Itatiaia

Família cobra respostas após morte de bebê em policlínica na Região Metropolitana de BH

Davi Lucca Gonçalves de Araújo, de 1 ano e 9 meses, morreu em São José da Lapa nessa quarta-feira (4)

Por e 
Davi Lucca Gonçalves de Araújo, de 1 ano e 9 meses, morreu em São José da Lapa nessa quarta-feira (4) • Imagens cedidas à Itatiaia

Familiares de Davi Lucca Gonçalves de Araújo, de 1 ano e 9 meses, cobram respostas sobre a morte do bebê, que ocorreu na Policlínica do bairro Dom Pedro I, em São José da Lapa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, nessa quarta-feira (4). À Itatiaia, parentes do menino afirmaram que acreditam que houve negligência por parte dos profissionais da saúde e que, na ocasião, acionaram a polícia. A reportagem procurou a Prefeitura de São José da Lapa para um posicionamento e aguarda retorno.

Aldemira Maria, avó de Davi Lucca, contou que a mãe do menino levou ele à Policlínica porque ele estava com cansaço e falta de ar. “Ela chegou com ele passando mal e aguardou. Aí depois eles chamaram para fazer uma triagem, demorou muito para fazer essa triagem, depois mandaram ela ficar esperando o médico atender”, relatou a familiar. Segundo ela, na triagem os profissionais teriam apenas examinado a garganta do bebê.

De acordo com Douglas Souza, padrinho do menino, o primeiro atendimento teria demorado mais de uma hora para ser realizado.

Aldemira Maria contou ainda que, depois da triagem, mãe e filho ficaram esperando atendimento. Em determinado momento, segundo ela, a boca de Davi Lucca começou a ficar roxa e ele desmaiou nos braços da mãe. De acordo com a avó, a mulher entrou em desespero e chamou os médicos, que então pegaram o bebê para ser atendido.

Segundo Douglas Souza, que foi acionado pela mãe de Davi Lucca, a família ficou sem informações sobre o estado de saúde do menino depois que ele foi levado para atendimento. “Ela chegava para nós chorando. Ela vinha para cá toda hora, de 10 em 10 minutos, ela ia, tentava entrar, tentava falar com o médico, tentar saber de alguma coisa, e eles não falavam, só falavam com ela assim: ‘Ele está bem. Ele está bem, nós já estamos conseguindo reanimar ele.’”

Em determinado momento, segundo a avó do menino, a equipe da Policlínica informou que iriam transferir o Davi Lucca e acionaram o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). “Só que o Samu chegou e viu que não ia dar tempo nem de transferir. O Samu fez uma entubação lá mesmo e tentou recuperar a criança, mas já era tarde demais”, afirmou.

Polícia acionada

O padrinho de Davi Lucca contou que, depois de a família ter recebido a notícia de que o menino havia morrido, ele decidiu acionar a polícia. “Achei muito estranho. Aproveitou da oportunidade ali, fez as papeladas muito rápido, pediu a avó para acionar a funerária. Isso eu achei muito estranho. Os familiares começaram a chegar, eu falei: ‘Gente, vamos chamar a polícia aqui que o médico não chegou nem para dar uma satisfação aqui para gente. Não falou o que aconteceu, qual foi o procedimento que eles fizeram ali com ele ali dentro’. Isso que me deixa indignado. A falta de comunicação deles com nós ali. Como se nós fôssemos nada, ninguém”, disse Douglas Souza.

Aldemira Maria relatou ainda que, assim que foi informada sobre a morte do neto, foi orientada pelo médico a providenciar os documentos do bebê na funerária e no cartório. A avó de Davi Lucca contou que foi na funerária e chegou a providenciar a roupa do bebê para o velório.

“Chegando no cartório, eles deram entrada no papel, mas dando entrada no papel eles pediram para eu aguardar e me deram um papel para preencher. Quando eu estava preenchendo esse papel, eles logo falaram comigo: ‘Não precisa terminar de preencher, porque recebemos uma ligação, a Policlínica mandou barrar a certidão de óbito, é para a senhora voltar para a Policlínica que teve uma suspeita’", afirmou.

