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Médico cria receita com desenhos para pacientes que não sabem ler e reduz erros no tratamento

Plataforma gratuita usa ícones e imagens para orientar uso de medicamentos e já está presente em municípios brasileiros

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Médico cria receita com desenhos para pacientes que não sabem ler e reduz erros no tratamento
Médico cria receita com desenhos para pacientes que não sabem ler e reduz erros no tratamento • Imagens cedidas à Itatiaia

Com muitos pacientes saindo da consulta sem entender corretamente o que deve ser seguido na receita, por não saber ler, um médico da família e comunidade no Sertão pernambucano, conhecido como Lucas Cardim, decidiu desenvolver uma solução inovadora: ele e um engenheiro de software do Google criaram uma plataforma voltada para a área da saúde, na qual desenhos e ícones são inseridos nas receitas para orientar os pacientes sobre horários, doses e as formas corretas de uso dos medicamentos.

A iniciativa mudou a vida de pacientes e reduziu consideravelmente o número de retornos. “Dizer que o paciente ‘se vira’ é muito cruel”, disse o médico em entrevista à Itatiaia.

Segundo Lucas, o problema era recorrente no sistema de saúde, já que muitos pacientes deixavam o consultório sem compreender corretamente o que estava sendo prescrito. Os mais afetados? As pessoas com baixo ou nenhum letramento, o que estava induzindo ao erro no uso de alguns medicamentos e à piora das doenças.

"Isso gerava um grande desconforto em mim, porque a gente não sabia se o paciente estava indo embora compreendendo realmente o que ele tinha que fazer, né? E se você entrega uma receita impressa ou com a letra, seja legível ou não legível, para um paciente não letrado, ele não vai conseguir entender. Dizer que o paciente se vira é muito cruel, porque às vezes o paciente está em angústia, com dor e em sofrimento. Às vezes são pessoas que precisam cuidar de outras pessoas e cuidar de si. Ou então é uma mãe que está cuidando de uma criança, um pai cuidando de um filho, né?", explicou ele.

Como funcionam as receitas com desenhos?

Segundo o médico da família, a prática da receita com desenhos é um recurso antigo entre a população não letrada. Porém, a decisão de criar uma plataforma que pudesse ofertar inicialmente alguns ícones nas receitas surgiu há seis anos, ainda durante a graduação. Nessa época, Cardim percebeu que, ao final das consultas, raramente havia continuidade no tratamento.

A plataforma basicamente funciona assim: os prontuários geram receitas com texto e imagens. Tudo de graça. O médico precisa, então, clicar no que deseja adicionar à receita, imprimir e entregar ao paciente. Lucas explicou que um dos princípios adotados é o da redundância visual, o que significa a combinação de elementos como sol, café e galo para indicar o período da manhã, por exemplo.

Médico cria receita com desenhos para pacientes que não sabem ler e reduz erros no tratamento (2) • Imagens cedidas à Itatiaia
Médico cria receita com desenhos para pacientes que não sabem ler e reduz erros no tratamento (2) • Imagens cedidas à Itatiaia

Inicialmente aplicada em situações mais básicas, como a indicação de horários e quantidade de comprimidos, a tecnologia evoluiu para abranger tratamentos mais complexos. Entre eles estão o uso de insulina, que exige uma série de cuidados específicos, como o local de aplicação e a forma de armazenar o medicamento. Além das bombinhas de asma e medicamentos com orientações detalhadas, como ingestão antes ou depois das refeições.

O desenvolvimento dos desenhos conta também com o apoio de uma equipe de pesquisa e da designer Renata Cadena, que trabalha na validação das imagens junto aos pacientes.

"Quase que de maneira imediata, eles compreendem a relação dos desenhos com o uso do medicamento. Lembrando que o paciente recebe mais do que o medicamento. Como médico da família, as consultas não se limitam a isso. Eles recebem também uma consulta digna, olhando no olho, fazendo exames e explicando ao paciente o motivo daquela enfermidade, né?", esclareceu ele.

De acordo com o médico, cerca de 40 milhões de brasileiros têm dificuldades com leitura, o que reforça a necessidade de adaptar a comunicação em saúde.

“Se tivéssemos milhões de pessoas que não falassem português, certamente ofereceríamos orientação em outra língua. Com o letramento, deveria ser a mesma lógica”, comparou.

Plataforma funciona em mais de 10 municípios brasileiros

A plataforma desenvolvida pelo médico já está presente em mais de dez municípios brasileiros, além de distritos indígenas. A expansão, segundo ele, tem ocorrido a partir do interesse de profissionais de saúde e gestores públicos que buscam adaptar a ferramenta às realidades locais.

Atualmente, a solução é utilizada em regiões de Alagoas, Sergipe, Santa Catarina e São Paulo, com relatos positivos de profissionais que atuam diretamente no atendimento à população. “Eles utilizam, sugerem melhorias e indicam medicamentos que podem ser incorporados ao sistema”, explicou o médico.

Médico cria receita com desenhos para pacientes que não sabem ler e reduz erros no tratamento (2) • Imagens cedidas à Itatiaia
Médico cria receita com desenhos para pacientes que não sabem ler e reduz erros no tratamento (2) • Imagens cedidas à Itatiaia

Lucas explicou também que os médicos podem criar sua própria orientação, já que há mais de 150 desenhos disponíveis, além da possibilidade de incluir imagens e vídeos próprios.

A proposta, segundo Cardim, é garantir que, em pleno 2026, o baixo letramento não seja mais uma barreira para o acesso à saúde. “A gente oferta ferramentas para que o profissional consiga adaptar a comunicação à realidade do paciente”, afirmou.

Falta de impressoras nos municípios também é uma barreira

Entre os municípios que adotaram a tecnologia está Baixio, no Piauí, onde todas as unidades básicas de saúde utilizam a plataforma com apoio de impressoras. No entanto, a falta do equipamento ainda é um dos principais entraves para a ampliação do projeto.

De acordo com o médico, a ausência de impressoras nas unidades compromete a rotina dos profissionais, que muitas vezes precisam atender entre 30 e 40 pacientes por dia. Nesses casos, desenhar manualmente as orientações para cada paciente se torna inviável.

Cardim defende que a impressora seja tratada como um item essencial na estrutura das unidades básicas de saúde. “Ela é tão importante quanto a maca, o estetoscópio ou os exames laboratoriais”, argumentou ele.

Segundo Lucas, a proposta agora é integrar a ferramenta ao Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC), utilizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em mais de 5 mil municípios.

Gratuita, a plataforma pode ser disponibilizada ao SUS sem custos, segundo Cardim. Ele afirmou que busca apoio institucional para viabilizar a implementação em larga escala.

Para o médico, a iniciativa também combate um estigma. “São pessoas inteligentes, que trabalham, criam famílias e dominam diversas habilidades, mas não tiveram acesso à educação formal no momento adequado”, afirma. “Elas merecem ser cuidadas com uma comunicação que realmente funcione.”

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o Tá Sabendo no Instagram da Itatiaia.