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Responsabilidade socioambiental na gestão da cadeia de valor

Ainda que existam normas que responsabilizem empresas por ações de seus fornecedores, percebeu-se que a regulação centralizada é essencial para evitar esse comportamento

O conceito de cadeia de valor, criado pelo teórico da administração Michael Porter, descreve as atividades realizadas por uma empresa para criar, produzir e entregar um produto ou serviço aos clientes. Essa cadeia é composta por uma série de etapas interligadas que agregam valor ao produto. É bastante comum que as empresas terceirizem etapas da cadeia de valor visando reduzir custos e aumentar sua competitividade.

A descentralização da operação abriu espaço para que algumas empresas aproveitassem dessa prática para burlar regras – em especial trabalhistas e ambientais. Ainda que existam normas que responsabilizem empresas por ações de seus fornecedores, percebeu-se que a regulação centralizada é essencial para evitar esse comportamento.

A Europa puxou a tendência com a “normas da devida diligência”, mas, mesmo nos casos em que não há regra, é importante ressaltar que o consumidor está atento a essas questões. A conscientização crescente sobre os impactos sociais e ambientais das atividades empresariais levou ao surgimento de várias iniciativas e regulamentações para promover a gestão ética e responsável em toda a cadeia de valor.

É consenso mundial que quanto mais rígida a norma, mais as companhias tendem a buscar estratégias – às vezes não ortodoxas – para escapar delas. Como exemplo, pode-se falar da terceirização da produção. Quem nunca ouviu falar dos escândalos envolvendo trabalho escravo nos fornecedores de famosas redes de Fast Fashion? Neste caso, empresas tentaram contornar exigências como: respeito aos direitos trabalhistas básicos, como salários justos, condições de trabalho seguras e saudáveis, horas de trabalho adequadas e o direito de associação sindical, transferindo sua produção para países em que essas obrigações não eram tão rígidas. Como decorrência da descoberta: crise reputacional.

É fundamental destacar que é dever das companhias realizar auditorias e diligências em suas operações diretas e indiretas (fornecedores, contratados e terceirizados), ainda que em países diferentes. O objetivo das auditorias consiste em garantir a observância de, pelo menos, os padrões mínimos e universalmente aceitos sobre direitos fundamentais e meio ambiente.

A cobrança pela gestão da cadeia de valor também passa por questões de captação de recursos. No Brasil, em um movimento de autorregulação do setor bancário, instituições financeiras declararam que não irão financiar operações de frigoríficos que descumprirem os requisitos para o combate ao desmatamento ilegal. Dentre as exigências: comprovar a não aquisição de gado associado ao desmatamento ilegal de fornecedores diretos e indiretos.

É sabido que será preciso promover muitas mudanças para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU até 2030, talvez a maior delas seja a mentalidade de “lucratividade a qualquer custo”. A esperança que temos é que, caso a transformação não aconteça voluntariamente, ela será imposta por meio de imposições normativas.

Cristiana Nepomuceno é bióloga, advogada, pós-graduada em Gestão Pública, mestre em Direito Ambiental. É autora e organizadora de livros e artigos.
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