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Quaresma: conversão ou aceitação?

A ideia tradicional de conversão parece estar desatualizada

Conversão. Será que ainda há espaço para pensar nisso? Bom, é certo que esse parece ser um conceito fora de moda. Ou pelo menos, nessa relação contemporânea entre fé e negócio (porque igreja também é business, você sabe né?), parece que o foco hoje está muito mais em transformar “fiéis” em “clientes”. Afinal, se o cliente é a razão, conversão mesmo, é no funil de vendas.

Ironias a parte, a ideia tradicional de conversão parece estar desatualizada. E isso, não apenas pelo motivo que se esperaria de um padre falar: o fato de que, agora, o “mundo” quer aceitação, e não conversão, como se diz por aí no tribunal da Inquisição (católica e protestante) da internet.

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A ideia de que a fé leva a se converter está fora do contexto. Um pouco, sim, pelo motivo acima. Afinal, hoje todo mundo quer ser afirmado em seu ponto de vista. A gente está muito “dodói”. Qualquer opinião divergente insulta e ofende.

Todavia, a questão é ainda mais profunda. Falar em mudança de rota para um indivíduo cada vez mais autocentrado, que pensa que defender “causas” lhe dá salvo-conduto para ser a própria encarnação da Moral é um desafio. A ideia de olhar para si, com aquela consciência de que um canalha confesso está mais próximo do “céu” do que quem se presume santo e vegano, soa-nos, hoje, uma heresia.

Há muita gente despida do senso de conversão. Falta a muitos a consciência de que para nos tornarmos (com muito custo) pessoas “boazinhas” é preciso clareza sobre a nossa própria inadequação e precariedade. Do contrário, citando Dostoievsky, em Karamazov: sob a máscara da moral, o que temos é um orgulho satânico.

Esse de quem presume pessoal inocência, seja amando, do ar condicionado do seu gabinete, os excluídos, seja mandando os outros ao inferno, sendo que, no fundo, está morrendo de vontade de fazer como a vizinha.

Atualizar o significado de conversão

Precisamos atualizar o que significa a conversão. Preste bem atenção! Atualizar, não “modernizar”. A fé, se genuína, não aceita tudo! Ela compreende sempre uma ruptura, uma mudança de rota, o abandono do que faz pecar. No entanto, é preciso averiguar os “contornos” atuais, singulares, pessoais desse chamado que: tendo valor universal, é sempre próprio, atual e concreto, quanto ao seu conteúdo.

Sem experiência de arrependimento e de conversão, somos escravos. Neurados com a culpa o tempo todo, somos escravos.

E como o conceito de conversão, fugindo do “moderno” ou do “antiquado”, pode ser atualizado? Bom, olhando para as Escrituras, diríamos: na consciência do aniquilamento total contra aquilo a que se combate.

O primeiro passo, para citar Lutero, é saber que o amor de Deus não se destina ao que merece ser amado. Não há nada em nós que nos faça ser credores de Deus. Nem mesmo um rei vence se apoiando em suas forças (Sl 32,16). Não são os sãos que carecem de médico, mas os enfermos (Lc 5,31).

A conversão, enquanto busca de vida interior profunda, se verdadeira, é fruto do encontro com a Graça (o Amor de Deus). Sem a confiança na misericórdia de Deus, sem uma descrença profunda no próprio “bom mocismo” não há conversão, mas orgulho e jogo de cena.

Os Evangelhos dão testemunho disso, ao indicar que o paraíso está mais próximo dos prostíbulos do que de certas “igrejas” (Mt 21,31). Poderíamos dizer que só entra no céu quem se vê a um passo de cair no inferno, e, sustentado, pelo amor de Deus, que tira da rota do abismo, muda de rumo (se “converte”) de novo, e de novo, e de novo. Portanto, Deus nos livre de nós, e da “maldade de gente boa”.

Uma santa Quaresma! Redirecionai o waze e “logai” o Evangelho (Atualizares 1,15).

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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