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Quem são os 'justiceiros' de Copacabana? Grupo busca fazer justiça com as próprias mãos

Especialista explica que grupo funciona de forma similar ao crime organizado ao privatizar o uso da força

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Integrantes do grupo de "justiceiros" caminha por Copacabana • Reprodução/Redes Sociais

A Polícia Civil do Rio de Janeiro investiga a atuação de um grupo de "justiceiros" criado para “caçar” criminosos envolvidos nos últimos episódios de assaltos e agressões ocorridos no bairro de Copacabana, na Zona Sul da cidade.

Quem são os 'justiceiros'?

De acordo com a professora de sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos legalismos (GENI/UFF), Carolina Grillo, os "justiceiros" são grupos formados, majoritariamente, por jovens brancos, ligados a academias de artes marciais e alinhados com a extrema direita.

"São moradores indignados com a violência urbana. Eles sempre existiram, mas em determinadas épocas, eles ganham mais visibilidade. Principalmente, quando a cidade sofre mais arrastões. No caso de Copacabana, eles começaram a se organizar depois que um idoso foi agredido no bairro. Esse caso causou uma comoção pública", disse.

Fenômeno não é recente

Na década de 1990 e em 2015, grupos de "justiceiros" também ganharam repercussão. Eles se juntavam para atacar suspeitos de cometer crimes na Zona Sul do Rio. O intuito era o mesmo: fazer justiça com as próprias mãos.

Em um grupo de WhatsApp, utilizado pelo bando para organizar os ataques, um dos integrantes relembra a ação realizada há oito anos. "Rapaziada de Copacabana, vamos deixar os caras fazerem o que querem aqui no nosso bairro mesmo? Cadê a nossa rapaziada de 2015 que deixou esses cara pra correr? Vai esperar ser alguém da tua família? A polícia não pode fazer nada. Prende e solta. Não dá mais não. A gente tem que aprender de outra forma", diz um dos participantes.

Dinâmica similar ao crime organizado

Carolina Grillo explica que a dinâmica dos "justiceiros" é a mesma do crime organizado. "A existência desses grupos é uma violação a um princípio muito importante da democracia - a de que apenas o Estado pode fazer o uso da força. Ao privatizar o uso da força, eles se comportam como o crime organizado. Quem faz isso são traficantes, milicianos e grupos de extermínio, já que eles têm a sua própria forma de julgar e punir", explica.

Apesar de funcionarem em uma dinâmica parecida, a professora não acredita que os "justiceiros" sejam grupos organizados.

"Eles funcionam como grupos organizados, mas não são. Eu também tendo a acreditar que esses grupos não vão se organizar. O grande problema é que há uma tolerância da sociedade em relação a eles. Isso porque há uma ideia disseminada de que o Estado não consegue resolver a criminalidade", esclarece.

Secretário compara grupo a milícias

Em entrevista ao Estúdio i, da GloboNews, na quarta-feira (6), o secretário de Segurança do Rio, Victor Santos, explicou que fazer justiça com as próprias mãos é crime pelo Código Penal Brasileiro. Santos ainda comparou os "justiceiros" com milícias e grupos de extermínio.

"Justiceiro é o berço da milícia. É exatamente isso, um grupo que se acha acima do bem e do mal, que se acha no direito de fazer justiça com as próprias mãos. E antes da milícia, nós tínhamos os grupos de extermínio. Praticam crimes com o objetivo de evitar crimes. Na verdade, são todos eles criminosos. O justiceiro é criminoso", disse.

Ação dos 'justiceiros' pode evidenciar racismo

Na madrugada desta quinta-feira (7), pelo menos seis pessoas perseguiram um jovem negro por cerca de 350 metros na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Após alcançar a vítima, o grupo chutou e socou o rapaz. Câmeras de segurança mostraram que um dos agressores chegou a pegar um rodo para bater na vítima. Um outro "justiceiro" ainda pisou no pescoço da vítima, que gritou por "socorro".

Sem saber se são culpados ou não, os "justiceiros" perseguem jovens negros que circulam pela Zona Sul do Rio. "O componente racial acaba sendo um critério central para a atuação desses grupos. Eles passam a hostilizar jovens negros que vão a praia e já os estigmatizam como possíveis criminosos. Eles incriminam preventivamente esses tipos sociais - homens jovens, negros, com um certo estilo de roupa e cabelo. Então, esses jovens negros acabam sendo vítimas, mesmo sem cometer nenhum crime", afirma Carolina Grillo.

Secretário estuda aumento do policiamento

O secretário Victor Santos explica que fazer justiça com as próprias mãos é crime. Na frente da pasta há uma semana, Santos afirma que vai se reunir com os secretários da Polícia Civil e Militar para definir estratégias. Porém, ele não confirmou se o efetivo policial em Copacabana será aumentado.

"Isso está sendo pensado. Tenho uma reunião para tratar deste assunto. A gente sabe que o lazer carioca é a praia, é uma região crítica. A praia é um lazer democrático. Achar que temos que fazer uma ação de repressão, sem nenhuma técnica, nenhum dado, pode parecer preconceituoso. Segurança Pública é para todos", afirmou.

Grillo explica que todo ano a polícia faz ações para dificultar o acesso de jovens negros a praia. "Já é uma prática comum abordar os ônibus que saem da zona norte em direção a zona sul. Os jovens negros que estiverem sem documento são levados para a delegacia. Isso prejudica o lazer da população. Essas ações aumentam, principalmente, em dias de calor, quando tem mais arrastões", esclarece.

Para ela, apesar da atuação do aumento da criminalidade em 2023, a tendência é que os próximos verões sejam mais tranquilos. "Nesse verão estamos vendo muitos arrastões, principalmente porque teve onda de calor, muita gente desce para a praia e esses grupos de jovens se organizam em bandos e cometem os crimes. Mas isso é porque estamos lidando com um país que empobreceu bastante nos últimos anos. Acredito que com o aumento de políticas públicas, essa tendência diminua e não perdure a longo prazo", comenta.

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Fernanda Rodrigues é repórter da Itatiaia. Graduada em Jornalismo e Relações Internacionais, cobre principalmente Brasil e Mundo.