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Os novos criadores de tendências são designers de talheres

Descubra como a impressão 3D em aço transforma o design de talheres; peças personalizadas, culturais e acessíveis

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Os novos criadores de tendências são designers de talheres
Os novos criadores de tendências são designers de talheres • Freepik

O escritor e colecionador Dung Ngo possui mais de 10 mil peças de talheres guardadas fora do seu apartamento em Nova Iorque. A obsessão começou há 25 anos, quando ele completou 30 anos e percebeu que os talheres comprados após a universidade já não refletiam quem ele havia se tornado.

Essa vasta coleção inspirou não apenas um livro de 600 páginas e uma exposição no Denver Art Museum, mas também um projeto que pode redefinir o futuro da produção de talheres. Ngo identificou um problema estrutural: o design de talheres mudou muito pouco nos últimos 150 anos, e o conhecimento artesanal por trás dessa produção está desaparecendo.

A descoberta que iniciou uma coleção histórica

Numa loja de artigos vintage, Ngo encontrou um conjunto de 40 peças por 400 dólares. Passou uma semana pesquisando em jornais antigos e revistas de design até identificar a origem: Composição, do designer finlandês Tapio Wirkkala.

Atualmente, um conjunto completo de Wirkkala pode atingir mais de 3.600 dólares. A descoberta deu início a uma busca obsessiva por peças icónicas no eBay e em lojas de antiguidades.

"Fiquei viciado", confessa Ngo. Essa paixão resultou numa coleção que documenta 125 anos de história do design de cutelaria modernista.

Quando a tradição artesanal está prestes a desaparecer

Durante uma investigação em Solingen, a tradicional cidade alemã dos fabricantes de talheres, Ngo descobriu que restavam apenas alguns fabricantes. A situação se repetiu na Inglaterra.

Uma visita à oficina do influente designer David Mellor, perto de Sheffield — conhecida como a Cidade do Aço devido à tradição na produção durante a Revolução Industrial — revelou cenário semelhante. "Está praticamente tudo desaparecido", afirma Ngo. "Foi de partir o coração."

O problema vai além da nostalgia: a produção tradicional sempre partiu de uma folha plana de metal dobrada. Pode tornar-se bastante tridimensional, mas nunca verdadeiramente escultórica.

Por que os talheres permaneceram praticamente inalterados por 150 anos

A limitação não é apenas sentimental ou estética. Existe uma barreira técnica fundamental no processo de fabricação convencional.

"Começamos a produção com uma folha plana de metal e depois dobramo-la", explica Ngo. Essa metodologia restringe as possibilidades formais e funcionais dos objetos.

Os talheres estão entre os objetos mais íntimos da vida quotidiana. Mesmo assim, sua evolução estagnou enquanto outras categorias de design avançaram drasticamente.

Como a impressão 3D em aço está revolucionando o design de cutelaria

Ao pensar no futuro da produção, Ngo inspirou-se num conjunto de talheres metálicos impressos em 3D desenhado pelo arquiteto Greg Lynn para a Alessi em 2007. Na época, era uma experiência que custava entre 10 mil e 20 mil dólares por conjunto.

"Liguei ao Greg e disse: 'Posso pegar no teu design e voltar a colocá-lo em produção?' Ele disse: 'Claro. Agora é o momento — vinte anos depois é perfeito.'"

A tecnologia de impressão 3D em aço sinterizado (produzido a partir de pó de aço comprimido) permite liberdade escultórica impossível pelos métodos tradicionais. O custo de impressão é o mesmo por peça, independentemente da quantidade, o que transforma completamente a economia da personalização.

Três regras para reimaginar o que os talheres podem ser

Ngo convidou onze artistas internacionais a participar da exposição Faca, Garfo, Colher 3.0, apresentada pela galeria Marta em Copenhaga. Estabeleceu três diretrizes fundamentais.

Primeira regra: tornar os talheres pessoais. Cada design deve refletir identidades e necessidades individuais.

