Vantagem estreita, mas difícil de ser revertida
Cada voto que se retira de um lado vale por dois, já que são apenas dois candidatos em disputa. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) surfa na onda dos apoios de governadores eleitos principalmente do PL e do Republicanos. Cleitinho vai a encontro com o senador do PL e grava vídeo sinalizando para uma agenda programática

É de 4 pontos percentuais a vantagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre o presidente Lula (PT), segundo a mais recente pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, 8. Como são apenas dois candidatos em disputa, cada voto que se retira de um lado vale por dois, pois se soma ao outro lado. Apesar da pequena diferença entre ambos, pela cristalização das posições do eleitorado, não é impossível, mas é difícil de ser revertida.
Os resultados deste Datafolha confirmam uma tendência: as primeiras pesquisas de intenção de voto realizadas após o primeiro turno de uma eleição tendem a ser favoráveis ao candidato que surpreende, como foi o caso de Flávio Bolsonaro. Foi assim em 2014, quando Aécio Neves (PSDB) foi ao segundo turno contra Dilma Rousseff (PT). Ao longo daquela campanha de 2014, a petista reverteu a diferença de 2 pontos favorável ao tucano na primeira pesquisa. O PT abraça essa esperança.
Mas, em 2026, os tempos são outros para a política, digo tecnopolítica: o contexto comunicacional está centralizado nas redes sociais, dominado pelos candidatos da direita bolsonarista e com menor presença das candidaturas de esquerda. Além disso, o país está rachado e o eleitorado de cada lado mais resistente a mudanças de posição. Apenas 8% dos eleitores, conforme o Datafolha, não rejeitam nem Lula nem Flávio. É um pequeno contingente que pode estar mais propenso à movimentação de um lado a outro.
Flávio Bolsonaro já recebeu apoio formal de Ronaldo Caiado (PSDB) e Romeu Zema (Novo), além do escritor Augusto Cury (Avante). Renan Santos, do Missão é a exceção. Crítico de Flávio e de Lula, ele mira o futuro, apostando no pós-lulismo e pós-bolsonarismo. Renan tem interagido de forma bem-humorada com internautas de esquerda nos últimos dias. Na reta final da campanha, houve em favor de Flávio o deslocamento do voto útil de parte do eleitorado de todas essas candidaturas. Augusto Cury, que chegou em alguns levantamentos de campo a pontuar 11%, esvaziou-se nas duas últimas semanas que antecederam o pleito. Nas urnas, Cury somou 2,38%; Caiado, 2,18%; e Romeu Zema, 0,27%.
Surfando na onda de apoios, Flávio Bolsonaro recebeu adesão de 12 governadores eleitos, seis do PL, entre os quais o do Rio, matematicamente eleito com a anulação dos votos de Anthony Garotinho (Republicanos). Dos Republicanos, foram três governadores. Entre eles, além de Tarcísio de Freitas, de São Paulo, o senador Cleitinho, de Minas Gerais, foi levado pela cúpula mineira do PL a Flávio Bolsonaro. Cleitinho não foi candidato de Flávio Bolsonaro em Minas. Mas já havia declarado apoio a ele no primeiro turno. Em vídeo do encontro com Flávio, Cleitinho adotou uma postura programática, buscando extrair compromissos de Flávio, caso eleito, para Minas Gerais. Entre os apoiadores de Flávio, está também o candidato Lorenzo Pazolini (Republicanos), que concorre ao segundo turno nas eleições para o Governo do Espírito Santo.
Os partidos políticos que se mantiveram neutros em relação à disputa nacional do primeiro turno agora se reposicionam. É o caso do Centrão, integrado pelo PP, União Brasil e Republicanos. MDB ainda não formalizou, mas segue na mesma linha, com a tendência de que diretórios do Sul e Sudeste fiquem com Flávio e, no Nordeste, onde Lula detém a maior base, liberem os filiados. O PSD, de Gilberto Kassab, e o PSDB, de Aécio Neves, são as exceções que declaram a neutralidade. Na prática, esses partidos não geram identidade popular. Aqueles que aderem a Flávio o fazem já de olho no futuro governo. Essa é a máxima da política: a expectativa de poder é a maior força gravitacional do sistema.
Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora


