Convidada para falar sobre o aliciamento e recrutamento de adolescentes por organizações criminosas e outros aspectos ligados à criminalidade organizada, a juíza do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Vanessa Cavalieri, viralizou nas redes sociais após relatar a história de uma jovem que tentava ser inserida no mercado de trabalho, mas que foi recusada por diversas empresas devido ao endereço onde morava: um abrigo.
A magistrada é responsável pelo julgamento do adolescente envolvido no caso do estupro coletivo de uma jovem de 17 anos, em Copacabana. O depoimento foi feito durante a CPI do Crime Organizado, no Senado Federal, na última terça-feira (11). Durante o relato, Cavalieri reforçou os desafios do sistema socioeducativo, além da importância de políticas públicas preventivas.
“Não é possível que a gente continue tendo um único objetivo para o estudante brasileiro, que seja chegar à faculdade. Esses meninos inseridos no mundo do crime não vão chegar à faculdade e não querem chegar até lá. A pergunta que eu mais escuto durante uma audiência em que eu sentencio esses adolescentes é: ‘Dra., a senhora me arruma um jovem aprendiz?’ E, na maioria das vezes, eu não consigo, porque as empresas não querem esses adolescentes”, começou ela, explicando que a criminalidade juvenil começa muito antes dos 18 anos e que políticas de intervenção precoce podem mudar o percurso desses jovens.
Desembargadora muda endereço de jovem de abrigo para bairro nobre, e ela recebe 32 convites de emprego
— Itatiaia (@itatiaia) March 16, 2026
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“Tivemos o caso de uma menina que enviou vários currículos. Ela não era infratora, era uma menina acolhida porque não tinha família, e nunca recebeu nenhum convite, nenhuma resposta para participar de processo seletivo. Então, a desembargadora gestora da comissão mudou no sistema o endereço da menina. Tirou o bairro onde ela morava (que era o abrigo) e colocou o endereço da própria desembargadora, um bairro nobre do Rio de Janeiro. No dia seguinte, ela teve 32 convites para participar de processos seletivos em empresas. O mesmo currículo, a mesma menina, a mesma fotografia — a diferença era só o bairro onde ela morava”, finalizou, cobrando uma reforma na educação do país para que os adolescentes possam se profissionalizar.
A juíza também afirmou, durante a CPI, que atos violentos contra mulheres cometidos por homens são, principalmente, praticados por jovens de classe média. Ainda segundo ela, a faixa etária com maior número de homens misóginos é a adolescência, conforme dados de uma universidade inglesa que relacionam esse fenômeno ao acesso precoce à pornografia.
Cavalieri ressaltou que, enquanto jovens de comunidades costumam se envolver em crimes como roubo, furto e tráfico, episódios de extrema crueldade aparecem entre adolescentes de classe média, com acesso à escola e a famílias estruturadas. Para a magistrada, a raiz da violência está na falta de conexão humana, afeto e pertencimento.
Relembre o caso
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A menor foi recebida pelo ex na portaria do prédio e disse que o encontro teria a presença de outras pessoas, mas a menor disse à polícia que não teria concordado com a proposta. Já no apartamento, ela teria sido obrigada a praticar atos sexuais com quatro jovens maiores de idade.
A vítima afirmou que também foi agredida e impedida de sair do quarto. O exame de corpo de delito confirmou lesões nas partes íntimas da menor.
Os quatro acusados vão responder por estupro coletivo qualificado, por se tratar de uma menor de idade e por manter a vítima em cárcere privado.
O menor suspeito de envolvimento no crime teve a representação socioeducativa requerida pelo MP por atos infracionais análogos. O disque-denúncia divul