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UFV, 100 anos: a ciência que transformou o agro e constrói o futuro do campo

Da tropicalização do Cerrado às novas tecnologias no campo: como a Universidade Federal de Viçosa se tornou o coração do agronegócio nacional

Por,  e 
UFV 100 ANOS
Daniel Sotto Maior

Cem anos são cerca de 1.200 meses ou 36.525 dias. Os números ajudam a dimensionar o tempo, mas dizem pouco sobre o que aconteceu nesse intervalo. Desde 28 de agosto de 1926, a Universidade Federal de Viçosa (UFV) atravessou diferentes momentos da agricultura brasileira e participou da construção da ciência que transformou o campo do país.

Criada como Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV), a instituição iniciou, em 1º de agosto de 1927, as aulas dos ensinos Fundamental e Médio e do curso técnico de Agricultura. Um ano depois, em 1º de agosto de 1928, foi realizada a aula inaugural do curso superior de Agricultura.

A UFV começou a trabalhar com inovação muito antes de o termo ganhar o sentido tecnológico que tem hoje. Também ajudou a formar profissionais e pesquisadores antes de o Brasil se consolidar entre os grandes produtores agrícolas do mundo. Ao longo de um século, mudaram as técnicas, as máquinas, a ciência e a própria forma de produzir. A universidade acompanhou essas transformações   e, em muitos casos, ajudou a produzi-las.

Uma trajetória construída por estudos, métodos científicos e descobertas pioneiras, mas também por pessoas. Esta reportagem percorre parte do primeiro século da UFV a partir das histórias de quem nasceu em Viçosa, passou pelos bancos da universidade e, dentro ou fora do campus, construiu sua trajetória em áreas como agricultura, gestão, ciência e tecnologia.

São histórias que ajudam a dimensionar o impacto da UFV não apenas no município, mas também na formação de profissionais, no desenvolvimento da agricultura e na criação de conhecimento e inovação no Brasil.

Raízes no Campus: uma vida dedicada ao conhecimento

Para compreender o alcance e o significado do centenário da UFV, é preciso olhar para a forma como a instituição se enraizou profundamente na vida das pessoas que por lá passaram. A história de Daniel Cabral, ex-aluno de 29 anos e hoje gestor público responsável pela área de inovação do município de Viçosa, ilustra perfeitamente essa ligação geracional que atravessa décadas e molda destinos.

Daniel Cabral, formado pela UFV • Arquivo/ Cedida à Itatiaia
Daniel Cabral, formado pela UFV • Arquivo/ Cedida à Itatiaia

"O meu pai é servidor da UFV. Todo o sustento de casa veio da instituição", recordou Daniel com carinho, à Itatiaia. "Tenho muita memória de quando era criança, de o meu pai me trazer para tomar leite quente e conhecer o refeitório. Cresci neste ambiente e comecei a sonhar com ele".

No centenário da universidade, Daniel e o pai recriaram uma fotografia antiga na emblemática escadaria do campus, num gesto simbólico que reflete a essência da UFV: transformar vidas através da educação, da oportunidade e do trabalho.

Antes x Depois de Daniel Cabral e o pai João Batista Cabral, na escada da UFV • Arquivo/ Imagens cedidas à Itatiaia
Antes x Depois de Daniel Cabral e o pai João Batista Cabral, na escada da UFV • Arquivo/ Imagens cedidas à Itatiaia

Engenheiro agrônomo e mestre em Administração Pública pela UFV, Daniel destacou como essa vivência prática e acadêmica moldou a sua visão sobre o desenvolvimento regional e a responsabilidade social do conhecimento:

"A UFV mostrou-me, na prática, o papel fundamental que a ciência e a pesquisa podem desempenhar no desenvolvimento de uma cidade, de um estado e de uma nação inteira. A universidade contribuiu para avanços extraordinários no agronegócio brasileiro, na produção de cana-de-açúcar, soja, trigo e tantas outras tecnologias essenciais. O grande desafio contemporâneo é aproximar cada vez mais esses mundos, fazendo com que o pequeno produtor e a comunidade local entendam e sintam que a universidade também é deles".

Essa mesma conexão com o espaço acadêmico é compartilhada pelo engenheiro de produção Marcos Vinícius Valente, de 31 anos, especialista em desenvolvimento de negócios e também graduado pela UFV.

