Vídeo: mulher que ficou 1h em parada cardíaca recebe alta após 71 dias internada em BH
Em entrevista à Itatiaia Jasper Coelho Neto, de 29 anos, marido de Eniliane Andrade Silva de 24 contou contou com detalhes a história que emocionou até a equipe médica

“Ainda que você falasse a língua dos homens e dos anjos, sem amor, nada seria”, foi com essas aspas, eternizadas na voz de Renato Russo, que Jasper Coelho Neto, de 29 anos explicou o sentimento que fica ao voltar para casa com a esposa Eniliane Andrade Silva, de 24 anos, depois de 71 dias de internação. Em entrevista à Itatiaia nesta quinta-feira (9), Jasper contou com detalhes a história que emocionou até a equipe médica.
Eniliane teve um mal súbito dentro de um ônibus no dia 24 de abril (quinta-feira), enquanto voltava para casa onde mora com o marido, no bairro Ressaca, em Contagem, na Grande BH.
Jasper, que não consegue deixar de mencionar os fatos sobrenaturais da história, relembra um detalhe fundamental: dentro do ônibus estavam dois socorristas, também do bairro Ressaca, voltando para casa.
A jovem, que trabalha como telefonista e é estudante de direito, ficou sob reanimação cardiopulmonar (RCP) por cerca de 15 minutos, enquanto o coletivo mudava a rota e seguia para o Hospital Alberto Cavalcanti, no bairro Padre Eustáquio.
"Quando cheguei ao hospital, a médica saiu e falou: 'Sua esposa teve um mal súbito e nós já estamos há 40 minutos tentando ressuscitá-la'. Naquele momento, meu mundo caiu", relembra Jasper.
Casados há quatro anos, Jasper e Eniliane se conheceram muito jovens na igreja e namoraram por quatro anos antes do casório. Jasper contou tudo que seria interrompido se a esposa não voltasse a ter batimento cardíaco.
“Acabou de sair nosso apartamento, financiado. Ela estava publicando artigos na faculdade e eu pensando em prestar um concurso”, contou.
Apesar de se considerar um homem de muita fé, ele conta que conhecia a gravidade da situação. Dias antes, Jasper perdeu uma amiga de 29 anos após um mal súbito e sabia o que aqueles longos minutos de reanimação poderiam significa
Quando o relógio se aproximava dos 60 minutos, ele acreditava que estava prestes a perder a esposa. Segundo colegas que acompanharam o atendimento, a equipe médica decidiu realizar um último ciclo de reanimação antes de declarar o óbito.
Foi então que aconteceu o inesperado. "No último choque, o coração voltou a bater", contou. “Eu caí no chão e chorei como nunca tinha chorado”.
O pior diagnóstico possível

Apesar de o coração voltar a bater, a situação continuava gravíssima. Eniliane foi entubada, e, no dia seguinte, transferida para o Hospital Metropolitano Dr. Célio de Castro, na região do Barreiro.
Poucos dias depois, Jasper foi chamado para conversar com a equipe médica.
"O cérebro dela estava muito inchado. A médica falou que o prognóstico era muito ruim. A tendência era ela perder as funções do organismo até os órgãos pararem ou permanecer em estado vegetativo."
Na sala, médicos e familiares se emocionaram ao ouvir a resposta de Jasper:
"Se eu soubesse, antes de conhecê-la, que viveria toda essa dor, eu preferia sofrer isso por mil vezes do que nunca ter vivido a nossa história. Tudo o que nós construímos vale qualquer sofrimento"
Em entrevista ele relembrou uma viagem recente do casal, onde os dois se declararam e conversaram sobre como estavam felizes um com o outro.
Durante a investigação para descobrir o que provocou o mal súbito, os médicos identificaram um trombo no coração de Eniliane. A expectativa da equipe era que, após a reabilitação neurológica, a jovem precisasse passar por uma cirurgia cardíaca de peito aberto para a retirada do trombo.
No entanto, um novo exame trouxe mais uma surpresa. De acordo com Jasper, a massa havia desaparecido completamente. "A médica ficou incrédula. Ela olhou o exame e disse: 'Isso é um milagre'.
Setenta e um dias de hospital

