Competição humana

São Paulo VI, Papa da Igreja entre 1963 e 1978, rezava ao Espírito Santo pedindo um coração livre de qualquer desprezível competição humana. Distanciar-se dessa lógica é graça rara, pois o mercado acaba ditando normas que moldam a existência e alimentam disputas fratricidas. Em nome de conquistas financeiras e interesses pessoais, multiplicam-se rivalidades que atingem ambientes familiares, sociais e institucionais.
Há uma competição saudável que inspira superação e disciplina, a exemplo do que ocorre no âmbito esportivo. Entretanto, cresce um tipo de disputa que obscurece valores como fidelidade, espírito comunitário e amor à pátria. Competições onde prevalecem o desrespeito, o cinismo e o egoísmo, fortalecendo a indiferença diante do sofrimento humano. Essa lógica competitiva invade também a política, ampliando exclusões e misérias que deveriam envergonhar a sociedade. Uma situação que leva ao enfraquecimento do compromisso corresponsável essencial à construção de um mundo justo e solidário.
A competição excessiva alimenta a vaidade e o consumismo, levando o ser humano a considerar tudo apenas a partir dos próprios interesses. Crescem inimizades, ressentimentos, ingratidão e a incapacidade de escutar. Instala-se uma guerra de narrativas que compromete o diálogo, o discernimento e as escolhas coletivas. Instituições sofrem com manipulações e injustiças sustentadas pela busca do poder e do reconhecimento.
Essa desprezível competição humana consolida mágoas e violências, substituindo a hospitalidade pela agressividade. Por isso, tornam-se urgentes caminhos espirituais capazes de promover reconciliação, humanidade e fraternidade. A espiritualidade, independentemente da confissão religiosa, ajuda o ser humano a vencer egoísmos e preconceitos, recuperando a solidariedade e o apreço pelo semelhante.
Entre os ensinamentos espirituais mais preciosos, destaca-se a indicação do padre Matta el Meskin: entrar na oração não apenas para salvar a si mesmo, mas para ajudar a resgatar o mundo ameaçado. Em vez da competição destrutiva, a oração e a fraternidade podem transformar não apenas as pessoas, mas também o futuro da humanidade.
O Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte, dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidiu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e publica semanalmente aos sábados no Portal Itatiaia.


