O que esperar do confronto direto entre Lula e Flávio?
Após 64 dias de campanha, presidenciáveis se enfrentam pela primeira vez no debate da Band; o debate acontece a partir das 20h e será transmitido na TV aberta, streaming e pelos canais da Bandeirantes nas redes sociais

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) terão, neste domingo (18), o primeiro confronto direto da campanha presidencial de 2026. Após 64 dias de campanha, incluindo o primeiro e o segundo turnos, os dois candidatos ainda não estiveram frente a frente para discutir propostas e confrontar os resultados do atual governo. Se os candidatos comparecerem de fato, o debate promovido pela Band será a primeira oportunidade de os eleitores acompanharem, simultaneamente, as estratégias dos dois presidenciáveis para conquistar os votos dos indecisos e de quem não escolheu nenhum dos dois na primeira etapa da disputa.
Segundo apuração da coluna, Lula pretende pressionar Flávio a apresentar propostas concretas, especialmente nas áreas econômica e social. O principal trunfo do petista será a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que põe fim à escala de trabalho 6x1. Promulgada pelo Congresso Nacional na sexta-feira (16), a medida será apresentada como uma conquista histórica para os trabalhadores e uma demonstração da capacidade de articulação política do governo. Lula também deve recorrer às entregas de sua gestão, com destaque para a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, as iniciativas de renegociação de dívidas e as políticas de aumento da renda e do poder de compra da população.
A estratégia do presidente passa por tentar reduzir a distância entre os indicadores econômicos e a percepção dos brasileiros sobre a própria qualidade de vida. Apesar dos resultados positivos apresentados pelo governo em áreas como emprego e renda, o custo de vida e o endividamento das famílias continuam entre os principais desafios políticos do petista. A avaliação de aliados é que Lula precisa convencer principalmente os eleitores da classe média e da chamada classe C de que as medidas adotadas pelo governo representam ganhos concretos no orçamento doméstico.
Tesouraço e empreendedorismo
Flávio Bolsonaro, por sua vez, pretende explorar o desgaste do governo e apresentar uma agenda de mudanças sem necessariamente abandonar políticas sociais que têm apoio popular. Segundo aliados, o senador vai procurar demonstrar o que pretende manter, ampliar e modificar em relação à atual administração. Os principais motes serão um "tesouraço" nas despesas públicas, com redução da estrutura administrativa, e a criação de incentivos para pequenos empresários, microempreendedores individuais (MEIs) e trabalhadores autônomos e por aplicativo.
O objetivo é conquistar uma parcela do eleitorado que, embora não esteja necessariamente vinculada à direita, demonstra insatisfação com a carga tributária, o custo do crédito e as dificuldades para empreender. O segmento reúne trabalhadores por conta própria, prestadores de serviços e pequenos comerciantes que reclamam da dificuldade de transformar o crescimento da economia em melhoria efetiva da renda disponível. A campanha de Flávio avalia que esse público pode ser decisivo na reta final da disputa.
O desafio do candidato do PL será explicar como pretende conciliar o corte de despesas com a manutenção de programas sociais e a ampliação de incentivos econômicos. Lula deve explorar justamente esse ponto, cobrando do adversário quais áreas seriam atingidas pelo ajuste fiscal e como seriam financiadas as promessas de campanha. Flávio, por outro lado, deve tentar associar o tamanho da máquina pública à dificuldade de reduzir impostos e melhorar os serviços oferecidos à população.
Declarações de Luchsinger
Outro tema que poderá acirrar o confronto são as declarações de Roberta Luchsinger, que ganhou espaço no debate político após fazer acusações envolvendo Lula e seu filho, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Segundo aliados, Flávio Bolsonaro avalia explorar o episódio para pressionar o presidente e questionar a postura do governo diante das denúncias.
Luchsinger afirmou publicamente que estaria recebendo ameaças de morte e que suas filhas também teriam sido ameaçadas. O caso provocou reação de integrantes da oposição no Congresso. O líder da Oposição na Câmara, deputado Cabo Gilberto Silva (PL-PB), anunciou o encaminhamento de pedidos de proteção à Polícia Federal, ao Ministério da Justiça e à Procuradoria-Geral da República, além de iniciativas para cobrar esclarecimentos das autoridades.
As declarações de Luchsinger, no entanto, não constituem, por si só, comprovação das acusações. A eventual utilização do episódio no debate deverá colocar em confronto a tentativa de Flávio de desgastar a imagem do presidente e a estratégia de Lula de exigir provas e trazer a discussão de volta às propostas de governo.
Disputa pela classe C
Mais do que um confronto entre dois projetos políticos, o debate será uma disputa pela narrativa sobre quem tem melhores condições de melhorar a vida dos brasileiros. Lula tentará transformar as entregas do governo em votos, enquanto Flávio buscará convencer o eleitorado de que é possível preservar benefícios sociais, reduzir gastos públicos e criar um ambiente mais favorável ao empreendedorismo.
A classe C tende a ocupar posição central nessa disputa. É justamente nesse segmento que se concentra uma parcela expressiva dos trabalhadores que, mesmo empregados ou empreendendo, enfrentam dificuldades para pagar contas, quitar dívidas e ampliar o consumo.
O primeiro encontro também será um teste da capacidade de Flávio Bolsonaro de se apresentar como alternativa de governo para além do eleitorado fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Para Lula, será a oportunidade de confrontar diretamente o adversário e tentar transformar a experiência de governo em vantagem eleitoral.
Edilene Lopes é jornalista, cientista política, repórter e colunista da Itatiaia e analista da CNN Brasil. Com experiência em coberturas nacionais e internacionais, tem ampla experiência em entrevistas exclusivas com presidentes da República. Foi eleita a melhor repórter de rádio do Brasil pelo Troféu Mulher Imprensa e também venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados.



