Indígenas protestam na sede da Vale por realocação e direitos; mineradora se pronuncia
Ao todo, 63 integrantes da Aldeia Katurãma ocupam o espaço; comunidade foi formada em 2021 por indígenas Pataxó e Pataxó Hã-hã-hãe que deixaram a Aldeia Naô Xohã após a tragédia em Brumadinho

Indígenas que integram a Aldeia Katurãma realizam um protesto na sede administrativa da mineradora Vale, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, desde a manhã desta quinta-feira (13). O ato busca a realocação definitiva da comunidade para um território adequado e reparação integral, após o rompimento da barragem localizada em Brumadinho, na Grande BH, pertencente à mineradora em Brumadinho.
A Aldeia Katurãma foi formada em 2021 por indígenas Pataxó e Pataxó Hã-hã-hãe que deixaram a Aldeia Naô Xohã após a tragédia na mina Córrego do Feijão, em 25 de janeiro de 2019. Após o rompimento da barragem, a comunidade, que possui 147 integrantes, incluindo crianças e adultos, se instalou na Mata do Japonês, em São Joaquim de Bicas, também na Região Metropolitana.
Informações obtidas pela reportagem indicam que os manifestantes espalharam lama na recepção do prédio em que o escritório da mineradora se localiza. Ao todo 63 indígenas participam do ato. A Itatiaia esteve no local, no início da tarde desta quinta-feira (13), e constatou que a manifestação acontecia de forma pacífica, com funcionários da Vale conseguindo transitar no local normalmente.
"Nosso ato é pacífico. Estamos em busca de direitos que estão sendo negligenciados há 7 anos. Estamos pedindo o direito da isonomia dos outros acordos que ela [mineradora] está celebrando com outras comunidades indígenas. Também estamos pedindo uma realocação, porque a nossa comunidade está sem água potável há mais de seis dias, e os nossos bichos começaram a morrer, as pessoas estão adoecendo", disse Cacica Ãgohó, da Aldeia Katurãma, em entrevista à Itatiaia.
De acordo com a líder da comunidade indígena, a manifestação continuará até que eles consigam conversar com algum representante da Vale "que possua o poder de decisão". "Fomos recebidos por pessoas que representam a mineradora, mas não têm o poder de decisão", disse Cacica Ãgohó. “Vamos resistir até que nossa solução seja resolvida aqui hoje no prédio da Vale aqui em Nova Lima”, acrescentou.
Em nota enviada à reportagem, a Vale afirmou que está "cumprindo integralmente os acordos já celebrados com as comunidades indígenas". A mineradora acrescentou que "segue aberta ao diálogo, sempre respeitando os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais", escreveu. (Veja nota completa no fim desta reportagem).
Lama representa resistência indígena
Um vídeo obtido pela Itatiaia mostra a entrada do prédio com lama no chão. O ato representa a resistência indígena em um cenário de busca por reivindicações após o rompimento da barragem. Além da lama, a ação incorporou o "xadrez preto e vermelho", uma espécie de tintura.
Indígenas jogam lama na sede da Vale em protesto por realocação e direitos
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🎥Vídeo cedido à Itatiaia pic.twitter.com/AmcRFV9bPi— Itatiaia (@itatiaia) August 13, 2026
"O preto significa rejeito da lama e o vermelho significando o sangue das vítimas que morreram, o nosso rio, a nossa resistência. Não é uma lama tóxica, não é uma lama contaminada, jamais vamos fazer isso. Foi só para simbolizar a situação do rompimento da barragem, desse crime que a Vale cometeu a Brumadinho, que está no esquecimento", explicou Cacica Ãgohó.
Além do pedido de realocação, a líder indígena denunciou que os prontuários da comunidade estão sendo trocados e, por isso, estão recebendo remédios errados. "Nossa comunidade está adoecida, não sabemos mais o que fazer", disse.
"São 7 anos sem batizar nossas crianças, sem caçar, sem pescar. Queremos o direito de isonomia dos outros acordos e o direito de uma realocação como todas as outras comunidades também tiveram", destacou.
- Entenda: a isonomia de direitos, ou princípio da igualdade, significa que todas as pessoas são iguais perante a lei, sem diferenças ou privilégios.
Veja pronunciamento completo da Vale
"A Vale vem cumprindo integralmente os acordos já celebrados com as comunidades indígenas. A Companhia também segue aberta ao diálogo, sempre respeitando os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais. A Vale acrescenta que respeita o direito a manifestações pacíficas, garantido o direito de ir e vir das pessoas e das empresas desempenharem suas atividades".
Rompimento barragem Mina Córrego do Feijão

- O rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, da Vale, em Brumadinho, ocorreu em 25 de janeiro de 2019, às 12h28.
- A Barragem B1 (construída pelo método a montante) rompeu abruptamente, liberando cerca de 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro.
- A lama varreu refeitórios da mineradora, áreas administrativas, pousadas e residências próximas em questão de minutos. O desastre resultou na morte de 272 pessoas.
- Investigações apontaram o fenômeno da liquefação do rejeito (quando o material sólido ganha comportamento fluido) associado a falhas no monitoramento, na drenagem e na gestão de riscos.
- A lama atingiu diretamente o Rio Paraopeba, contaminando a água, matando peixes, devastando a fauna/flora nativa e afetando o abastecimento de diversos municípios ao longo do seu leito.
- Diversas populações — incluindo comunidades rurais, ribeirinhas e povos indígenas (como a comunidade Pataxó Ha-ha-hae/Katuramã) — perderam seus meios de subsistência (pesca, agricultura, turismo), além do acesso direto à água limpa.
- Em 2021, foi assinado um Acordo Global de Reparação no valor de R$ 37,7 bilhões entre o Governo de Minas Gerais, instâncias de Justiça e a Vale, destinado a projetos de transferência de renda, infraestrutura, recuperação socioambiental e compensações para os municípios atingidos.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.
Amanda Antunes cursou jornalismo no Unileste (Centro Universitário Católica do Leste de Minas Gerais), com graduação concluída na Faculdade Estácio, em Belo Horizonte. Em 2009, começou a estagiar na Rádio Itatiaia do Vale do Aço, fazendo a cobertura de cidades. Em 2012, chegou à Itatiaia Belo Horizonte. Na rádio de Minas, faz parte do time de cobertura policial - sua grande paixão - e integra a equipe do programa ‘Observatório Feminino’.




