Transição entre governos se inicia em meio a tensões
Em que condições o governador Mateus Simões entregará o governo de Minas ao senador Cleitinho? Quem sai quer mostrar um copo cheio. Mas, para quem entra, este é um momento político crucial: se não detalhar a real situação da administração, poderá ser cobrado indevidamente no futuro

Depois de protagonizar duros embates com o senador Cleitinho (Republicanos) durante a campanha, o governador Mateus Simões (PSD) prepara a transição. É um processo carregado de elementos técnicos e políticos. Em reunião transmitida ao vivo com o secretariado, o governador passou a mensagem institucional de que, embora sentido com os resultados das urnas, valoriza o processo democrático e irá disponibilizar ao sucessor as informações técnicas de cada pasta e estatal.
Mateus Simões anunciou que cada área do governo prepara diagnóstico do modo de funcionamento e políticas públicas em curso. Os dados serão apresentados em reuniões entre as equipes de transição, que irão se estender entre 14 de outubro e 17 de novembro. De acordo com o governador, os encontros também apresentarão planejamento para o final da gestão e a projeção dos riscos para os primeiros 90 dias de governo, com o gerenciamento de um sistema virtual a ser instalado na virada do ano.
Do ponto de vista político, Mateus Simões deixou no ar algumas insinuações durante a reunião. Depois de elogiar o trabalho de sua equipe, em pronunciamento emocionado, disse que ele teve sorte de nascer em uma família com recursos financeiros, mas que se preocupa com o futuro dos 750 mil servidores que dependem dos salários para a sobrevivência. Deixou subentendido que o processo de transição e o futuro governo poderão afetar a dinâmica de pagamentos dos servidores. Ou seja, insinuou que o futuro governo poderá não ter capacidade técnica para manter as contas em dia.
O vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão (Republicanos), será o coordenador da equipe de transição do governo Cleitinho. O governo Cleitinho precisa mostrar como está recebendo o estado, para evitar cobranças indevidas no futuro. E nem tudo são flores.
O Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2027, já encaminhado pelo governo à Assembleia, prevê déficit superior a R$ 8,8 bilhões, aproximadamente R$ 1,2 bilhão maior em relação àquele estimado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), sancionada em agosto. A dívida pública de Minas Gerais é de R$ 208,10 bilhões, dos quais quase R$ 188 bilhões são com a União. Os dados são do Portal da Dívida Pública Estadual. Depois de aderir ao Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag), Minas passará a pagar em 2027 os novos compromissos. São, portanto, duas versões de uma mesma gestão.
Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora


