Mulher faz relato sobre a experiência e desafios de ser mãe de criança superdotada: 'ninguém enxerga'
Fabíola Sandy, mãe de duas meninas superdotadas, luta para que as crianças sejam inclusas com menos julgamento; nessa quinta-feira (10), foi comemorado o Dia Internacional da Superdotação

A Associação Mensa Brasil, que reúne as pessoas com alto QI consideradas superinteligentes, estima que cerca de 2,6 mil brasileiros convivem com essa condição. Quando pensamos em crianças superdotadas, logo imaginamos um pequeno gênio que nasceu sabendo sobre tudo. Quem nunca quis ter altas habilidades na época de escola?
Fabíola Sandy, empresária, advogada e mãe de duas meninas superdotadas, compartilha que a experiencia não é marcada apenas por notas boas. Mas sim, por muitas dificuldades. “Ter altas habilidades até pode ser um presente dos deuses, mas quando tudo é muito bem conduzido. Nossa vida é uma dificuldade atrás da outra. Isso, ninguém enxerga”, disse.
A pequena Letícia, de seis anos, é uma das 209 pessoas identificadas pela organização, em Minas Gerais, que ocupa o terceiro lugar no ranking nacional. Ela nasceu em 2017 em Belo Horizonte. Mas, foi no ano seguinte, quando o casal se mudou para Três Pontas, no Sul de Minas, em busca de uma vida mais tranquila e mais próxima à natureza, que eles perceberam algo diferente.
“Em 2020, com a pandemia, fomos morar na fazenda e, embora tenhamos nos isolado muito, percebíamos que os marcos de desenvolvimento de nossas filhas eram muito precoces em relação às outras crianças”, contou. As formas de falar e de se recordarem dos fatos chamaram a atenção dos pais. “A fala muito desenvolvida, parecia um ‘mini adulto’ falando. Sem contar a memória, ela lembrava, com precisão, de fatos que ocorreram há anos”, relatou.
Foi no ano passado, quando ela foi para escola, que os pais descobriram a superdotação: “isso passou a ser um tormento em nossas vidas, pois apresentava recusa e estava caminhando para fobia escolar. Nesse período, começaram ainda mais os questionamentos feitos por ela. O perfeccionismo exagerado passou a ser um grande problema, além da sensibilidade”, lembrou.
Diferente do que muita gente pode pensar, os pais de superdotados podem enfrentar grandes dificuldades. “Elas são, em sua maioria, crianças perfeccionistas e muito sensíveis. Tudo que foge às expectativas criadas por eles é um grande problema, o que gosto de chamar de Terceira Guerra Mundial”, relatou.
A mãe ainda ressalta que, por se tratar de crianças curiosas, isso acaba por incomodar os adultos - que não acolhem esse tipo de característica. “Adultos querem que crianças sejam muito comportadas, como robôs. Talvez, por isso, temos visto tantas pessoas medicadas na primeira infância e na adolescência — muitas vezes é melhor calar do que descobrir a causa”, analisou.
Fabíola explica que a superdotação é confundida com o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou o Transtorno do Espectro Autista (TEA). “Os próprios profissionais da saúde não sabem lidar ou desconhecem as características dos superdotados e, por isso, temos tantos diagnósticos errados”, apontou.
Na escola
De acordo com Fabíola, a pequena Letícia foi a primeira criança em Minas Gerais a ser acelerada, no ensino infantil, por dois anos — pulou do primeiro período para o 2º ano. “Essa aceleração é apenas um dos passos necessários para ajudá-la. Essa medida acontece em conjunto com outras intervenções, deixando com que ela fique junto aos seus pares mentais e sofra menos prejuízos emocionais. Ela é acompanhada por uma equipe altamente qualificada nessa área. E, ao contrário do que muitos pensam, adiantá-la na escola não prejudica seu desenvolvimento enquanto criança, ela já nasceu diferente, só ajuda a deixá-la mais calma e feliz”, relatou.
A mãe contou que os resultados têm sido positivos e Letícia já gosta de ir para escola e acompanha muito bem a turminha. Mas essa não é uma realidade de todas as crianças que precisam de uma atenção especial. “Infelizmente, temos visto, entre os pais de superdotados, que as escolas não aceitam a aceleração como forma de ajudar a criança. Continuam arraigadas em conhecimentos sem embasamento científicos, que já caíram por terra. Profissionais que dizem estar preocupados com a maturidade emocional e estão causando sérios problemas na vida de um Alto Habilidoso”, apontou.
Ela disse que um dos maiores medos que os pais de superdotados têm é que o filho sofra bulliyng, algo comum, ao serem crianças atípicas e costumam agir e ter interesses diferentes das demais. “Por serem extremamente perfeccionistas e se cobrarem demais, é corriqueiro ter problemas de autoaceitação, além de questionamentos muito intensos sobre a própria vida ou morte e um alto índice de depressão na juventude”, afirmou.
A luta de Fabíola e de outros pais de crianças superdotadas é de que elas sejam inclusas e que haja menos julgamentos. “Não é fácil criar uma criança atípica, seja qual for a atipicidade dela. Nossos filhos não são melhores por serem superdotados, nós passamos por dificuldades para criá-los e entendê-los. Muitas vezes deixamos de sair porque sabemos que pode ser bem complicado”, finalizou.
Após a realização desta entrevista, Fabíola voltou a procurar a reportagem para comunicar mais uma novidade. Agora, ela não é mãe apenas de uma criança superdotada e, sim, de duas: Rafaela, irmã mais nova de Letícia, também é superinteligente.
Formou-se em jornalismo pela PUC Minas e trabalhou como repórter do caderno de Gerais do jornal Estado de Minas. Na Itatiaia, cobre principalmente Cidades, Brasil e Mundo.
