Dia da Mulher: MP descarta feminicídio e denuncia homem que atropelou esposa por crime de trânsito
Polícia Civil chegou a indiciar o caminhoneiro Deivid de Cássio Ferreira por feminicídio, mas MP entendeu que crime não foi intencional; família questiona decisão

“Enquanto a nossa vida parou, a dele seguiu normalmente, como se nada tivesse acontecido”. É assim que Cristina Evangelista define o que aconteceu depois da madrugada do dia 2 de março de 2023. Há pouco mais de um ano, a irmã dela, Jaqueline Miranda Evangelista Ferreira, de 39 anos, foi morta atropelada pelo próprio marido no Anel Rodoviário, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte.
O caminhoneiro Deivid de Cássio Ferreira, com 39 anos na época, atropelou a esposa, que o esperava às margens da BR-040. Jaqueline estava com a filha, de 6, em um posto de gasolina, à espera do homem, que minutos depois tiraria sua vida. Antes do crime, Jaqueline e a filha haviam solicitado um carro de aplicativo e foram ao encontro de Deivid. Mas o caminhoneiro não parou o veículo e passou por cima dela. Tudo isso na frente da menina.
Assim que viu o corpo estirado no chão, o caminhoneiro fugiu, deixando a criança às margens da rodovia. "Papai, papai", teria gritado a criança quando viu o pai seguir viagem, segundo o relato de uma testemunha disponível no boletim de ocorrência.
Deivid alega que não viu a vítima - a própria esposa. Ele foi indiciado por feminicídio pela Polícia Civil - mas o Ministério Público o denunciou por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, e classificou o atropelamento como um crime de trânsito.
'Eu nunca vou esquecer'
Desde a morte de Jaqueline, é a irmã dela que toma conta da menina. "Ela é minha afilhada e madrinha é a segunda mãe. O amor que eu tenho por ela é o mesmo que eu tenho pelos meus filhos. É um amor genuíno, me emociono com a nossa relação”, conta.
Hoje com sete anos, a menina faz acompanhamento psicológico, aulas de balé e tenta viver uma vida normal. "Eu faço questão de manter a memória da mãe dela viva. Às vezes ela pede para ver fotos, eu mostro. Na missa de um ano da morte da minha irmã, quando o padre falou o nome da Jaqueline, ela caiu no choro e correu para o meu colo", disse.
Ela viu a mãe dela morrer e o pai ir embora, abandonando ela. Ela viu o último suspiro da mãe. Ela sempre me diz: 'Dindinha, eu nunca vou esquecer'
MG teve mais de 180 feminicídios em 2023
Jaqueline é uma das 183 mulheres vítimas de feminicídio em Minas Gerais em 2023, segundo dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, na quinta-feira (7). Em todo o Brasil, 1.463 mulheres foram mortas pelo simples fato de serem mulheres. Além da dor da perda, as famílias das vítimas vivem com o trauma e, em muitas vezes, com a sensação de impunidade.
É essa sensação que a família de Jaqueline precisa conviver todos os dias. O caminhoneiro ficou preso apenas por um mês e meio. Ele está solto e vive no mesmo bairro que os pais de Jaqueline, desde abril de 2023.
Segundo os advogados da família, após as investigações do caso, a Polícia Civil indiciou Deivid de Cássio Ferreira por feminicídio, crime que poderia ter pena de até 30 anos de prisão. Porém, o Ministério Público entendeu que o atropelamento foi um acidente e denunciou o autor por "homicídio culposo na direção de veículo automotor", crime previsto no Código de Trânsito Brasileiro e com pena entre dois e quatro anos de detenção.
A Justiça aceitou a denúncia e a audiência de instrução do caso está marcada para a próxima semana. Em janeiro de 2024, Deivid conseguiu na Justiça o caminhão de volta, já que o veículo estava retido para perícia desde a morte.
A reportagem procurou o Ministério Público, mas ainda não obteve retorno até a publicação desta matéria.
Família acredita que Jaqueline foi vítima de feminicídio
A família de Jaqueline questiona a decisão do MP e afirma que o atropelamento foi intencional. "Não tem a menor dúvida que foi um feminicídio. Ele não demonstra nenhum arrependimento. Ele vive livremente, viaja, posta fotos, sempre muito alegre", desabafa Cristina. "Ele faz caminhada todos os dias, cumprimenta as pessoas como se nada tivesse acontecido", completa.
Segundo a irmã da vítima, Deivid era como se fosse parte da família. "Ele era tido como filho. Para o meu pai foi uma decepção. Ele era amigo de infância do meu irmão, cresceram juntos. Como o pai dele já morreu, meu pai era como um pai para ele", conta.
"Sei que nada vai mudar o que aconteceu e trazer ela de volta, mas o conforto que a gente teria seria se ele pagasse, fosse punido. Mas estamos de mãos atadas. Enquanto a nossa vida parou, a dele seguiu normalmente. É revoltante. É essa sensação de impunidade que vai dilacerando a gente aos poucos", desabafou.
Defesa diz que caminhoneiro é inocente e que vítima tinha 'ciúme doentio'
Procurada pela Itatiaia, a defesa de Deivid reitera que o atropelamento foi um acidente e que o caminhoneiro "era apaixonado pela esposa".
"Foi constatado que ele não teve culpa. Ela entrou na frente do caminhão porque estava cismada que ele estava com uma mulher. Ela era uma pessoa excelente, mas tinha esse defeito. Era ciumenta demais, um ciúme doentio", afirma a advogada Kelly Cardoso, que representa Deivid.
A advogada ainda comentou que o cliente "é uma pessoa trabalhadora e não tinha histórico de violência". "Ela rastreou ele e foi até o Anel Rodoviário. Quem passa por lá sabe que é impossível parar um caminhão a 70 km/h, carregado. Ele só viu que atropelou a esposa quando olhou no retrovisor", alega.
Participe do canal da Itatiaia no Whatsapp e receba as principais notícias do dia direto no seu celular. Clique aqui e se inscreva.
Fernanda Rodrigues é repórter da Itatiaia. Graduada em Jornalismo e Relações Internacionais, cobre principalmente Brasil e Mundo.


















