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Os últimos do Colônia: conheça as histórias dos 14 sobreviventes do manicômio em Barbacena

Ex-pacientes serão transferidos do território onde funcionava o hospício a partir desta segunda-feira (25)

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Imagem ilustrativa. Sobreviventes do Hospital Colônia de Barbacena serão realocados • Joice Lourenço / Reprodução Museu da Loucura

As histórias deles se confundem com números. No início, estavam em um dos centenas de vagões lotados. Eram mais uns no amontoado de pessoas nos “trens de doidos”. Depois, viraram parte de milhares. Se tornaram um dos milhares torturados, um dos milhares que passavam fome, um dos milhares que viviam sem roupas. Eram uma das muitas vozes que gritavam ou um dos muitos que preenchiam os corredores com o silêncio decrépito. Por pouco, não viraram um dos 60 mil que morreram. Contra as estatísticas, viraram parte de uma porção reduzida, eram aqueles que tinham sobrevivido. A cada fase, os números diminuíram. Agora, são parte de 14. São os sobreviventes de um dos episódios mais cruéis da história brasileira que ainda vivem no território onde ocorreram os horrores. São os 14 últimos a deixarem o Hospital Colônia de Barbacena. 

Essas 14 pessoas são ex-pacientes do manicômio, cenário de violações de direitos humanos fundado em 1903 e que começou a ser desativado na década de 80. Atualmente, vivem em residências construídas, em 1987, para eles e outros sobreviventes no território onde funcionava o hospício, de 3,2 milhões de m², conforme a Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig). Antes, eram 120 ex-internados. Agora, restam 14, que a partir desta segunda-feira (25), serão desinstitucionalizados e realocados para uma espécie de lar de acolhimento na zona rural de Barbacena.

Apesar de as histórias deles terem sido reduzidas a números por muitos anos, eles têm nomes. Nomes que já não conseguem mais dizer. De dois, as trajetórias também são ocultas. São 12 os quais as histórias serão contadas, mas sem os nomes reais. Não porque eles não importam, mas por segurança. Os nomes nesta reportagem são fictícios e os gêneros foram embaralhados para preservar a identidade das vítimas. As informações foram cedidas à Itatiaia pela Fhemig. Segundo a instituição, todos são idosos, com média de idade de 73 anos, e têm condições de saúde delicadas. 

No escuro

De olhos fechados. É assim que vive Milena em longos períodos. Milena fecha os olhos, mas talvez não consiga parar de ver o que gostaria de esquecer. A idosa é artista e analfabeta. Na maior parte do tempo, está lúcida e é totalmente dependente da equipe que cuida dela e dos demais. No rosto de Milena, outra coisa chama atenção além dos olhos cerrados: o sorriso. Apesar do que um dia viu, ela sorri. A idosa se tornou sorridente desde que foi para a casa feita para abrigar ela e os demais sobreviventes. As cinco construções, feitas para 120 ex-pacientes, ficam dentro do terreno onde funcionava o Colônia. 

Milena sorri, mas talvez lá, naquele mesmo espaço, não tenha feito isso antes. Pode ser que tenha cerrado os dentes para suportar o que vivia, pode ter aberto a boca para gritar ou engolido em seco as palavras que morriam na boca diante tamanha crueldade. 

Gabriel não enxerga, mas canta. Ele adora música. Anda pela casinha, se apoiando nos corrimãos e cantando. Em outra época, os barulhos que vinham do Colônia eram outros, torturas eram comuns dentro dos muros da instituição. “A privação da liberdade, a contenção física e castigos foram os principais recursos, ditos de tratamentos, que a psiquiatria usou para lidar com as pessoas que apresentavam transtornos mentais ou aquelas que, por imposição social, ‘necessitavam’ de um controle de comportamento, ideias, e emoções”, explica a psiquiatra e psicóloga Miriam Abou-Yd. Entre as medidas utilizadas, a profissional cita os eletrochoques e as lobotomias. Segundo a jornalista mineira Daniela Arbex, que cunhou o termo Holocausto Brasileiro para se referenciar ao ocorrido no manicômio, foram cerca de 60 mil mortes de pacientes. 

Despidos 

Pablo conheceu o verde das fazendas. Tinha sentido o cheiro da grama molhada pelo sereno gelado da Serra da Mantiqueira, pode ter andado a cavalo e plantado verduras. Sabia o que era o silêncio reconfortante da área rural. Tudo isso foi interrompido quando começou a apresentar dificuldades motoras e a “ficar triste”. O cheiro de molhado passou a ser outro. O silêncio mudou. Parou de ter contato com os animais, passou a ser tratado como um. Em 1979, ao visitar o Colônia, o psiquiatra italiano Franco Basaglia chamou o local de “campo de concentração”. 

Pablo gostava de ouvir histórias e se imaginar nelas. Talvez não tenha se despido dos sonhos, poderia criar cenários em que voltava à fazenda ou até mesmo desejar conhecer a cidade movimentada. A possível inquietude da mente, que por ora se manifestava como histórias, outras vinha como sinais de instabilidade. O idoso costumava alternar entre gritar e ficar mudo. 