Segundo ela, no hospital, um policial teria dito a ela que a unidade deveria ter chamado o rabecão para buscar o corpo do bebê para que ele passasse pelo Instituto Médico-Legal (IML).

Família pede respostas

“Se eles tivessem socorrido na hora que meu meu neto tivesse chegado lá, meu neto estaria vivo uma hora dessa, porque eles demoraram muito e meu neto começou a sentir mais falta de ar”, afirmou Aldemira Maria. A avó da criança disse que quer “justiça”. Douglas Souza também acredita que a demora no atendimento teve impacto. Os dois acreditam que houve negligência por parte dos profissionais da saúde da policlínica.

Familiares contaram à Itatiaia que Davi Lucca estava bem nos dias que antecederam a morte dele. “O Davi é muito esperto, menino muito esperto. Muito forte, brincalhão. Eu peguei eles essa semana, segunda-feira, cortei o cabelo dele. Inclusive, ele tem um irmão gêmeo, sou padrinho dos dois. Brinquei com eles, fiquei praticamente o dia todo com eles. Eles estavam super bem, super bem”, contou Douglas Souza.

Davi Lucca Gonçalves de Araújo será velado e sepultado nesta quinta-feira (5). O corpo dele passou por exames no IML também nesta quinta.

O que diz a prefeitura?

Confira a nota da Prefeitura de São José da Lapa na íntegra:

"A Prefeitura de São José da Lapa, por meio da Secretaria Municipal de Saúde, manifesta sua profunda solidariedade aos familiares e amigos da criança que faleceu ontem, 4 de novembro de 2026, no Centro de Saúde Municipal Dr. Luiz Issa.

Em respeito ao princípio da transparência e diante dos questionamentos recebidos, a Prefeitura informa que foi instaurado procedimento administrativo interno para apurar os fatos e esclarecer as circunstâncias do atendimento, incluindo as condutas adotadas pelos profissionais envolvidos.

Cronologia do atendimento, conforme os registros das câmeras da unidade:

- 9h39: chegada da família ao Centro de Saúde;

- 9h53: triagem;

- 10h18: atendimento médico;

- 10h22: encaminhamento da criança à sala de urgência, onde foram realizados os procedimentos de emergência e reanimação;

- 11h35: chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), que havia sido acionado;

- 12h34: declaração do óbito.

A unidade adota o Protocolo de Manchester para classificação de risco e priorização dos atendimentos. A adequação dos procedimentos adotados neste caso específico integra a apuração em andamento.

Providências já em curso:

- As oitivas dos profissionais envolvidos já foram iniciadas;

- Será realizada auditoria clínica do prontuário, confrontando os sintomas apresentados na chegada da criança com as diretrizes do protocolo de triagem;

- O caso também é investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), e a Prefeitura aguarda a conclusão das investigações e a análise dos elementos técnicos pertinentes, incluindo os laudos periciais.

A Administração Municipal reafirma seu compromisso com a transparência, com a responsabilidade na prestação dos serviços públicos de saúde e com o esclarecimento dos fatos, e garante que serão adotadas as providências cabíveis conforme os resultados das apurações.

Neste momento de profunda dor, reiteramos nossa solidariedade à família."

Por, Repórter

Jornalista formada pela PUC Minas, é repórter multimídia da Itatiaia com foco na editoria de Cidades. Estagiou na emissora por dois anos e atuou na Brazilian Traffic Network como repórter de trânsito em emissoras de BH. Vencedora do Prêmio CDL/BH de Jornalismo Universitário 2024 e do Intercom Sudeste 2025.

Por

Jornalista pela PUC Minas. Na Itatiaia, escreve para Minas Gerais e Brasil. Anteriormente, trabalhou no jornal Estado de Minas como repórter de Gerais, com contribuições para os cadernos de Política, Economia e Diversidade.

 

 

Belo Horizonte