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UFMG anula fase de concurso para professor negro que só aprovou candidatos brancos

Candidatos serão convocados para realizarem novamente a última etapa da seleção em até 30 dias; UFMG não comenta denúncia de discriminação e diz que prova foi anulada por descumprir regras de edital sobre videoconferência

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Concurso busca preencher vaga de Professor Adjunto do Departamento de Fisiologia e Biofísica, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) • Reprodução/Google Maps

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) anulou a última etapa do concurso para Professor Adjunto do Departamento de Fisiologia e Biofísica, do Instituto de Ciências Biológicas (ICB). A única vaga era reservada para candidatos negros. Houve quatro classificados - todos brancos.

Apesar das denúncias de discriminação durante o processo seletivo e a reclamação dos candidatos negros, a instituição alega que a decisão foi tomada apenas em razão do descumprimento de itens do edital relacionados a realização da banca por videoconferência. O documento que anuncia a anulação da fase de apresentação de seminários foi publicado na última sexta-feira (5).

De acordo com o edital, apenas os membros da banca que não pertencem ao quadro de pessoal da UFMG poderiam participar remotamente da avaliação. Porém, a banca foi feita completamente por videoconferência, o que viola itens do edital. Além disso, o edital previa que os candidatos não assistissem à apresentação dos concorrentes, mas o link dos seminários foi divulgado abertamente.

Vaga era para candidatos negros, mas só brancos foram aprovados

O concurso busca selecionar um professor com especialização na área de regulação neural das funções cardíaca e/ou vasomotora ou fisiologia respiratória ou fisiologia digestória. O edital, publicado em 21 de setembro do ano passado, afirma: "a vaga ofertada no presente edital será provida, preferencialmente, por candidatos concorrentes às vagas reservadas aos negros".

Em entrevista à Itatiaia, Isabela Corby, advogada da pesquisadora Giselle Magalhães, uma das candidatas negras reprovadas, explicou que a última etapa do concurso teve a participação de sete pessoas: três negras e quatro brancas. Porém, a banca avaliou a apresentação dos concorrentes negros com notas significativamente menores que a dos brancos, o que fez com que todos eles fossem reprovados no resultado final.

"A Giselle, por exemplo, tem a maior nota de currículo (95 em 100), o que mostra toda a trajetória acadêmica dela, as pesquisas, os trabalhos. É uma forma de mostrar que ela tem experiência e conhecimento. Mas quando chega na hora dos seminários, ela não vai bem. A Giselle pede a justificativa da nota e acesso ao vídeo da apresentação. Mas a UFMG não consegue entregar para a gente as imagens, que são direito dela, por 'problemas técnicos'. Eles gravaram todas as apresentações em um único arquivo e não conseguem cortar a parte da Giselle para nos enviar. Queremos assistir o vídeo para entender se houve um tratamento diferente entre negros e brancos, como algumas pessoas nos falaram", explica.

Apesar da universidade ter anulado a etapa de seminários do concurso, os candidatos que haviam sido reprovados antes pedem para que uma nova banca seja contratada.

"A banca descumpriu regras do edital. Quiseram mudar as regras do jogo enquanto o jogo estava acontecendo. A banca que cometeu as ilegalidades e, agora, eles querem manter a mesma banca. Com a UFMG a gente já viu que é muito difícil eles entenderem a necessidade de uma nova banca, que não está com o olhar contaminado, que tem outra capacidade de análise. Então, vamos acionar o Ministério Público Federal", afirma.

Isabela pede que a universidade tenha um olhar mais sensível para as políticas afirmativas. "A UFMG, ou esse departamento, não consegue ter um letramento racial mantendo a mesma banca. Assim, você está dando as mesmas condições e vantagens para quem sempre teve. É um racismo institucional", argumenta.

Em nota à Itatiaia, a UFMG não quis comentar as denúncias de discriminação durante o processo seletivo, e reafirmou que anulou a etapa de seminários porque a banca foi feita por videoconferência.

"O anulamento da prova de seminários, conforme esclarece a nota enviada anteriormente, foi em razão do não cumprimento do rito (previsto pelo edital) de que todos os candidatos devem realizar a prova de forma presencial e não por videoconferência, conforme ocorreu", informou a instituição.

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Fernanda Rodrigues é repórter da Itatiaia. Graduada em Jornalismo e Relações Internacionais, cobre principalmente Brasil e Mundo.