Marcos Vinícius Valente • Arquivo/ Cedida à Itatiaia
Marcos Vinícius Valente • Arquivo/ Cedida à Itatiaia

Nascido em Viçosa, a relação de Marcos com a universidade começou ainda nos primeiros anos de vida, marcada por uma memória afetiva singular: "Não dá para desassociar a UFV do Marcos Vinícius. Não foi só o lugar onde eu estudei e me formei. Eu nasci em Viçosa e todas as opções de lazer, desde quando eu era criança, eram dentro do campus: caminhadas, parques e a convivência diária. Eu tive um problema de saúde na infância muito grave na época, um refluxo severo. A solução que minha família encontrou foi que todas as minhas refeições fossem feitas dentro do estábulo da UFV, porque eu adorava os bois, adorava a criação. Então, eu cresci literalmente dentro da UFV. É uma coisa muito intrínseca. Eu amo aquele espaço: é o campus mais bonito do Brasil, sem clubismo, é a verdade. Cada construção ali foi pensada para ser o mais eficiente possível e levar a maior tecnologia, sobretudo para o agro, que é o grande forte da instituição", destacou.

Um século de inovação: da ESAV à tropicalização do Cerrado

A trajetória da UFV confunde-se com a própria revolução agrícola do Brasil. Idealizada e fundada pelo ex-presidente da República Artur Bernardes, a instituição nasceu em 1926 sob o nome de Escola Superior de Agricultura e Veterinária (ESAV). Bernardes trouxe dos Estados Unidos o modelo das Land Grant Colleges, focado na integração rigorosa entre ensino teórico, pesquisa aplicada e extensão comunitária, adaptando essa estrutura para transformar a realidade agrária do país.

Como ressalta Marcos Vinícius Valente, a inovação foi um requisito de sobrevivência desde o primeiro dia: "A UFV precisava de inovação para se tornar viável. Ela está no interior de Minas Gerais, sem uma grande rodovia federal passando na porta; logisticamente, era muito difícil chegar lá. Para dar certo, ela tinha que ser diferente de tudo. Inclusive, um fator decisivo para o seu crescimento foi o modelo de assistência: a UFV nasceu oferecendo moradia e alimentação gratuitas para os alunos, modelo que permaneceu até a década de 1980. Chegou a ter alojamentos para abrigar 5.000 estudantes. A inovação está no DNA da UFV desde sempre. Ela entendeu que precisava ser pioneira para completar 100 anos em 2026 com essa relevância".

Marcos Vinícius Valente, na UFV • Arquivo
Marcos Vinícius Valente, na UFV • Arquivo

A consolidação dessa vocação deu-se com o histórico convênio firmado com a Purdue University (EUA), entre 1952 e 1973, que reestruturou a pós-graduação e a pesquisa em ciências agrárias no país. O impacto prático dessa aliança refletiu-se na ocupação e tropicalização do Cerrado brasileiro. Numa época em que se acreditava que os solos do interior do país eram improdutivos, pesquisadores de Viçosa desenvolveram técnicas pioneiras de manejo de fertilidade, adubação e melhoramento genético. Variedades históricas de soja adaptadas ao clima tropical (como a UFV-1 e a Sucupira) saíram dos campos experimentais da instituição para transformar o Cerrado num dos maiores polos agrícolas do planeta.

O Reitor da UFV, Professor Demetrius David da Silva, ressalta a dimensão desse legado histórico: "celebrar o centenário da UFV significa homenagear a própria trajetória de transformação e modernização da sociedade brasileira. A UFV foi pioneira a mostrar ao Brasil e ao mundo como produzir com sustentabilidade e eficiência em solos tropicais, liderando pesquisas em fertilidade, melhoramento vegetal e proteção de cultivos. Além disso, instituições cruciais para o país, como a Embrapa e as empresas estaduais de extensão rural, foram moldadas e impulsionadas por professores, pesquisadores e egressos da nossa universidade".

Reitor da UFV, Professor Demetrius David da Silva • Daniel Sotto Maior
Reitor da UFV, Professor Demetrius David da Silva • Daniel Sotto Maior

O elo com o campo e a formação prática: 'aprender fazendo'

A capacidade de transferir a tecnologia desenvolvida nos laboratórios diretamente para o cotidiano do produtor rural é apontada por líderes do setor como o grande diferencial da UFV, hoje posicionada entre as 100 melhores universidades agrícolas do mundo.

Antônio Pitangui de Salvo, presidente do Sistema Faemg Senar e ex-aluno da instituição, enfatiza o pioneirismo pedagógico que marcou gerações de profissionais: "a UFV é um exemplo claro e indiscutível de instituição que alia ensino, pesquisa e extensão de forma efetiva. A própria metodologia de formação profissional do Senar buscou em Viçosa o apoio técnico para desenvolver um modelo de capacitação baseado no 'aprender fazendo'. Eventos consolidados como a Semana do Fazendeiro, com quase um século de história contínua, contribuem diretamente para que o conhecimento científico chegue sem barreiras ao produtor rural".

Antônio de Salvo, presidente do Sistema FAEMG SENAR e vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) • Reprodução Itatiaia
Antônio de Salvo, presidente do Sistema FAEMG SENAR e vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) • Reprodução Itatiaia

Esta visão é partilhada por Thales Fernandes, Secretário de Estado de Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG) e também egresso da instituição: "a minha história pessoal e profissional confunde-se inteiramente com a UFV. A universidade possui um diálogo direto e permanente com a sociedade rural; ela entende as dores e necessidades do campo e leva a tecnologia até à ponta, beneficiando especialmente os pequenos e médios produtores. A grande expertise da UFV é transformar vidas e formar talentos altamente qualificados que fazem a diferença na gestão pública e no mercado".