Segundo a jornalista mineira Daniela Arbex, que cunhou o termo Holocausto Brasileiro para se referenciar ao ocorrido no manicômio, foram cerca de 60 mil mortes de pacientes • Joice Lourenço / Reprodução Arquivo Museu da Loucura
Segundo a jornalista mineira Daniela Arbex, que cunhou o termo Holocausto Brasileiro para se referenciar ao ocorrido no manicômio, foram cerca de 60 mil mortes de pacientes • Joice Lourenço / Reprodução Arquivo Museu da Loucura

Antes, Simone não gostava de usar roupas. Talvez tivesse perdido o costume. No Colônia, era comum que os internos não tivessem vestimentas. Agora, ela gosta das peças mais coloridas. Por ser muito vaidosa, usa as roupas acompanhadas de batom, esmalte nas unhas e hidratante na pele. Simone gosta de provar comidas diferentes, o que também destoa da época em que o manicômio estava ativo, quando os alimentos eram raros e, muitas vezes, estragados, como denunciou Arbex no livro Holocausto Brasileiro. Água potável também era raridade no Colônia. Assim como outros, Simone só bebia água diretamente da torneira.

A idosa foi levada para o manicômio pela polícia. Pode ter sofrido truculência. Talvez por isso apresente comportamento instável. Simone é carinhosa com as servidoras que cuidam dela, mas parte para agressão facilmente. Pode ter precisado aprender a se defender. Hoje, precisa usar cadeira de rodas. 

Marcos já não gosta de roupas e sapatos. É intolerante ao toque. Perdeu o costume, chegou ao manicômio muito novo, com apenas 10 anos. Talvez tenha sido tocado de maneira violenta, pode não ter conhecido o carinho, um abraço. Não gosta de interagir. Carrega consigo cinco décadas de internação. Por não falar, não pode relatar o que viveu nos anos de prisão. Se falasse, poderia não querer relembrar. No início, tinha dificuldade de entender o que acontecia, talvez até hoje não tenha entendido. Tinha episódios de “desvio de conduta”.

‘Fora da linha’

Alice chegou ainda criança, transferida de uma unidade de acolhimento. Passou uma vida inteira no mesmo terreno, até agora. Quando foi levada para o Colônia, assim como outras meninas, tinha problemas de “rebeldia”, que pioraram quando ela perdeu o vínculo com a família. Alice é vaidosa e ciumenta. Gostava de fazer bolinhas de papel enquanto assistia televisão. 

Amanda também foi para o Colônia por “apresentar crises de raiva”. Filha de mãe solteira, foi internada ainda menina, aos 13 anos. Ela gostava de perturbar, roubava comida dos outros pacientes e incomodava a noite inteira, puxando cobertas e batendo palmas. Talvez não gostasse do silêncio que podia se instaurar nas noites geladas de Barbacena. A quietude dentro dos muros do hospício não representava paz, mas o abandono vivido por aqueles que foram mandados para morrer. 

Marta também era considerada “nervosa” quando criança, época em que foi internada. O manicômio é conhecido por ter sido destino de pessoas que sequer tinham transtornos psiquiátricos, como revelou Arbex. Segundo a jornalista, cerca de 70% dos enviados ao Colônia não tinham diagnóstico. No entanto, para muitas meninas e mulheres, bastava um passo fora da linha para serem trancafiadas.

“A presença de mulheres nos hospitais psiquiátricos tinha, em especial, motivos que dialogavam com diagnósticos ou históricos puramente morais. A internação [foi] utilizada para punir e isolar mulheres que desafiaram as normas vigentes, as normas impostas, em especial pelo poder masculino”, afirma Miriam Abou-Yd. A profissional, que é militante do Fórum Mineiro de Saúde Mental e da Frente Mineira Drogas e Direitos Humanos, aponta que o envio de mulheres para manicômios funcionava como um controle social do corpo feminino. 

Imagem ilustrativa. Sobreviventes do Hospital Colônia de Barbacena serão realocados • Pedro Chagas / Reprodução Arquivo Museu da Loucura
Imagem ilustrativa. Sobreviventes do Hospital Colônia de Barbacena serão realocados • Pedro Chagas / Reprodução Arquivo Museu da Loucura

A psiquiatra e psicóloga também destaca que pessoas pretas e pobres estavam entre os principais alvos das internações compulsórias. “Com os discursos eugenistas e higienistas da psiquiatria que associavam a herança racial a uma suposta degeneração moral e mental. E também, a questão do recolhimento imperativo dos pobres e marginalizados, também negros, na lógica do controle social”, explica Miriam Abou-Yd. 

Sozinhos

Heloísa era bastante agitada. Ficava inquieta. Talvez na época do Colônia andasse pelos corredores marcados pelo medo. Teve que reaprender a se alimentar. Uma única vez, foi visitada por supostos familiares no aniversário dela, mas não os reconheceu. Não é possível saber se eles não eram parentes, se a idosa tinha se esquecido ou fingiu não se lembrar, ressentida por ter sido abandonada por tantos anos. 

