Por que o psiquiatra Augusto Cury, um dos escritores mais lidos do mundo, quer ser presidente?
Em conversa com a coluna, o professor falou sobre mandato para STF, combate ao vício em redes sociais, comitês anticorrupção e semipresidencialismo

O psiquiatra Augusto Cury é um dos autores brasileiros mais lidos do mundo. Na semana passada, ele se filiou ai Avante e oficializou sua pré-candidatura à presidência. Ele afirma que é a primeira e única vez que vai concorrer ao Palácio do Planalto. O escritor falou sobre mandato para STF, combate ao vício em redes sociais e à intoxicação digital, criação de comitês anticorrupção, botão de pânico para mulheres, dosimetria para presos do 8 de janeiro e Débora do Batom, com quem tem contato constante.
Cury também disse que o salário de presidente não o interessa, que ele está se candidatando para se doar e que, se eleito, vai avaliar alugar o Palácio da Alvorada, residência oficial da presidência.
Autor do livro que deu origem ao filme “O vendedor de sonhos”, o escritor, assim como o personagem principal - um empresário bilionário que perde a família e passa a viver nas ruas - afirma que quer levar o empresariado brasileiro participar da gestão, fazendo uma ponte entre o capitalismo e a necessidade de ações na área social.
Desde quando o senhor vem pensando em ser candidato à presidência da República, professor? Há quanto tempo o senhor matura essa ideia?
Há 12 anos eu conversei com minhas filhas, elas choraram. Uma delas disse: “Pai, não faz isso", suplicava. Falei: "Filha, olha o país como está, está radicalizado, papai só queria uma vez'. Então, eu já tinha comentado com elas, mas eu acabei desistindo na época.
No entanto, chegou o momento de dar uma contribuição.
O que fez o senhor decidir nesse momento depois que a corrida eleitoral já tinha, praticamente, começado?
Eu tenho pensado muito desde o segundo semestre do ano passado. Tenho pensado muito.
Qual foi a gota d'água, a virada de chave?
A gota d'água foi que o mundo geopolítico mudou demais e a inteligência artificial vai pegar todo mundo de surpresa. E se nós não guardamos as armas e os ataques pessoais para preparar a nação para os desafios enormes, nós não temos o plano B, só temos o plano A. Então, eu preciso atuar agora, procurar um pouco, minimamente, pacificar o país para que possamos preparar a juventude mundial. Por exemplo, oito milhões de jovens que nem trabalham, nem estudam no Brasil, me tiram sono. O índice de violência contra as mulheres e contra as crianças me tira o sono, mas me tira mesmo, sabe? Não é retórica.
Por exemplo, tramita no Congresso a PL Augusto Cury. É a primeiro Projeto de Lei (PL) que eu solicitei, porque a cada 45 segundos uma criança sofre abuso sexual ou maus tratos infantis. Nós não podemos mais jogar gelo. Tem que ter algo no Brasil diferente do mundo todo.
Cada criança que nasce em território brasileiro, até 12 anos, em que ter um médico avaliando anualmente e um psicólogo escuta ativa. Se está tendo assédio sexual, se tem possibilidade de ataque sexual, para que o predador sexual saiba que o governo federal não apenas é um tutor teórico. E é uma coisa que nunca houve no mundo.
A deputada a Rosângela Reis estava comigo numa conferência, eu falei para ela, ela abraçou na hora e foi elaborado o PL. Já foi pedido como pedido de urgência. É um negócio possível que tem estrutura pronta para funcionar. E você tem ideia das consequências? O abuso na formação da personalidade gera uma janela traumática, dramática.
Na Suíça não tem isso. Na Suécia, na América do Norte, o Brasil é o primeiro país que vai ter uma escuta ativa para proteger as suas crianças. A questão do crime é o seguinte: não adianta só denunciar e punir o criminoso. Denunciar e punir o corrupto. Denunciar e punir o predador sexual. Nós temos que coibir.
Temos que prevenir. É muito mais barato.
Por isso que, por exemplo, eu quero conversar com o TCU.
Como o senhor imagina a campanha do senhor?
O meu objetivo não é ameaçar a biografia nem o partido de ninguém. O Brasil de 210 milhões de brasileiros é o mais importante do meu projeto pessoal. E eu não preciso, eu não preciso do meu próprio poder.
