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Sementes de milho sagradas são recuperadas por indígenas Avá Guarani no Paraná

Parceria com a Embrapa Pantanal ajuda a recuperar variedades tradicionais de milho em comunidades de Guaíra e Terra Roxa, fortalecendo a soberania alimentar, a preservação da biodiversidade e a retomada de práticas culturais e espirituais dos povos Avá Guarani

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Dois homens indígenas estão em um espaço coberto. Um deles usa um cocar de penas azuis, amarelas e vermelhas e segura espigas de milho claras e escuras; o outro veste camisa roxa e boné vermelho. Ao fundo, há outras pessoas e sacos de produtos empilhados.
Recuperação de variedades tradicionais de milho fortalece a autonomia alimentar e a preservação do patrimônio agrícola e cultural das comunidades Avá Guarani no Oeste do Paraná. • Divulgação / Embrapa

Uma iniciativa tem contribuído para recuperar parte de um patrimônio agrícola e cultural dos povos Avá Guarani no Oeste do Paraná: as sementes tradicionais de milho. Em áreas de retomada, variedades consideradas sagradas voltaram a ser cultivadas pelas comunidades de Guaíra-PR e Terra Roxa-PR. 

A pesquisa acadêmica e comunitária reuniu, entre os dias 13 e 15 de setembro de 2023, um grupo de alunos e professores que fez um diagnóstico em nove aldeias de retomada Avá Guarani no estado do Paraná. Entre eles estava o pesquisador da Embrapa Pantanal e professor do programa de doutorado de Desenvolvimento Rural Sustentável da Unioeste, Alberto Feiden. 

“Entre as questões levantadas paralelamente ao diagnóstico, foi de que as comunidades haviam perdido muitas de suas variedades tradicionais, inclusive de variedades de milho de caráter sagrado”, explicou Feiden. 

Segundo o pesquisador, entre as sementes reintroduzidas estão o Saboró Branco e o Saboró Preto, variedades tradicionais que foram recuperadas por meio de uma parceria entre a Embrapa Pantanal e o banco de sementes da escola indígena Jaguapiru em Dourados, MS. 

“Mais do que retomar uma cultura agrícola, o processo representa uma tentativa de reconstruir vínculos entre território, alimentação, espiritualidade e identidade. O cultivo das variedades tradicionais tem apresentado resultados positivos na produção e reforça a importância das sementes para a autonomia das comunidades”, detalhou o pesquisador da Embrapa. 

A partir de uma espiga de milho da variedade saboró preto, conseguiu-se produzir 60 espigas, que já foram distribuídas para mais 3 agricultores, que para a próxima safra irão reproduzi-la em duas épocas diferentes para reduzir os riscos de perda por eventos climáticos e em espaços isolados para evitar a contaminação por pólen de milho transgênico e por agrotóxicos.

Para os Avá Guarani, o milho não representa apenas uma fonte de alimento. Ele está associado a conhecimentos transmitidos entre gerações, cerimônias religiosas e formas ancestrais de preparo dos alimentos. “A recuperação das sementes ultrapassa os limites da agricultura. O retorno do Saboró Branco e do Saboró Preto às áreas de cultivo contribui para a retomada de práticas que foram fragilizadas pelo deslocamento das comunidades e pela transformação de seus territórios”, destacou Alberto.

Cultivo protegido

Outro aspecto central da iniciativa foi a preocupação com a preservação genética das sementes: para isso, o cultivo foi realizado com estratégias de isolamento para reduzir o risco de contaminação por variedades transgênicas e por substâncias utilizadas nas monoculturas existentes nas áreas vizinhas. 

“Nesse processo, técnicas de cultivo e conhecimentos indígenas se combinam com a atuação acadêmica, fortalecendo uma produção voltada à sustentabilidade e à conservação da biodiversidade agrícola”, explicou Feiden.

Durante o desenvolvimento da cultura, não foram observados ataques de pragas. As plantas alcançaram entre 1,80 e 2 metros de altura. Depois da colheita, as espigas foram mantidas despalhadas e penduradas sobre o fogão, onde a fumaça contribui para sua conservação. 

O próximo passo será ampliar a produção e diminuir os riscos de perdas provocadas pelo clima. Para isso, pretende-se realizar dois plantios, em períodos diferentes, ambos na lua minguante: o primeiro no início de setembro e o segundo no início de outubro. Em cada época, serão utilizadas sementes de dez espigas, enquanto outras dez serão mantidas como reserva. 

Segundo o conhecimento tradicional relatado pelo agricultor, tanto o plantio quanto a colheita na lua minguante ajudam a evitar o ataque de carunchos. O milho também é cultivado em consórcio com outras espécies. Uma das combinações utilizadas é com o feijão-de-corda, cujas plantas utilizam o milho como suporte e mantêm as vagens afastadas do solo. A mandioca também pode ser plantada em conjunto com o cereal.

Soberania e partilha

Segundo o Cacique Raúl Medina, da aldeia Tokoha YvY Raty Porã, a recuperação das sementes também resgata uma concepção de agricultura baseada na suficiência e na partilha. 

“O milho é cultivado prioritariamente para alimentar a comunidade e sustentar suas práticas culturais, e não como uma mercadoria destinada à acumulação. Essa perspectiva contrasta com a lógica da agricultura de larga escala que predomina no entorno das comunidades”, relatou a liderança. “A cultura guarani valoriza a suficiência e a partilha. O milho é cultivado para alimentar a comunidade, não para gerar lucro. Como diz o Caderno Mapa Guarani Continental: nós não vivemos para comprar terra, nós vivemos apenas para usá-la de acordo com nossos costumes”.

O Cacique explicou que as variedades agrícolas não podem ser compreendidas apenas como plantas ou alimentos. Elas carregam significados espirituais e rituais fundamentais para a reconstrução do Ñande Reko, expressão Guarani que pode ser traduzida como “Nossa vida” ou“nosso modo de viver”.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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