Buracos, pedágios e falta de descanso: os desafios dos caminhoneiros nas rodovias brasileiras
Motoristas relatam problemas com a conservação das estradas, a falta de áreas adequadas para descanso e a insegurança enfrentada durante as viagens

Com quase 2 milhões de quilômetros de rodovias, o Brasil possui uma das cinco maiores malhas viárias do mundo. Apesar dos avanços registrados nas últimas décadas, mais de 60% das estradas ainda são classificadas como regulares, ruins ou péssimas, realidade que impacta diretamente o transporte de cargas e a rotina de milhares de caminhoneiros.
Quem sente os reflexos dessa situação diariamente é o motorista Erivelton dos Santos Cardoso. Encontrado pela reportagem da Itatiaia em Luislândia do Oeste, distrito de João Pinheiro, no Noroeste de Minas, ele aguardava a manutenção do caminhão antes de seguir viagem. Segundo ele, um dos principais problemas está na BR-040, uma das rodovias mais importantes do país.
"A BR-040 está com muita trepidação, muito buraco pequeno, muito ruim. Fora vários pontos que precisam ser duplicados. A gente paga pedágio e a duplicação não acontece. Toda hora tem acidente", afirmou.
Rodovias concedidas têm melhores condições, mas cobrança de pedágio gera críticas
A qualidade das estradas varia conforme o modelo de administração. Em geral, as rodovias concedidas à iniciativa privada recebem avaliações melhores dos usuários, embora o valor dos pedágios seja alvo frequente de reclamações. Já nas rodovias administradas pelo poder público, a situação costuma ser mais crítica. É o caso da MG-410, no trecho próximo a Presidente Olegário, onde a conservação da pista preocupa motoristas que trafegam pela região.
Falta de pontos de descanso dificulta cumprimento da lei
Além das condições das estradas, caminhoneiros enfrentam outro desafio: a escassez de locais apropriados para descanso. Desde 2015, a chamada Lei do Descanso determina que o poder público e as concessionárias ofereçam pontos de parada para que os profissionais possam cumprir os períodos obrigatórios de repouso. No entanto, o número de estruturas disponíveis ainda está muito abaixo da demanda.
Osvaldo Salgado, vice-presidente da Federação das Empresas de Transporte de Cargas e Logística de Minas Gerais (Fetcemg), afirma que a infraestrutura existente é insuficiente. "O mínimo que um ponto de descanso deve oferecer é estacionamento seguro para caminhões, restaurante e estrutura sanitária. As opções sempre foram e continuam limitadas. Muitos caminhões acabam parando próximos às barreiras da Polícia Rodoviária Federal, o que representa um risco para todos", explicou.
Governo prevê ampliação da rede
Em nota enviada à Itatiaia, o Ministério dos Transportes informou que atualmente existem 184 pontos de descanso privados certificados voluntariamente e outros 10 implantados pelo governo federal ou pelas concessionárias.
Segundo a pasta, os contratos de concessão firmados nos últimos três anos preveem a construção de mais 42 unidades, que serão entregues gradualmente. Outros 18 pontos de parada também estão previstos nos leilões de concessão programados para 2026.
Postos cobram por serviços e motoristas relatam desconforto
Com a falta de infraestrutura pública, postos de combustíveis passaram a oferecer áreas para descanso mediante cobrança pelo estacionamento e pelo uso de banheiros e chuveiros. Embora representem uma alternativa para quem passa dias na estrada, muitos caminhoneiros dizem que as condições estão longe do ideal. Leonardo de Souza, que deixou a profissão de educador físico para trabalhar como motorista, afirma que o período de descanso nem sempre proporciona o repouso necessário.
"Você fica sem local para se divertir, sair ou até encontrar um restaurante, uma padaria ou uma lanchonete. Tem que se virar com o que tem. É desconfortável e pesado", relatou. Além da estrutura precária, muitos profissionais convivem com o medo constante da violência nas estradas. Durante o período de descanso, o risco de furtos, roubos de carga e até sequestros faz parte da rotina de quem depende das rodovias para trabalhar.
A série de reportagens da Itatiaia continua nesta quinta-feira (6), mostrando como a criminalidade afeta a vida dos caminhoneiros e os desafios enfrentados para garantir segurança nas estradas brasileiras.
Jornalista formado pela UFMG, com passagens pela Rádio UFMG Educativa, R7/Record e Portal Inset/Banco Inter. Colecionador de discos de vinil, apaixonado por livros e muito curioso.