Thales Fernandes, secretário de Agricultura e Pecuária de Minas Gerais • Reprodução | Youtube Itatiaia
Thales Fernandes, secretário de Agricultura e Pecuária de Minas Gerais • Reprodução | Youtube Itatiaia

Ecossistema tecnológico e a cidade universitária

Ao alcançar a marca dos 100 anos, estruturada em três campi (Viçosa, Rio Paranaíba e Florestal) e atendendo cerca de 20 mil estudantes, a UFV destaca-se no cenário nacional também pelo seu dinâmico ecossistema de inovação e pela simbiose única com o município.

Marcos Vinícius destaca a interdependência entre a cidade e a universidade: "Viçosa é uma cidade universitária que respira a UFV 100% do tempo. Nas férias de janeiro, você passa na avenida principal e não vê ninguém, o comércio esfria. A cidade espera ansiosamente pelo início de março para os estudantes voltarem. A UFV abraça Viçosa assim como Viçosa abraça a UFV; não dá para separar uma da outra. É um município que respira ar tecnológico, educação e inovação constantemente."

A Professora Adriana Faria, Diretora Executiva do Centro Tecnológico de Desenvolvimento Regional de Viçosa (CenTev/UFV) e Presidente da Anprotec, destaca a maturidade desse ecossistema: "a inovação na UFV começou quando nem usávamos essa palavra no vocabulário acadêmico tradicional. O Parque Tecnológico (TecnoPARQ), o primeiro a entrar em operação no estado de Minas Gerais, e a nossa incubadora de empresas refletem uma tradição científica de excelência associada à cultura de aplicação prática do conhecimento. O caminho para a inovação sustentável passa pela articulação da Tripla Hélice — universidade, empresa e governo —, transformando ciência de ponta em produtos, novas startups e empregos de alta qualidade".

Complementando essa análise sobre os novos papéis da academia, o Professor Allan Freitas, coordenador do CREC/UFV, ressalta os desafios contemporâneos: "O consagrado tripé ensino, pesquisa e extensão ganhou o reforço indispensável da inovação.

Professor Allan Freitas, da UFV • Arquivo
Professor Allan Freitas, da UFV • Arquivo

A universidade do futuro precisa de ser uma plataforma aberta de criação e transformação do conhecimento em soluções reais para a sociedade. Formamos profissionais preparados para a complexidade contemporânea, capazes de utilizar a inteligência artificial e novas tecnologias de forma crítica, ética e criativa para resolver problemas complexos".

A transição bem-sucedida da pesquisa acadêmica para o mercado de tecnologia é comprovada por trajetórias como a de Paulo Márcio de Freitas, ex-aluno de Ciência da Computação e fundador da Cientec Aceleradora:

"Criei a empresa no ano 2000 para atender a uma demanda crescente de desenvolvimento de software científico dentro da própria universidade. O ambiente de proximidade e confiança com os professores facilitou imensamente este processo. Hoje, o nosso ecossistema demonstra que, quando a universidade e o mercado trabalham juntos, a ciência transforma-se em desenvolvimento econômico e soberania tecnológica para todo o país".

Foto de Paulo Márcio de Freitas • Arquivo
Foto de Paulo Márcio de Freitas • Arquivo

Visão do futuro: a capital nacional da Bioinovação

Com o olhar no próximo século de existência, a UFV e o município de Viçosa preparam-se para liderar as novas fronteiras do conhecimento, integrando Inteligência Artificial, bioinsumos, agricultura de precisão, transição energética e biotecnologia.

Como anúncio estratégico para marcar este novo ciclo centenário, Daniel Cabral antecipa uma importante iniciativa de desenvolvimento regional: "no dia 10 de novembro, durante a Semana da Inovação, vamos lançar oficialmente Viçosa como Capital Nacional da Bioinovação. Já abrigamos o maior parque tecnológico de Minas Gerais e centros de excelência internacional como o BioAgro. Queremos demonstrar ao país que uma cidade do interior, impulsionada pela força e pela inteligência da UFV, é plenamente capaz de produzir ciência, tecnologia e inovação de nível mundial".

Refletindo sobre o marco secular e a responsabilidade com o futuro da nação, o Reitor Demetrius David da Silva resume a essência da instituição:

"Universidade Federal de Viçosa: há 100 anos a gerar conhecimento que forma pessoas e transforma o país".

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Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.

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Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e pós-graduado em Jornalismo nos Ambientes Digitais pela mesma instituição. Possui experiência como repórter, produtor e coordenador de telejornal.

 

 

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