Loja de capinhas para celular no RJ movimentou R$50 milhões para facções e dona acaba presa
Polícia também identificou relações comerciais entre empresas ligadas ao esquema e um empresário egípcio investigado pelas autoridades dos EUA por suspeita de vínculos com a organização terrorista Al-Qaeda

Uma loja de capinhas para celular, registrada com capital social de apenas R$ 50 mil, é apontada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) como uma das principais empresas utilizadas para movimentar recursos do tráfico de drogas. Segundo as investigações, o estabelecimento movimentou quase R$ 50 milhões em apenas dois anos e fazia parte de um esquema de lavagem de dinheiro que abastecia organizações criminosas. A proprietária do estabelecimento, identificada como Bárbara Luzia Souza de Carvalho, foi presa.
A descoberta integra a Operação Hawala, deflagrada nesta quarta-feira (15), que mira uma estrutura financeira responsável por ocultar cerca de R$100 milhões provenientes de atividades ilícitas. De acordo com o MPRJ, a operação resultou no cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão contra integrantes de uma organização acusada de lavar dinheiro para o Terceiro Comando Puro (TCP), o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Ao todo, 22 pessoas foram denunciadas pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
As investigações apontam que a loja de capinhas funcionava como uma empresa de fachada para justificar movimentações financeiras incompatíveis com sua atividade comercial. Além da proprietária do estabelecimento, outras pessoas também foram presas na operação.
Os denunciados pelo MPRJ são:
- Bárbara Luzia Souza de Carvalho (presa)
- Reda Zayoun (preso)
- Yasser Zayoun (preso)
- Kassem Zayoun (preso)
- Thierry Martins Lourenço Ribeiro (preso)
- Yago Jorge de Souza Daniel (preso)
- Samuel Morais da Hora (preso)
- Ali Alfakih (preso)
- Lucas Gabriel Vidal (preso)
- Bárbara de Oliveira Rosa (presa)
- Matheus Victor Duarte Borba
- Alax Francesco Bigonha
- Bruno Fabio Gonçalves Valiengo
- Pablo Leonardo Gonçalves Valiengo
- Robson Teles de Farias
- Yussef Awad
- Rafael Moraes de Melo
- Wanderson dos Santos Viana
- Luana da Silva Batista
- Fouad Mohamad Dib
- Kassem Mohamad Diab
- Manoel Simão Reinaldo Gomes Filho
Como funcionava o esquema
Segundo o Ministério Público, o grupo utilizava uma ampla rede de empresas de fachada espalhadas por diferentes estados para ocultar a origem dos recursos obtidos principalmente com o tráfico de drogas. Além da loja de capinhas, a organização também utilizava estabelecimentos ligados ao comércio de produtos falsificados e eletrônicos roubados para dar aparência de legalidade ao dinheiro ilícito.
Os investigadores identificaram ainda a prática conhecida como smurfing, caracterizada pela realização de diversos depósitos de pequeno valor para dificultar o rastreamento das operações pelos órgãos de controle financeiro. O esquema teria movimentado aproximadamente R$ 100 milhões em cerca de três anos.
A Operação Hawala recebeu esse nome em referência a um sistema informal de transferência de dinheiro utilizado há séculos em países do Oriente Médio e do Sul da Ásia, baseado na confiança entre operadores e que pode dificultar o rastreamento das transações. Segundo o MPRJ, a organização criminosa reproduzia mecanismos semelhantes para movimentar valores do tráfico por meio de empresas de fachada, contas bancárias de terceiros e operações financeiras destinadas a ocultar a verdadeira origem dos recursos. Além das prisões, a Justiça determinou o bloqueio de contas bancárias, bens e participações societárias dos investigados.
Ligações com terrorismo
Durante a investigação, a Polícia Civil identificou relações comerciais entre empresas ligadas ao esquema e um empresário egípcio investigado pelas autoridades dos Estados Unidos por suspeita de vínculos com a organização terrorista Al-Qaeda. Durante a operação, também foram presos três irmãos libaneses apontados como responsáveis por expandir a estrutura financeira da organização para outros estados e para o exterior.
Os homens foram identificados como Reda, Yasser e Kassem Zayoun. O trio de origem libanesa atuaria na circulação interestadual e recursos ilícitos, com indícios de operações na região da Tríplice Fronteira (Brasil-Paraguai-Argentina).
Apesar da descoberta, os investigadores ressaltam que, até o momento, não há comprovação de uma ligação direta entre as facções criminosas brasileiras e a Al-Qaeda. A apuração indica a existência de relações comerciais e financeiras com pessoas investigadas por supostos vínculos com o grupo extremista, o que segue sendo objeto de investigação.
Estudante de Jornalismo na PUC e apaixonada pela área, Gabriela Neves gosta de contar histórias empolgantes e desafiadoras. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e mundo. Tem experiência em marketing pela Rock Content, cobertura de cidades pela Record Minas e assessoria política na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.



