Caso Hopi Hari: entenda como 'efeito chicote' em montanha-russa pode ter causado sequelas em jovem
Movimentos bruscos de aceleração e desaceleração podem fazer o cérebro e a coluna cervical sofrerem forças intensas, mesmo sem uma pancada na cabeça; em SP, mulher teve perda de movimentos e limitações na fala

Uma montanha-russa pode provocar muito mais do que a sensação de frio na barriga. A combinação de aceleração, desaceleração e mudanças repentinas de direção submete o corpo a forças intensas. Em situações específicas, esses movimentos podem provocar lesões no cérebro e na coluna cervical.
O caso da jovem Julia Rimoli Bossoni, de 28 anos, é um exemplo desse risco. Após andar na montanha-russa Montezum, do parque Hopi Hari em Vinhedo, no interior de São Paulo, ela sofreu um traumatismo craniano, precisou passar por uma cirurgia de emergência e ficou com sequelas neurológicas graves: perda de movimentos do lado esquerdo do corpo e limitações na fala.
Segundo a CNN Brasil, não houve uma pancada direta na cabeça da vítima. A jovem teria sofrido um movimento de “chicote”, também conhecido como whiplash, provocado por uma aceleração ou desaceleração repentina.
O que é o efeito chicote?
O chamado efeito chicote acontece quando o pescoço é submetido a um movimento brusco, fazendo a cabeça se deslocar rapidamente em relação ao restante do corpo. Em uma montanha-russa, esse movimento pode ocorrer durante mudanças rápidas de velocidade ou de direção.

Segundo o neurologista Victor Hugo Espíndola, ouvido pela CNN Brasil, o cérebro fica suspenso dentro do crânio e pode sofrer forças de translação e, principalmente, de rotação durante movimentos desse tipo. Isso significa que uma lesão cerebral pode acontecer mesmo sem a cabeça bater diretamente contra uma superfície.
O especialista explica que esse mecanismo pode provocar uma concussão, com alterações funcionais e metabólicas no cérebro. Em situações mais raras, movimentos muito intensos também podem atingir as artérias cervicais, como as carótidas e vertebrais. Uma lesão nesses vasos pode provocar uma dissecção arterial e, consequentemente, um AVC.
E a coluna?
A região cervical também recebe parte da carga provocada pelos movimentos. Músculos, ligamentos, articulações e discos podem ser afetados. Em casos mais graves, podem ocorrer lesões das raízes nervosas ou da medula espinhal.
Ainda segundo os especialistas ouvidos pela CNN Brasil, as lesões musculoesqueléticas, como distensões musculares e lesões cervicais do tipo chicote, tendem a ser mais frequentes. Complicações neurológicas graves, como a apresentada por Julia, são consideradas menos comuns.
Força G de uma montanha-russa
Outro fator envolvido é a chamada força G. Ela aparece durante acelerações, desacelerações e mudanças de direção. Em uma montanha-russa, o passageiro pode sentir a força atuando em diferentes direções: de baixo para cima, de cima para baixo, lateralmente e para frente.
A CNN Brasil explica que a intensidade dessas forças pode chegar a níveis semelhantes aos experimentados por pilotos de Fórmula 1 em determinadas situações. Em curvas de alta velocidade, pilotos de Fórmula 1 podem experimentar forças entre 5 G e 6,5 G. A intensidade de uma batida, por outro lado, pode ser muito maior.
Isso não significa, porém, que uma montanha-russa produza necessariamente forças equivalentes às de um acidente automobilístico. O efeito depende da intensidade, da direção e da duração dos movimentos.
Quais sinais exigem atenção?
Os especialistas ouvidos pela CNN Brasil destacam alguns sinais que podem indicar uma lesão neurológica após uma atração desse tipo. Entre eles estão:
- dor de cabeça intensa, súbita ou que piora progressivamente;
- vômitos repetidos;
- perda de consciência;
- confusão mental ou sonolência excessiva;
- convulsões;
- alterações na fala;
- fraqueza ou formigamento em um lado do corpo;
- alterações visuais importantes;
- dificuldade para caminhar ou perda significativa do equilíbrio;
- dor cervical intensa;
- perda de força ou alteração da sensibilidade nos braços ou pernas.
A neurologista Lorena Bochenek, do Hospital Mater Dei, afirmou à reportagem da CNN Brasil que, diante desses sintomas, é necessária uma avaliação médica para verificar a existência de traumatismo craniano, lesão cervical ou outras complicações neurológicas.
Quem pode estar mais vulnerável?
Pessoas com alterações importantes na coluna cervical, instabilidade, cirurgias ou lesões anteriores podem apresentar maior vulnerabilidade a determinados mecanismos traumáticos. Crianças e idosos também possuem características anatômicas e biomecânicas diferentes das de adultos jovens que os colocam em maior risco.
Ainda assim, a existência de uma alteração prévia na coluna não significa necessariamente que uma pessoa sofrerá uma lesão em uma determinada atração. De acordo com a especialista ouvida pela CNN, o risco depende da intensidade da força, da direção do movimento, da posição do corpo e das características individuais.
Caso do Hopi Hari segue sob investigação
O acidente envolvendo Julia Bossoni aconteceu em 20 de abril e é investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de São Paulo. O MPSP solicitou perícia no carrinho e na estrutura da Montezum, além de prontuários médicos e outros documentos. Também foram solicitadas informações sobre o sistema de fotografia comercial da atração.
O Hopi Hari afirma que a Montezum possui certificação internacional de segurança, passa por inspeções anuais e segue as normas da ABNT. A empresa também afirma realizar manutenção preventiva diariamente antes da abertura do parque. A investigação ainda deverá esclarecer exatamente quais fatores levaram ao trauma sofrido por Julia.

Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



