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Escola de samba de São Paulo virou reduto do PCC, diz relatório da Polícia Civil

A Vai-vai, que é a maior campeã do Carnaval de SP, negou a relação com o crime organizado

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Vai-vai desfilando em São Paulo

Uma das mais tradicionais escolas de samba de São Paulo, a Vai-Vai virou um reduto da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), segundo relatórios da Polícia Civil divulgados pela a Folha de S. Paulo.

Os documentos fazem parte de um processo de lavagem de dinheiro que está em segredo de Justiça e tem entre os alvos o ex-diretor financeiro e conselheiro da agremiação, Luiz Roberto Marcondes Machado de Barros, conhecido como Beto da Bela Vista.

Trechos do documento mencionam que a escola virou um "reduto" do PCC, tendo, inclusive, expulsado alguns membros que eram policiais da agremiação devido a associação criminosa.

A investigação também aponta conexões do então presidente do clube de futebol ligado à Vai-Vai, Marco Aurélio Barbosa, com empresas supostamente usadas para lavagem de dinheiro. Em depoimento à polícia, Barbosa, ex-jogador do Santos e do Guarani, ficou em silêncio.

Fundada em 1930, a Vai-Vai tem 15º títulos do Carnaval de São Paulo, sendo até hoje a maior vencedora da cidade e uma das escolas mais populares do Brasil.

Beto da Bela Vista

Os investigadores identificaram a ligação de Beto com o crime organizado após receberem denúncias e realizarem diligências em endereços ligados ao diretor e outros membros da escola de samba, confirmando as suspeitas.

A polícia também suspeita de uma ligação entre Beto Bela Vista e André de Oliveira Macedo, conhecido como André do Rap, um dos líderes do PCC que está foragido após a cassação de seu habeas corpus pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Luiz Roberto cumpriu pena por cerca de dez anos e saiu da prisão em agosto de 2014. Ele tem passagens por formação de quadrilha, roubo, uso de documento falso, desacato, motim de presos, extorsão mediante sequestro, porte ilegal de armas, lesão corporal, resistência, desobediência e dano.

De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o PCC mantém suas principais ações em São Paulo, onde estão cerca de 8 mil de seus membros em 90% dos presídios paulistas.

A facção é a maior organização criminosa do Brasil com cerca de 30 mil membros em 22 dos 27 estados brasileiros, além de países vizinhos, como Bolívia, Paraguai e Colômbia.

O PCC é conhecido por sua capacidade de organização e controle dentro das prisões, impondo regras e hierarquias, além de comandar ações criminosas fora dos presídios, que sustentam o grupo.

Durante depoimento à polícia, Luiz Roberto negou ação criminosa ou ligação com o PCC. Ele afirma que a origem de sua riqueza é uma herança e que frequenta a Vai-Vai desde criança, desconhecendo a ligação da escola com o crime.

A sua defesa declarou, à Folha de S. Paulo, que Luiz Roberto nunca foi denunciado por associação criminosa, ao contrário do seu irmão: Luiz Eduardo Marcondes Machado de Barros, o Du Bela Vista, considerado um dos líderes do PCC, que está preso.

Em 2014, Du estava ao lado de Marcola na lista de chefes da facção que seriam resgatados na cadeia em um plano que previa a utilização de um avião e dois helicópteros. O plano foi desmantelado antes da operação.

“É no mínimo temerário associá-lo a essa organização criminosa em razão de condutas atribuídas apenas e tão somente ao irmão. Obviamente, ninguém pode ser responsabilizado por atos de terceiros, mesmo que sejam irmãos", disse a advogada de Luiz Roberto, Luiza Oliver.

Escola de samba nega

O Vai-Vai reafirma seu respeito pelas instituições e repudia o que considera jornalismo panfletário e irresponsável, comprometendo-se a continuar trabalhando com transparência e verdade.

Por fim, a Vai-Vai afirmou que Marco Aurélio Barbosa e Du Bela Vista não fazem parte da escola.

Relação entre escolas de samba e o PCC

O envolvimento do PCC com escolas de samba é investigado pela polícia desde 2006 - ano marcado por uma série de eventos violentos coordenados pelo grupo em São Paulo, após a transferência dos seus líderes para presídios de segurança máxima.

Em dezembro de 2006, três diretores da Império de Casa Verde foram presos por suspeita de receber recursos da facção criminosa para cobrir gastos com desfiles. O PCC fornecia recursos financeiros à escola de samba em troca de influência sobre suas atividades.

Na época, a Império Casa Verde era a atual campeã do carnaval paulista - e já somava cinco títulos ao todo.

Os diretores - Alexandre Constantino Furtado, Rogério Sevilha Silva e Fábio Franco de Oliveira - foram presos e acusados de associação criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção ativa.

A prisão dos diretores da Império de Casa Verde causou um grande impacto no Carnaval de São Paulo. A escola foi desclassificada do desfile de 2007 e condenada a pagar uma multa de R$ 1 milhão.

Após a prisão dos diretores, a Império de Casa Verde passou por uma reformulação e assumiu uma postura mais transparente. A escola também começou a trabalhar para combater a violência e o crime organizado.

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Formado em Jornalismo pela UFMG, com passagens pelo jornal Estado de Minas/Portal Uai. Hoje, é repórter multimídia da Itatiaia.