A história da família de Arthur se mistura à da instituição. Os pais tinham transtornos mentais, ele cresceu no manicômio com outros irmãos. Foram umas das muitas crianças do Colônia. A infância corrompida pelos horrores cometidos. Não foi informado se Arthur nasceu no Colônia ou chegou ainda pequeno. O paradeiro dos irmãos também não foi detalhado. Arthur pouco verbaliza, não se locomove e não enxerga.

Alessandra chegou criança, mais uma que não conheceu a liberdade plena. Teve a fase pueril tirada dela. Talvez tenha brincado, usado a imaginação fértil da infância, já que não tinha brinquedos. Talvez nem isso tenha sido possível. Os gritos e horrores do Colônia podem ter interrompido as invenções de criança. 

Livres, mas sem dançar

Lívia conseguia falar, mas não contava nada sobre sua história. Não é possível saber se ela não se lembrava ou escolhia ficar em silêncio. Há apenas uma informação sobre ela: gostava de bailes. Talvez gostasse de dançar ao som das músicas altas que irrompiam nas discotecas. Nos documentos da idosa, não há registro dos nomes dos pais. Parece ter vindo ao mundo sozinha. Certamente viveu sozinha, ela e as memórias dos bailes. 

No passado, Lívia fugia muito. Escapava dos muros de onde um dia foi o Colônia. Ela poderia estar à procura de um lugar para dançar, talvez estivesse em busca de onde veio. Agora, finalmente vai escapar do cenário de seus pesadelos. Lívia poderá ouvir música, quem sabe até sonhar com um baile na nova casa, mas, assim como os outros, já não pode mais dançar. 

“O hospital resistiu ao seu fechamento com a mesma força nefasta que ele segregou, anulou, torturou e aniquilou corpos, subjetividades e histórias daquelas milhares de pessoas que tiveram o infortúnio de estar dentro de seus muros nesses mais de 100 anos”, afirma a psiquiatra e psicóloga Miriam Abou-Yd. A profissional destaca que, apesar da desinstitucionalização dos 14 sobreviventes, o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena continuará funcionando no terreno onde era o Colônia. O Museu da Loucura, na mesma área, também seguirá aberto. 

“A desinstitucionalização das pessoas, de todas as pessoas do Brasil, que foram abandonadas, cronificadas, violentadas, segregadas nos hospitais psiquiátricos, com o aval da sociedade, é uma das exigências dos movimentos antimanicomial, os principais artífices da reforma psiquiátrica do país”, atesta Miriam Abou-Yd.

Sobreviventes serão desinstitucionalizados e realocados para uma espécie de lar de acolhimento na zona rural de Barbacena • Pedro Chagas / Reprodução Museu da Loucura
Sobreviventes serão desinstitucionalizados e realocados para uma espécie de lar de acolhimento na zona rural de Barbacena • Pedro Chagas / Reprodução Museu da Loucura

Luta antimanicomial 

Segundo a psiquiatra e psicóloga, no final da década de 1980, começaram as primeiras denúncias das violências ocorridas dentro dos manicômios no país. A profissional afirma que a vinda do psiquiatra italiano Franco Basaglia, em 1979, a convite dos organizadores do terceiro Congresso Mineiro de Psiquiatria, fez com que a sociedade começasse a ter ciência do que ocorria dentro dos muros dos hospícios. Miriam Abou-Yd explica que Basaglia era conhecido por ter fechado uma dessas instituições em Trieste, na Itália, e conseguido a aprovação do fim dos hospitais psiquiátricos em 1978 no país europeu. 

Quanto à luta dos movimentos sociais antimanicomial no Brasil, a psicóloga e psiquiatra afirma que teve origem em 1987 no Encontro Nacional dos Trabalhadores de Saúde Mental em Bauru (SP). “Nesse encontro, usuários, familiares, trabalhadores e gestores decidiram lutar pela inclusão da diferença, pela garantia de direito, autonomia e reinserção social das pessoas em sofrimento mental e por uma sociedade sem manicômios”, afirma a militante do Fórum Mineiro de Saúde Mental e da Frente Mineira Drogas e Direitos Humanos.

Segundo ela, a partir desse encontro, por pressão das entidades antimanicomiais, esses tipos de hospitais começaram a ser substituídos pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), descrita por Miriam Abou-Yd  como: “Uma rede de cuidados ampla, territorializada, comunitária, diversificada e em condições de atender os usuários da saúde mental em seus diferentes momentos e necessidades”. Entre os serviços da RAPS estão os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Centros de Convivência e Cultura (CECO), Consultório na Rua e entre outros, conforme o Ministério da Saúde. 

Miriam Abou-Yd explica que, também por pressão do movimento antimanicomial, foi aprovada a Lei da Reforma Psiquiátrica (nº 10.216/2001) em 2001. “Ela nos deu um arcabouço jurídico para avançar na reforma”, afirma. A legislação, que neste ano completa 25 anos, foi o marco do fim dos manicômios no país. 

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Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.