Segunda regra: torná-los culturais. O conjunto típico ocidental de faca, garfo e colher não é universal — diferentes culturas têm diferentes formas de comer.

Terceira regra: criar algo que só pudesse existir através da impressão 3D. Ngo disse aos designers para não se preocuparem demasiado com a funcionalidade convencional: "Podem comprar esse tipo de coisas em qualquer lado por cinquenta dólares."

Quando os talheres refletem identidade cultural além do padrão ocidental

Ngo teve o cuidado de incluir não só designers mulheres — historicamente sub-representadas no design de talheres — mas também aqueles que tornariam o conjunto mais adequado a diferentes culturas.

O designer sul-coreano multidisciplinar Minjae Kim criou um conjunto de faca, garfo e colher juntamente com um conjunto de pauzinhos. A proposta reconhece que nem toda cultura utiliza os mesmos utensílios.

O designer nigeriano Nifemi Marcus-Bello incluiu uma taça impressa em resina juntamente com os talheres de formas gráficas. "Ele explicou que, na Nigéria, quando se vai comer fora, perguntam se se quer comer com garfo e colher ou com as mãos, que é a forma tradicional", conta Ngo. "Se disser que quer comer com as mãos, trazem uma taça com água para lavar as mãos, o que faz parte do ritual da refeição."

O design que levou o desafio ao limite com inspiração botânica

Ngo destaca o trabalho do artista e designer botânico polaco Marcin Rusak como o que levou realmente o desafio mais longe. Rusak passou meses mostrando designs planos e de inspiração orgânica.

Até que algo mudou. "Ligou-me e disse: 'Enquanto crescia, o meu avô era um criador de orquídeas de renome nacional. De certa forma, as orquídeas são a minha primeira linguagem visual que aprendi.'"

O resultado é um conjunto de talheres que parece estar a florescer. A liberdade formal da impressão 3D permitiu materializar memórias e conexões pessoais impossíveis de produzir por métodos convencionais.

Quando qualquer pessoa poderá imprimir talheres personalizados localmente

A tecnologia utilizada para criar esses designs é significativa não apenas pela liberdade escultórica, mas também pelo acesso democrático que promete.

Ngo chama atenção para a ubiquidade das impressoras 3D que utilizam resina ou plástico. "As crianças têm-nas. As pessoas imprimem peças de Lego que faltam", afirma.

Embora as impressoras 3D que imprimem metal ainda sejam caras, isso mudará com o tempo. "Não acho que imprimir metal venha a ser algo que tenhamos em casa durante a nossa vida. Mas acho que será fácil ir a uma impressora local, enviar o nosso design e levantá-lo no dia seguinte."

Como talheres personalizados podem transformar acessibilidade e inclusão

Quando a impressão 3D em metal se tornar mais acessível, o design de talheres evoluirá ainda mais. Ngo aponta duas categorias historicamente tratadas como secundárias: talheres para crianças e talheres acessíveis para pessoas com destreza manual limitada.

"Se tiver um determinado problema de saúde que faça com que a sua mão se mova de determinada forma, pode imprimir em 3D algo especificamente para essa pessoa, para essa condição", explica Ngo. "Ou pode reduzir o tamanho de um conjunto para uma criança."

O custo de impressão permanece o mesmo por peça, independentemente da quantidade. Isso significa que cada impressão pode incluir alterações para personalizar o design sem custo adicional. "É extremamente importante para mim que ambos os extremos da nossa sociedade tenham o mesmo acesso a um bom design."

Por que o designer humano continuará essencial mesmo com impressão 3D

A democratização da produção não significa o fim do papel do designer profissional. A tecnologia é uma ferramenta, não um substituto para a visão criativa.

"O design virá sempre de nós. As decisões serão sempre nossas. Isto continua a ser uma ferramenta que podemos utilizar", insiste Ngo.

A impressão 3D remove barreiras técnicas e econômicas da produção, mas não elimina a necessidade de alguém imaginar o que deve ser criado. O futuro da cutelaria depende tanto da tecnologia quanto da criatividade humana para explorar suas possibilidades.

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