Eu perguntei cem vezes qual é o prazer que existe na presidência. As cem vezes eu falei que para mim não tem prazer. O que me move? Projetos para repaginar o Brasil, para haver mais justiça social, igualdade de oportunidade. Eu gostaria de criar mil comitês, mil comitês para prevenção da corrupção.Em cada região, em cada cidade grande, para analisar todas as estações.
É um projeto preventivo. Não é partido, não é ego, não é culto a personalidade. .
Nós aumentamos o ritmo de construção devido a quantidade de informação. Veja o que acontece:
Número 1: Uma criança de 7 anos de idade tem mais informação do que John Kennedy quando ele dirigiu o mundo na hora da Guerra Fria.
Número 2: A urgência das atividades. Cada vez mais você tem mais tarefas e com necessidade de ser mais urgente.
Número 3. Você tem também as pressões do dia-a-dia.
Número 4. A síndrome comparativa nas redes sociais.
Número 5. A própria intoxicação digital que tem alterado o ciclo da dopamina e serotonina e gerado uma dependência nos níveis da cocaína.
Número 6. As pressões e o criticismo entre as pessoas na área política, na área empresarial, na área social. Pra você ter uma ideia, 30% dos trabalhadores no Brasil tem síndrome de burnout. É um número absurdo, entendeu
No mundo, 12 bilhões de dias de absenteísmo, ou seja, perda de dia de trabalho no mundo. As consequências são trilhões de dólares. Esse é um problema também das empresas que estão doentes, quando no teatro da política tem havido mais radicalismo, muito mais ataque, diminuiu a generosidade, diminuiu os níveis de empatia.
Porque as causas são múltiplas, é um ecossistema de causas. Isso afetou o teatro da política. Os atores, cada vez mais, acabam diminuindo o nível de empatia ou capacidade de colocar no lugar do outro. E até diminui também o prazer de lutar pelos seus sonhos, pelo seu país, pela sua nação. E até mesmo de pensar com a humanidade.
Nós não temos que fazer o Brasil grande novamente. Sim, temos que fazer. Não temos apenas que transformar o Brasil em um país grande.
Como Trump disse, né? O Maga - Make America Great Again. Mas nós temos que fazer Make Humanity Great Again. Porque como eu sou publicado em mais de 90 países, eu sempre falo para os povos e para as mais diversas culturas.
Por exemplo, no Japão, várias prefeituras têm o meu programa Free Mind, sendo trabalhado para prevenção de transtornos emocionais e também para desenvolvimento da autonomia, do eu como protagonista da mente humana. E na China, nós estamos treinando o Touch Piece, que é o programa Toque de Paz para prevenção de suicídio, prevenção de riscos de vida ou conflitos familiares. Também na Europa, na América Latina, Brasil e Estados Unidos.
Sou mentor e embaixador do programa Touch Piece.
Qual é a instituição, qual é a entidade que faz a mediação desses programas para os países todos? É uma só?
Não, são várias, são várias entidades. Geralmente são pessoas que estão ligadas a instituições, ou então, por exemplo, o Touch Piece está ligado a um deles, o grande mentor é o Márcio, que é o presidente das Igrejas Batistas de Minas Gerais, e vice-presidente da América Latina. No Free Mind, não, no Free Mind não está ligado, ele é uma instituição. Enfim, nós estamos desenvolvendo vários projetos.
Você sabe em que lugar que nós estamos no índice de corrupção? Em mais de 180 países? Nós temos que trazer para níveis mais civilizados, 50.
Eu quero falar com as pessoas que estabelecem índices. 'Vocês estabeleceram os índices, então vem cá comigo. Bom, eu quero que vocês participem da Secretaria Executiva". Vai ter uma Secretaria Executiva de Corrupção.
Nós tivemos um projeto, a Escola da Inteligência, não sei se você sabia, é o primeiro projeto mundial de instituição de emoção para escolas. Sabe quantos alunos? Nós tínhamos 400 mil alunos e hoje nós vendemos a operação para uma empresa que hoje está dentro do Brasil só, para a educação. Então, tem de ter eficiência, porque senão nós vamos ser alguém que fala qpenas que tem que combater a corrupção, mas qualquer pessoa mediana sabe disso.
Nós temos que diminuir o índice de violência contra as mulheres. Mas o que nós vamos fazer? Eu já tenho ideia para fazer. Se a mulher tiver nas mãos um botão de pânico, em 15 minutos ou meia hora tem que ter lá o agente. E eu tenho falado isso com a minha amiga Renata Gil, ex-presidente da AMB, Associação de Magistrados do Brasil. Ela vai participar desse projeto, porque ela é muito preocupada com a violência contra as mulheres.