Os dois meses seguintes foram marcados por novos desafios. Ao invés de acordar ao lado da esposa, na casa do casal, Jasper se revezava com a família para acompanhar os dias de Eniliane no hospital.
Na terça-feira (30 de abril), o cenário era considerado praticamente irreversível. Na quarta (1º), Eniliane começou a mexer os braços e na sexta-feira (3), abriu os olhos.
Provando que Jasper estava certo ao definir a esposa como uma mulher resiliente e determinada, em poucos dias Eniliane começou a apresentar sinais de melhora. “Ela começou a mexer na cama, e a médica me disse ‘você pode achar confuso pela notícia que recebeu ontem, mas apesar do diagnóstico, ela parece estar tentando acordar’”, relembrou.
A recuperação surpreendeu a equipe médica e uma nova tomografia mostrou uma melhora considerada extremamente rara.
"A médica falou que, em cinco anos coordenando a UTI, nunca tinha visto uma diferença tão grande entre duas tomografias como a dela", conta Jasper.
Mesmo assim, não havia garantias. Eniliane entrou no chamado estado de consciência mínima, quando há sinais de interação com o mundo exterior.
“Primeiro apertava a mão. Depois acompanhava pessoas com o olhar. Mais tarde passou a emitir sons. A gente piscava um pro outro”, relembra Jasper.
Internada há mais de um mês, Eniliane ainda precisou enfrentar uma infecção hospitalar. Mas assim que se recuperou, a equipe médica decidiu dar alta para a paciente no dia 1º de julho, completando 71 dias de internação.
Emocionado, Jasper conta como foi o primeiro dia em casa: "Uma noite em casa vale mais do que a melhor noite que tivemos no hospital", relembra.
‘Hoje sou ainda mais apaixonado pelo SUS’
Profissional de educação física da rede pública de saúde, Jasper afirma que sempre acreditou na importância do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas foi ao acompanhar os 71 dias de internação da esposa que, segundo ele, passou a enxergar ainda mais o papel da saúde pública na vida dos brasileiros.
Durante o tratamento, Eniliane foi atendida em diferentes unidades do SUS, atendimento que, na avaliação dele, seria inacessível para grande parte da população se dependesse exclusivamente da rede privada.
"Se fosse em qualquer outro país, um tratamento desse nível, com tantos profissionais envolvidos, custaria uma fortuna. Uma hora dessas, a gente estaria completamente endividado. Hoje sou ainda mais apaixonado pelo SUS"
Uma nova vida começou com novos desafios
Hoje, ele passa os dias realizando exercícios orientados por fisioterapeutas, estimulando movimentos, fala e alimentação. "É a mente dela funcionando. Ela está reaprendendo tudo do zero”, conta.
Os médicos ainda não conseguem prever quando — ou até que ponto — Eniliane irá recuperar plenamente a consciência. Apesar da incerteza, os avanços diários alimentam a esperança da família e surpreendem quem acompanha a recuperação da jovem.
"Estou treinando a marcha com ela e, outro dia, ela começou a dar os passos sem o meu auxílio. Como não ter esperança? É uma batalha de fé. Qual é o limite da fé?", questiona Jasper.
Enquanto isso, a família enfrenta despesas com medicamentos, fraldas, alimentação especial, adaptações na casa e equipamentos.
"Os remédios são caros. Minha sogra precisou parar de trabalhar. Eu estou afastado e ainda não sei como será daqui para frente."
Mesmo diante das dificuldades financeiras, Jasper admite que sente vergonha de pedir ajuda.
Ainda assim, autorizou que seu perfil nas redes sociais seja divulgado para quem desejar contribuir: @jaspercoelhopersonal.
Jornalista graduada na PUC Minas. Trabalhou como repórter do caderno Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, produziu conteúdos para as editorias Turismo, Gastronomia e Emprego/ Concursos. Atualmente, colabora com as editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo.



