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Clarissa Nepomuceno | Profissões não têm gênero – e poder também não deveria ter

O futuro exige relações justas, com equidade, cooperação e corresponsabilidade

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O futuro exige relações justas, com equidade, cooperação e corresponsabilidade
O futuro exige relações justas, com equidade, cooperação e corresponsabilidade • Getty Images/Reprodução

A busca pela equidade de gênero ainda se depara com uma dicotomia persistente: a separação de papéis “de homem” e “de mulher”. Trata-se de um fenômeno histórico, social e cultural, sustentado por estereótipos de gênero, expectativas sociais e desigualdades estruturais na família, na sociedade e no mercado de trabalho. 

Entre as suas nuances, a associação do trabalho feminino ao cuidado reforça a lógica das chamadas “profissões de mulher”. O efeito cascata é cruel: profissões vistas femininas são desvalorizadas e mal-remuneradas, enquanto os homens concentram os espaços de liderança, ciência, política e tecnologia. E, assim, ditam as regras da sociedade, por meio de políticas públicas criadas majoritariamente por homens, perpetuando um modelo de sociedade que privilegia o olhar masculino. 

Essa crítica não é nova. Na Convenção Sufragista de Washington, em 1868, Elizabeth Stanton já denunciava que a sociedade era “um reflexo do próprio homem, intemperada pelo pensamento feminino”. Segundo ela, ao negar a igualdade, se exigia que mulheres “fortes” abrissem mão de sua feminilidade para adotar comportamentos masculinos, reforçando a visão equivocada de que força e poder as tornariam “menos mulheres”. 

Há quase dois séculos, a figura norte-americana, líder pelos direitos das mulheres nos Estados Unidos, já percebia que a lógica de dominação estava em ignorar e reprimir características fortes e naturais da feminilidade. Isso porque, para alcançar espaços de decisão, mulheres deveriam performar características e comportamentos mais masculinos – o que reforçava a agressividade e reduzia o seu valor perante a sociedade, pois o senso comum levava à conclusão de que isso as tornaria menos mulheres, menos recatadas e menos devotas ao lar e à família. 

Esse raciocínio se apoia em uma distorção histórica: a narrativa pré-histórica do homem caçador e da mulher cuidadora. Mas será que ela é verdadeira — ou apenas uma forma conveniente de reescrever a história para afastar as mulheres do poder? 

A arqueologia responde. Em sítios como o de Wilamaya Patjxa, no Peru, sepulturas de 9 mil anos revelaram mulheres enterradas com ferramentas de caça de grandes animais. A conclusão é clara: a divisão de tarefas era funcional e adaptativa, não determinada pelo gênero. Mulheres também tinham visão estratégia, caçavam, lideravam e arriscavam. 

O mito do homem protagonista e da mulher coadjuvante não passa, portanto, de uma projeção dos preconceitos dos historiadores — em sua maioria homens — que escreveram a história. Essa narrativa afastou mulheres dos espaços de decisão, reforçou a submissão e consolidou barreiras que ainda hoje se manifestam como teto de vidro, segregação ocupacional e afastamento de posições de liderança. 

Manter esses estereótipos significa limitar escolhas, reduzir a diversidade e perder a riqueza de visões que só a pluralidade oferece – o que resulta em políticas e instituições enviesadas. Sociedades são complexas demais para se sustentar na lógica da dominação de um gênero sobre o outro. A competência não se mede pelo sexo biológico, mas pela aptidão, formação, experiência e dedicação. 

Repetir as justificativas do passado nos impede de avançar para o próximo estágio. Impor hierarquias de gênero é dar passos para trás. O futuro exige relações justas, com equidade, cooperação e corresponsabilidade. 

Profissões não têm gênero. E o poder também não deveria ter. 

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Clarissa Nepomuceno é advogada e sócia do escritório Nepomuceno Soares Advogados. Palestrante e professora universitária, defende que a independência financeira e a construção da carreira são fundamentais na ruptura dos ciclos de violência e para o alcance do ODS 5 – Equidade de Gênero.