Mas como é que nós vamos resolver essa equação? Porque na Europa o índice de violência é altíssimo. Nos Estados Unidos, na Ásia. Então como é que nós vamos resolver? Nós precisamos resolver de maneira inteligente.
O senhor vai ter muitos parceiros na iniciativa privada, porque tudo isso tem custo?
Eu quero que as pessoas participem. Eu tô participando. Eu tô me doando pro país. Vou dar palestras pros grandes empresários aqui. Já tão me chamando e me convidando.
Eu tô me doando. Pra mim, poder não me interessa. Salário de presidente também não. Eu não preciso. Nem financeira, nem social, nem intelectualmente. Nem sei se o Palácio do Alvorada deveria manter aquela estrutura ou se nós deveríamos alugar. Eu sei que nós temos que ter um país que pensa no futuro dessas crianças e adolescentes. Elas não vão ter futuro.
Como transformar o Brasil em país com segurança jurídica? Por exemplo, como é que nós vamos resolver a equação dos juros? Vamos financiar a casa com 5 a 6% como é lá fora? Por que não aqui?
Vamos nos entregar para um país dos nossos sonhos. E eu falei com todos. Eu falei com o ex-presidente Temer, falei com o Kassab, falei com o Aécio Neves, falei com o Marcos Pereira, falei com a Renata Abreu, falei com o Marcel Van Hattem, que me escutou com muito carinho. E falei com o Eduardo Leite, como eu disse, falamos sobre o Brasil dos nossos sonhos. Não é o Brasil de uma pessoa. Na verdade, sabe com o que eu penso? Vou te falar uma coisa que pode ser chocante, mas é a minha tese.
Um presidente é apenas um empregado da sociedade, contratado pelo voto, com um prazo determinado para ser despedido. Sou radicalmente contra a eleição.
O senhor vai ver que precisa de mais quatro anos para implementar os projetos do senhor, que quatro anos passam rápido, não?
Só quatro anos e vou embora. Depois, outras pessoas mais inteligentes ocupam o processo.
Eu não ficaria mesmo. Pode ser até que lá na frente eu possa repensar um pouco, mas se eu falo uma, duas, três vezes e as pessoas me cobram, elas vão me lembrar.
Porque, na verdade, a reeleição é um ambiente que pode propiciar com que as pessoas pensem menos na sua cidade, menos no seu estado, menos no país e pensem mais na reeleição, a perpetuação do poder. Isso não é saudável. E na era digital, tudo é muito rápido.
Então dá pra fazer muitas coisas. Não dá pra fazer tudo, mas dá pra fazer o alicerce. Outros constroem.
E se não for um projeto pessoal, for um projeto com alicerces, não importa quem entra depois, eles continuam construindo as paredes, continuam construindo os andares. Essa é uma posição muito clara.
Outra coisa, a reforma do STF.
Oito a dez anos eu proponho fim da espetacularidade do voto, ou seja, transmissão ao vivo, pra dar mais liberdade para os ministros. Quem vai escolher? Não é mais o presidente. Dois terços tem que ser do Ministério da Magistratura.
Dois ou três do Ministério Público. E um é advogado. E quem escolhe? Associações de classe.
A AMB e a AJUFE escolhem os juízes. O Ministério Público escolhe os procuradores e os membros do Ministério. A OAB escolheu o advogado.
O presidente Fachin, ele é leitor dos meus livros. Eu quero conversar com ele sobre isso.
Quero provocar a Câmara dos Deputados para fazer um projeto de lei. E outra coisa. Semipresidencialismo. Não pode ter um super presidente mais. No primeiro dia, eu estimularia o Congresso a mostrar que tem que ter um primeiro-ministro como gestor de milhares de coisas do dia a dia.
E o presidente ficaria no estratégico cuidando das Forças Armadas, da política externa. Semipresidencialismo
Bom, eu quero dizer para você que nós estamos diante de um impasse da humanidade.
Nós temos que, obviamente, cuidar do país, como a Trump diz: Make America Great Again. Mas nós temos que ter um caso de amor com a família humana. Make Humanity Great Again. E, por isso, se eu me tornar um pré-candidato, eu não sei se a minha chance é pequena ou grande.
