Brasil vive a eleição mais acirrada da história desde 1989
Confira os recordes e as diferenças da 10ª eleição presidencial em relação às outras disputas desde a redemocratização

O Brasil chega ao segundo turno da eleição presidencial de 2026 com a menor diferença de votos já registrada entre os dois primeiros colocados no primeiro turno desde 1989. O senador Flávio Bolsonaro (PL) recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A distância de 1,87 ponto percentual, equivalente a aproximadamente 2,22 milhões de votos, superou o recorde de proximidade de 2022, quando Lula terminou a primeira votação 5,23 pontos à frente de Jair Bolsonaro. Entre os segundos turnos já concluídos, a disputa mais apertada foi justamente a de 2022, decidida por 1,8 ponto percentual. A segunda foi a de 2014, quando Dilma Rousseff derrotou Aécio Neves por 3,28 pontos. A terceira foi a de 1989, quando Fernando Collor venceu Lula por 6,06 pontos.
Recorde de governadores
A eleição de 2026 também estabeleceu um recorde na definição dos governos estaduais no primeiro turno. Dos 27 entes federativos que elegem governadores, sendo 26 estados e o Distrito Federal, 20 definiram seus representantes na primeira votação, o maior número desde a redemocratização. O recorde anterior era de 2010, com 18 eleitos, seguido por 2006, com 17. Entre as vitórias mais expressivas estão as de Rafael Fonteles (PT), reeleito no Piauí com 70,9% dos votos válidos, e Jorginho Mello (PL), em Santa Catarina, com 69,98%. No extremo oposto, Paraná e Pará registraram as disputas mais apertadas entre os estados que definiram seus governadores no primeiro turno. No Paraná, Sergio Moro (PL) foi eleito com 50,1% dos votos válidos, enquanto Dr. Daniel (Podemos) conquistou o governo do Pará com 51,36%.
Abstenção
Outro recorde está no número de eleitores que não compareceram às urnas. No primeiro turno, aproximadamente 33,47 milhões de brasileiros deixaram de votar, o equivalente a 21,08% do eleitorado. É o maior número absoluto de ausentes da história das eleições presidenciais e o maior percentual desde 1998, quando a abstenção chegou a 21,49%. A série histórica começou com 11,93% em 1989, subiu durante a década de 1990, recuou para 16,75% em 2006 e voltou a crescer gradualmente nas eleições seguintes.
Redução em 2022
Em 2022, houve uma mudança inédita no comportamento do eleitorado entre turnos. A abstenção caiu de 20,95% para 20,59%, uma redução de 0,36 ponto percentual, equivalente a aproximadamente 570 mil eleitores a mais nas urnas. Foi a primeira vez, desde 1989, que o percentual de ausentes diminuiu entre o primeiro e o segundo turno de uma eleição presidencial.
Empate técnico
A proximidade registrada nas urnas no primeiro turno também aparece nas pesquisas da véspera da eleição. Os levantamentos do Datafolha e da Quaest divulgados neste sábado (24) apontaram Flávio Bolsonaro com 51% dos votos válidos e Lula com 49%, configurando empate técnico dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Nos votos totais, o Datafolha registrou 48% para Flávio e 47% para Lula, enquanto a Quaest apontou 46% para o senador e 45% para o presidente. A Futura apontou 50,1% para Flávio e 49,9% para Lula, uma distância de apenas 0,2 ponto percentual. .
Tradição ou virada?
Se Flávio Bolsonaro vencer a eleição, será mantida uma tradição observada desde 1989: o candidato mais votado no primeiro turno vence no segundo. Uma vitória de Lula, por outro lado, representaria um resultado inédito na série histórica: uma virada. Em todos os sete segundos turnos presidenciais anteriores, quem terminou a primeira votação à frente venceu a eleição. Isso ocorreu com Fernando Collor, em 1989; Lula, em 2002 e 2006; Dilma Rousseff, em 2010 e 2014; Jair Bolsonaro, em 2018; e novamente Lula, em 2022. Como Flávio terminou o primeiro turno de 2026 na liderança, uma vitória do petista representaria a primeira virada entre turnos desde a redemocratização.
Lula e a família Bolsonaro
Aos 80 anos, Lula disputa a Presidência pela sétima vez, depois de concorrer em 1989, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2022. Venceu três eleições e perdeu outras três. Já a família Bolsonaro participa de sua terceira disputa presidencial consecutiva. Jair Bolsonaro venceu em 2018 e perdeu a reeleição em 2022. Agora, seu filho Flávio disputa pela primeira vez o Palácio do Planalto.
Diferença de idade
A diferença de aproximadamente 35 anos e meio entre os dois candidatos é a maior registrada entre adversários de segundo turno desde 1989. A segunda maior ocorreu em 2014, quando Dilma Rousseff, então com 66 anos, enfrentou Aécio Neves, de 54 anos, uma distância de aproximadamente. Caso seja reeleito, Lula iniciará o quarto mandato como o presidente mais velho a tomar posse na história do Brasil. Se Flávio vencer, estará entre os presidentes mais jovens eleitos pelo voto direto, atrás de Fernando Collor, eleito em 1989 aos 40 anos, e Jânio Quadros, eleito em 1960 aos 43 anos.
Edilene Lopes é jornalista, cientista política, repórter e colunista da Itatiaia e analista da CNN Brasil. Com experiência em coberturas nacionais e internacionais, tem ampla experiência em entrevistas exclusivas com presidentes da República. Foi eleita a melhor repórter de rádio do Brasil pelo Troféu Mulher Imprensa e também venceu o Prêmio Jornalistas Negros +Admirados.



