Médico de BH é condenado a pagar R$ 100 mil por divulgar desinformação sobre mamografia
Com mais de 1 milhão de seguidores no Instagram, Lucas Ferreira Mattos já havia sido condenado a remover conteúdos com fake news em outubro de 2025

O médico e influenciador digital Lucas Ferreira Matos foi condenado pela Justiça Federal em Minas Gerais por espalhar notícias falsas sobre o exame de mamografia e o câncer de mama em contas no Youtube e Instagram. A sentença determinou o pagamento de indenização por dano moral coletivo no valor de R$ 100 mil e proibiu que Matos volte a divulgar que a mamografia aumenta a incidência de câncer, sob pena de multa diária.
A ação civil pública foi movida pela Advocacia-Geral da União (AGU). Com cerca de 1,6 milhão de seguidores apenas no Instagram, o influenciador de Belo Horizonte já havia sido condenado a remover conteúdos com desinformação em outubro do ano passado. Na sentença, a Justiça considerou que o médico mobiliza autoridade profissional para veicular informações em escala massificada nas plataformas digitais.
“A livre emissão de pensamento não pode servir de biombo para a disseminação deliberada de falsidades fáticas ou asserções desprovidas de sustentação científica mínima, máxime quando ostentam aptidão objetiva para sabotar políticas públicas preventivas e induzir vulneráveis à renúncia ou ao retardamento de exames imprescindíveis à sobrevida humana”, afirmou o juiz federal Felipe Aguiar.
A Itatiaia procurou a defesa do médico e aguarda retorno. O espaço segue aberto.
Manipulação de conceitos
De acordo com a Justiça Federal, o influenciador tentou amparar sua defesa em discussões acadêmicas. A Justiça, por outro lado, levou em conta o parecer técnico-científico do Hospital do Câncer III e do Instituto Nacional do Câncer, o qual aponta que o “réu manipulou conceitos epidemiológicos legítimos para construir um discurso sensacionalista cientificamente inverídico”.
A decisão também ressaltou que o ensaio clínico apontado por Matos para relacionar a radiação da mamografia com a incidência de câncer é conhecido na comunidade oncológica internacional por graves vícios metodológicos.
Já em relação ao dano moral coletivo, a sentença apontou que o ato ilícito do médico “alcançou contornos de extrema gravidade social”, na medida em que “desgasta a confiança popular nas diretrizes sanitárias nacionais, corrói o patrimônio informacional coletivo e ostenta manifesto potencial para afastar mulheres dos programas de rastreamento precoce do SUS”.
Defesa da saúde pública
A ação civil pública foi ajuizada em março de 2025 e é fruto de parceria da AGU com o Ministério da Saúde e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom/PR).
O processo faz parte do projeto “Saúde com Ciência”, de promoção da integridade da informação em temas de saúde pública.
Histórico de desinformação
O registro de Mattos, de número 79768-MG, está ativo desde 7 de junho de 2019. Ele também possui registro de atuação no estado de São Paulo, que é sua inscrição secundária e está ativo desde maio de 2023. O médico não tem especialidade registrada em nenhum dos órgãos.
Em um de seus vídeos, Lucas respondeu a uma pergunta sobre uma pessoa que disse ter dois cistos nos seios e que fazia acompanhamento, mas queria saber “o que poderia fazer para acabar [com os cistos]”.
“Ficar fazendo mamografia? Uma mamografia gera uma radiação para a mama equivalente a 200 raios-X. Isso aumenta a incidência de câncer de mama, por excesso de mamografia. Tenho 100% de certeza que o seu nódulo benigno é deficiência de iodo”, disse ele com base apenas na informação citada pela seguidora.
Em suas redes sociais, Lucas Silva Ferreira Mattos oferecia cursos ‘ensinando’ a combater doenças como hipotireoidismo apenas com dietas e afirma, sem qualquer evidência científica, que os pacientes adoecem porque remédios são feitos com derivados de petróleo.
Jornalista formada pelo UniBH, é apaixonada pelo dinamismo do factual e pelo poder das histórias bem narradas. Com trajetória que inclui passagens pelo Sistema Faemg Senar, jornal Estado de Minas e g1 Minas, possui experiência em múltiplas plataformas e linguagens. Atualmente, integra a redação da Rádio Itatiaia, onde acompanha os principais acontecimentos de Minas Gerais, do Brasil e do mundo
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.




