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‘Estava no auge’, diz mãe de engenheira que ficou em coma após procedimento feito por amiga

Conforme parentes, médica e engenheira eram amigas de longa data

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Engenheira está em coma, internada e sem previsão de alta  • Imagem cedida à Itatiaia

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e o Conselho Regional de Medicina (CRM) investigam um possível caso de erro médico que causou sequelas graves em uma engenheira de 31 anos. As duas envolvidas no episódio eram amigas de infância, e o procedimento, feito na casa da profissional de medicina, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, tem severos erros éticos, segundo a família da vítima.

Tudo começou quando Letícia de Souza Patrus Pena, 31 anos, engenheira de produção que sofre de dor crônica na coluna, comentou com a amiga Natália Peixoto de Azevedo Kalil, que é médica anestesista, sobre o caso. Elas combinaram a aplicação de um medicamento para diminuir a dor. O primeiro procedimento, realizado em agosto de 2024, deu certo. No entanto, conforme explica a servidora pública Flávia Bicalho de Souza, de 55 anos, mãe de Letícia, após a segunda aplicação, em 20 de setembro daquele ano, a filha sofreu uma parada cardiorrespiratória, graves lesões cerebrais e quase morreu.

Nessa quinta-feira, 20 de fevereiro, completaram-se 5 meses do episódio e Letícia segue internada, sem previsão de alta, em coma. “Letícia chegou a ser operada de hérnia. Ela foi piorando de 4 anos para cá. Tinha vezes em que ela ficava na rua, travada, chorando, esperando um alívio para continuar a andar. Todo mundo sabia, porque a dor era muito horrível", conta a mãe da engenheira. "Ela fez um primeiro bloqueio na casa da Natália, chegou a até uma queda de pressão, compartilhada com o Mike, que é o companheiro dela, ele é polonês. Letícia fiou sem dor durante 5 dias, o que ela nem lembrava o que era, então, ela se sentiu no céu. As duas combinaram de fazer o segundo bloqueio, também na casa da Natália. Letícia fez e, depois de alguns minutos do procedimento terminado, teve convulsão, confusão mental, seguidas de parada cardíaca.”

‘Extensa lesão cerebral’

Quando deu entrada no hospital, a anestesista e amiga de Letícia relatou aos médicos a composição das injeções aplicadas. A Itatiaia teve acesso a esse relatório, que indica tempo de 18 minutos de parada cardiorrespiratória, com consequência ‘de extensa lesão cerebral’.

No documento, Natália diz ter utilizado três medicamentos, entre eles, cloridrato de ropivacaína. A bula desse composto orienta manuseio e aplicação apenas em ambiente clínico, com equipamentos de monitoramento e suporte à vida.

Como Letícia estava na casa da amiga e foi levada ao hospital, a família da engenheira acreditava que a ação de socorro da médica teria sido fundamental para seu salvamento. “Várias vezes agradeci a Natália por isso. Cheguei a mandar mensagem agradecendo, já que (o procedimento) foi feito na casa dela e eu pensava o seguinte: se a Letícia tivesse feito isso num consultório, poderia ter ido embora e passado mal no meio do caminho, sem chance de socorro", explica a mãe.

Contudo, depois, entendeu de outra maneira a situação: "As pessoas vieram me falar que esse procedimento não poderia ter sido feito em casa”, diz. “Um dos medicamentos jamais poderia ter saído de um hospital ou de uma clínica e estar numa residência, principalmente em uma residência que tem criança. Esse medicamento, que é a ropivacaína, só pode ser aplicado em local adequado, que tenha aparelho para suporte de monitorização, de reanimação e ressuscitação do paciente, caso isso seja preciso, e é o que aconteceu.”

Custo do tratamento

Familiares de Letícia procuraram a médica Natália Peixoto de Azevedo Kalil para confrontá-la sobre a situação e solicitar ajuda com as custas do tratamento. De acordo com a mãe, não houve apoio. “Quando fiquei sabendo, para mim, foi outra morte, foi um soco no estômago. Fiquei arrasada. Letícia sempre frequentou a casa da Natália, Natália frequentava aqui em casa e chegava a me chamar de tia Flavinha. Letícia foi madrinha do casamento dela, fez um discurso lindo para Natália na ocasião”, recorda a mãe da engenheira.

A família conta que, diante dos fatos, procurou um advogado. “Ele chegou a fazer contato com a Natália. A gente queria apresentar a planilha de gastos, que são enormes, mas não quiseram ver.

Natália tentou me mandar uma mensagem no final de novembro. No dia, eu estava tão arrasada que eu não respondi, não atendi o telefonema”, conta a mãe. “Depois de uns dias, mandei uma mensagem para a Natália falando que eu já sabia que esse medicamento não poderia estar na casa dela, que tudo foi feito errado, que ela acabou com a minha vida, acabou com a vida da Letícia no auge. A Letícia estava no auge, Letícia foi promovida no trabalho e não ficou sabendo. O projeto da Letícia em Curitiba ganhou o prêmio na empresa dela. A Letícia não ficou sabendo. Quer dizer, interrompeu a vida da Letícia, interrompeu a minha vida e a da minha família”, desabafou.

Conforme projeção da família, o gasto com a saúde de Letícia chegou, até agora, a meio milhão de reais. Diante da situação, o MPMG e o CRM foram acionados. “Fizemos uma denúncia no CRM, colocamos tudo que aconteceu e pedimos a cassação do CRM da Natália", explica a mãe. "No Ministério Público, a gente fez a queixa-crime para investigação da suposta tentativa de homicídio doloso com dolo eventual, já que a Natália sabia desses riscos, sabia que a Letícia poderia ter uma parada cardíaca ali na frente dela, sabia que a Letícia poderia morrer e, mesmo assim, assumiu fazer esse tratamento na casa dela.”

Dependente

Segundo os familiares, Letícia está totalmente dependente, internada e sem previsão de alta. “Ela não fala, ela não se movimenta. Ela precisa de uma pessoa 24 horas para tratar, para dar o cuidado. Tem médico que fala que é um coma vígil, tem médico que fala que é um estado de semiconsciência, porque, às vezes, ela abre o olho e olha para gente, mas isso não é o constante. Ela abre o olho e fica com um olhar vago”, disse a mãe.

Sem resposta

A reportagem tentou contato com a médica Natália Peixoto de Azevedo Kalil, que é casada com um dos filhos do ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil. Natália atendeu a ligação, disse que atendia um paciente, pediu retorno no intervalo de 1 hora, mas não atendeu. O espaço para posicionamento segue aberto.

O que dizem CRM e MPMG

Procurado pela Itatiaia, o CRM de Minas informou que todos os procedimentos abertos correm sob sigilo, conforme previsto no Código de Processo Ético Profissional. O registro de Natália está regular.

Já o MPMG que o procedimento foi aberto e é analisado por uma promotora.

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Mineiro de Urucânia, na Zona da Mata. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2024), mesma instituição onde diplomou-se jornalista (2013). Na Itatiaia desde 2016, faz reportagens diversas, com destaque para Política e Cidades.