Minas Gerais registra 19 casos de violência doméstica por hora
Dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) mostram que Minas também vive a epidemia de violência contra a mulher

Quase 14 mil mulheres foram vítimas de algum tipo de violência doméstica somente no mês de janeiro em Minas Gerais, segundo dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). São cerca de 19 casos registrados por hora no estado. Diante de estatísticas tão alarmantes, o sentimento neste domingo (8) de Dia Internacional da Mulher é unânime: medo.
Nos últimos 5 anos, o número de feminicídios cresceu mais de 17% no estado. Segundo a coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a mulher da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Marlise Matos, estamos vivendo uma epidemia de misoginia e de violência de todas as formas contra a mulher.
“No ano passado, Minas Gerais registrou 14 casos por dia de estupro de vulnerável. Os casos que chegam ao boletim de ocorrência são a ponta de um iceberg. Existem infinitamente um número maior de casos que não vão chegar nas estatísticas”, explicou a especialista.
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Entre uma série de motivos que podem explicar a crescente na violência, Matos pontua o período da pandemia de Covid-19, quando muitas mulheres foram obrigadas a fazer o isolamento social com seus agressores, e um “desmonte” de políticas públicas na última década.
“Foi um desfinanciamento das políticas. É uma cultura misógina que produz uma autorização pública à violência. O que nós estamos vivendo é uma epidemia gravíssima de violência”, emendou.
Quem vive a missão de criar futuras mulheres em um mundo tão perigoso se preocupa. Paula Regina Salvino, de 45 anos, ressalta que têm medo pelo futuro da neta de quatro anos. “Basta a gente piscar o olho, a violência com ela pequena já aconteceu. Eu acho que o mundo é daqui para pior, só de ser mulher a gente já vive o medo”, disse.
Para Fernanda Garcia, de 52 anos, não há mais garantia de que a filha possa chegar em casa bem. Mãe de uma mulher de 27 anos, ela destaca que o medo é constante. “Infelizmente, o que se passa hoje é assustador”, declarou.
Mãe de gêmeas de 3 anos, Ana Carolina Drummond afirma que, apesar do medo, a esperança é a “última que morre”. “Esperança a gente tem, né? Mas também acho que é muito difícil mudar esse cenário”, contou.
Violência se manifesta cada vez mais cedo
No Brasil, cerca de 77% das vítimas de estupro em 2024 tinha menos de 14 anos. Segundo a analista judicial e psicóloga da vara especializada em crimes contra criança e adolescente, Ana Flávia Santana, menores vítimas de crimes sexuais ou que crescem em ambientes de violência doméstica colhem os traumas ao longo de toda a vida.
“É muito comum a gente ter aqui, principalmente as meninas, se automutilando, com tentativas de autoextermínio. Todo o sistema comportamental dela vai ser prejudicado. Por estar naquela violência no dia a dia, ela vai também conviver com aquilo como se fosse a realidade e vai reproduzir aquele padrão que vivenciou durante muitos anos quando já adulta”, explicou.
Jornalista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na Itatiaia desde 2022, trabalhou na produção de matérias para a rádio, na Central Itatiaia de Apuração e foi produtora do programa Itatiaia Patrulha. Atualmente, cobre factual e é repórter da Central de Trânsito Itatiaia Emive.