Mas eu, na semana seguinte, entraria em contato com o Putin e com o Zelensky. Como eu sou especialista em solução para ciclos corruptos, ofereceria quais são as variáveis para que possamos contribuir para diminuir os níveis de tensão, para que possamos colocar, no lugar do outro, de uma maneira desarmada.
Muita gente fala da dor, mas eu conheço a dor de perto, eu sei a dor das pessoas bem de perto. Você sabe que eu contribuí naquela época que eu disse que a dosimetria teria que ser reagendada? Porque não é possível uma dosimetria tão grande para aqueles comportamentos. Bom, enfim, aí no outro dia o Moraes pediu para o Gonet, da PGR, e ela foi liberada.
Não sei o quanto eu ajudei. Dizem que ajudei, mas eu não posso afirmar, que isso contribuiu de maneira significativa. A partir daí, como é que eu vou fazer? Não adianta só pegar o terremoto. O maior problema é como reconstruir os escombros emocionais.
A Débora do Bato, por exemplo. Como é que faz com a dor dessa jovem ao longo da história? Felizmente, a Débora tem dado um salto muito grande. Eu sempre falo, olha Débora, nunca se coloca como vítima, porque quando você é vítima, você suspende o teu eu como autor da própria história. Você tem de transformar o caos em oportunidade, os dias mais tristes nos capítulos mais importantes. Percebe o nível da conversa?
Vamos falar de direitos humanos? Direitos humanos sérios. Morre mais de 1.560 mulheres no Brasil, Mas como é que eu não vou resolver essa equação? Eu já desenhei, a minha mente não pensa como uma pessoa normal, eu penso como telas mentais.
Como eu escrevi mais de 80 livros, escrevi uma das raras teorias sobre a construção de pensamentos.
E só pra encerrar, eu estou conversando com você sobre vários assuntos. Então, nós temos esse país em que os da direita chamam da esquerda de esquerdopatas e os da esquerda chamam os da direita de fascistas. Tem que terminar essa violência, Edilene.
Mais de 90% são projetos suprapartidários, não é loteado direita e esquerda, concorda comigo? Temos que repaginar todas as embaixadas no Brasil, eu tenho maior carinho pelos embaixadores e pelo corpo de diplomatas. Mas, nós temos que reagendar as embaixadas para vender o país.
Nosso comércio mundial é um terço da média mundial. Então, tem que haver uma repaginação. Eu não sei se você está sabendo o caos da IA e da robótica. Em cinco anos, não sobra pedra sobre pedra. Inclusive, cuidado! Até os jornalistas perderam o emprego, não apenas médicos, advogados, dentistas e trabalhadores.
As maiores adversárias das empresas, vai ser o caos. Quem fala sobre isso? Nós temos que fazer, preparar o Brasil para ser uma nação de empreendedores, microempreendedores, pequenos empreendedores, para transformar esse drama inenarrável numa oportunidade para fragmentar a economia em milhões de microempreendedores. Está na minha mente.
Se imagina o que eu tenho pensado como estadista e utilizando, veja bem, não dá para governar sozinho, os melhores de cada partido, os melhores técnicos de cada área, debaixo de cada ministério, diretorias executivas com autonomia e independência.
Nós precisamos fazer um país de projetos, menos projetos pessoais. E, felizmente, eu fui bem recebido em todos os partidos. Felizmente, olha, todos honraram a minha biografia.
O meu objetivo é 100% de projetos, 0% de ataques pessoais. 0% de ataques pessoais. Quem fizer ataques pessoais, tiver no meu time, está fora.
Entrevista do psiquiatra e escritor Augusto Cury à coluna Em Cima do Fato.
Edilene Lopes é jornalista, repórter e colunista na Itatiaia e analista de política na CNN Brasil. Na rádio, idealizou e conduziu o Podcast 'Abrindo o Jogo', que entrevistou os principais nomes da política brasileira. Está entre os jornalistas que mais fizeram entrevistas exclusivas com presidentes da República nos últimos 10 anos, incluindo repetidas vezes Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Messias Bolsonaro. Mestre em ciência política pela UFMG, e diplomada em jornalismo digital pelo Centro Tecnológico de Monterrey (México), está na Itatiaia desde 2006, onde também foi também apresentadora. Como repórter, registra no currículo grandes coberturas nacionais e internacionais, incluindo eventos de política, economia e territórios de guerra. Premiada, em 2016 foi eleita, pelo Troféu Mulher Imprensa, a melhor repórter de rádio do Brasil. Em 2025, venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados na categoria Rádio e Texto.



