Triticale pode substituir farinha de trigo em biscoitos, aponta pesquisa
Testes da Embrapa Trigo e da Vilma Alimentos indicam que o cereal híbrido pode substituir totalmente a farinha de trigo em dois tipos de biscoitos e parcialmente em wafers, bolos, pizzas e outros produtos

O triticale, cereal híbrido entre as espécies de trigo e de centeio, passou por análises de qualidade industrial durante 2026. Os estudos concluíram ser possível a adoção do cereal na composição de produtos destinados à alimentação humana.
Os testes de panificação e confeitaria foram realizados pela empresa Vilma Alimentos (MG), parceira da Embrapa Trigo (RS). Seus resultados indicam a viabilidade de substituição da farinha de trigo pela farinha de triticale na composição, principalmente de biscoitos.
“Avaliamos a aplicação da farinha de triticale em 11 produtos. Os testes mostraram que é possível utilizá-la em seis deles, sendo que em dois foi possível substituir totalmente a farinha de trigo pela farinha de triticale sem perder qualidade”, afirmou Sérgio Gonçalves, diretor técnico da Vilma Alimentos.
A substituição total pode ser feita em dois tipos de biscoitos, já a parcial pode ocorrer na fabricação de wafers, bolos, pizzas e biscoitos de maisena.
Possibilidades para a indústria de biscoitos
Segundo a pesquisadora da Embrapa Trigo, Jane Machado, um dos principais mercados para o triticale no Cerrado deve ser a indústria de biscoitos, porque “o triticale garante a crocância e a firmeza dos biscoitos, permitindo eliminar o uso de aditivos químicos para atingir esses atributos”. Ela também destacou que os grãos de triticale, inteiros ou moídos, podem ser utilizados em cereais matinais e produtos dietéticos.
Na produção de biscoitos moldados, a substituição pode chegar a 100%, mantendo boa expansão e atributos similares ao padrão elaborado somente com farinha de trigo. Na panificação, a mistura indicada ficou em 50% de trigo e 50% de triticale, limitada à fabricação de pães de baixo crescimento. E, no caso de biscoitos laminados doces (conhecidos no mercado como biscoito de maisena), os testes mostraram que é possível substituir até 30% da farinha de trigo por triticale, mantendo o padrão de textura, cor e sabor característicos dos produtos.
A destinação de triticale para a alimentação humana ganhou impulso nos últimos anos, fomentada pelo marketing dos alimentos funcionais, com os grãos destinados à indústria de alimentos integrais, como pães e biscoitos.
Avaliação a campo
Na Fazenda Lagoa, em Carandaí, na Zona da Mata de Minas Gerais, foram conduzidos experimentos em oito hectares de triticale em 2026, um para cada cultivar disponível no mercado: BRS Piapara, BRS Saturno, BRS Surubim, BRS Tambaqui, BRS TL 51 e BRS Zênite (Embrapa e Fundação Meridional), além das cultivares IPR Aimoré e IPR Goitacá (IDR Paraná).
A semeadura foi realizada em maio, com colheita em setembro, sob irrigação. A média de produtividade do triticale no Cerrado varia de três a quatro toneladas por hectare em sistema irrigado, mas as parcelas em Carandaí superaram as expectativas.
“As parcelas de triticale chamaram a atenção dos produtores da região, mostrando excelente sanidade e com espigas bem formadas. O rendimento de grãos passou das seis toneladas por hectare”, avaliou o engenheiro agrônomo Luiz Tarcísio Behm.
De acordo com Osmar Conte, pesquisador da Embrapa Trigo, o triticale também pode apresentar bom desempenho no cultivo de sequeiro. “O triticale tem boa tolerância à seca, com plantas de raízes profundas, bem adaptadas a solos ácidos e arenosos”, explicou Conte, lembrando que nem todas as cultivares testadas são indicadas para produção de grãos no Cerrado. Após a colheita, serão realizadas avaliações para subsidiar melhor as orientações técnicas.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



