadas no início do ano e a planejar o futuro de maneira alinhada aos próprios objetivos e valores. Contudo, enquanto alguns se dedicam às preparações festivas, muitos relatam sentimentos intensos de tristeza e ansiedade, que frequentemente emergem com mais força nesta época.

Essa exaustão traz um importante questionamento sobre um trabalho que, na maioria das vezes, é invisível. Segundo um estudo sobre a Economia do Cuidado, do Comitê de Oxford para o Alívio da Fome (Oxfam), mulheres realizam mais de três quartos do trabalho de cuidado não remunerado no mundo, o que teria contribuído com US$10,9 trilhões para a economia global em 2020, se recebessem um salário mínimo pelas tarefas que realizam.

Outro dado é que, apesar dos avanços no mercado de trabalho, a responsabilidade com a família continuou quase que exclusivamente sobre as mulheres ao longo das duas décadas em que a pesquisa foi conduzida. E os seus efeitos não terminam por aí: o excesso de trabalho no lar acaba as impedindo de alcançar melhores posições na vida profissional. E soma-se a isso, a pressão constante por produtividade, que não cessa nem mesmo nos momentos de pausa.

O filósofo sul-coreano-alemão Byung-Chul, em “Sociedade do Cansaço”, diz que vivemos em uma era marcada pela exaustão mental e física, resultado de um sistema que prioriza desempenho e individualismo. Estamos em uma época em que a produtividade incessante é glorificada, e o desempenho — seja no trabalho, nos cuidados familiares ou até no lazer — torna-se um padrão opressor. No caso das mulheres, essa lógica se agrava pela soma das expectativas sociais: além de profissionais exemplares, espera-se que sejam mães perfeitas, parceiras atenciosas, organizadoras das festividades e ainda mantenham a aparência de quem "dá conta de tudo".

E a verdade é que, enquanto nos autocoagimos para atender às exigências de produtividade e nos pressionamos para sermos otimistas e autossuficientes, somos humanas. E temos limites, que não precisam ser superados. Fato é que romantizaram tanto a sobrecarga que, quando a gente descansa, a gente se culpa. Não precisamos da sensação de inadequação, nem do sentimento de "não ter feito o suficiente".

O meu desejo nesse Natal é que deixemos a sensação de insuficiência de lado, para que possarmos nos desconectar e aproveitar o momento presente. Que possamos, ao menos por uns dias, esquecer das listas intermináveis de tarefas. Que o descanso seja valorizado como um direito, e não um luxo. Que possa ser um momento de ressignificar o tempo e dar mais espaço ao que realmente importa: conexões genuínas, momentos de presença e o autocuidado, sem culpa ou a necessidade de justificar pausas.

Quem sabe o maior desafio desse final de ano não seja revisar e estabelecer metas, mas aprender a ser, antes de fazer. Talvez maior presente de Natal seja o de desacelerar, dividir responsabilidades e criar espaços para que as mulheres possam ser e descansar. Porque, no fundo, resistir à lógica da exaustão é um ato de autocuidado. E, também, de transformação social.

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Clarissa Nepomuceno é advogada e sócia do escritório Nepomuceno Soares Advogados. Palestrante e professora universitária, defende que a independência financeira e a construção da carreira são fundamentais na ruptura dos ciclos de violência e para o alcance do ODS 5 – Equidade de Gênero.