Safra de pinhão começa no RS com previsão de menor produção
Colheita deve cair na Serra Gaúcha, mas preços tendem a subir; atividade sustenta renda de famílias no campo

A temporada do pinhão iniciou nesta quarta-feira (1°) no Rio Grande do Sul com os produtores se preparando para a colheita, transporte, comercialização e armazenamento da semente. Na Serra, principal produtora, a Emater/RS-Ascar projeta uma safra menor do que a do ano passado e um preço um pouco superior. Produto ligado à cultura e tradição da região, o pinhão tem um papel importante na composição da renda e no sustento das famílias que se dedicam ao seu extrativismo.
Segundo a engenheira florestal da Emater/RS-Ascar Regional de Caxias do Sul, Adelaide Juvena Kegler Ramos, a lei que determina a época da temporada da cultura visa assegurar a proteção da Araucária e da fauna associada e conciliar a geração de renda das famílias envolvidas na cadeia produtiva do pinhão. Por ser uma espécie ameaçada de extinção, também é vedado o corte de Araucária nativa, que produz pinhas, durante os meses de abril, maio e junho.
A Serra Gaúcha, a região das Hortênsias e, especialmente, os Campos de Cima da Serra se caracterizam como os maiores produtores de pinhão do Estado. Na safra 2025, foram colhidas em torno de 600 toneladas de pinhão. A previsão para este ano, porém, é de que haja uma redução na colheita na maioria dos municípios da região.
"As estimativas, baseadas nos estudos realizados pelos extensionistas em campo, com os extrativistas e entidades relacionadas à atividade, apresentam variações significativas entre os municípios. Portanto, é essencial aferir a informação com o avanço na colheita", esclareceu Adelaide.
A expectativa é de uma diminuição na colheita, em percentuais que variam de 12,5% a 60%. Em contrapartida, em alguns municípios, como Caxias do Sul, prevê-se a manutenção dos índices da colheita anterior e, em Canela, um crescimento na produção de até 100% em relação à safra anterior.
"A redução na safra se deve principalmente às condições climáticas durante o período de reprodução e crescimento do pinhão: secas recorrentes nos últimos anos e chuvas abundantes no final do inverno e início da primavera, juntamente com a alternância de produção, que é uma característica da espécie. As oscilações de produção da Araucária angustifólia são cíclicas. Como planta nativa, a espécie apresenta variações de produtividade, em média, a cada três anos", afirmou a engenheira florestal.
Queda na produção dos municípios
Normalmente, em anos de colheitas regulares, um dos maiores produtores é São Francisco de Paula, com uma produção anual estimada em 120 toneladas em safra normal. Para este ano, a produção prevista é de cerca de 40 toneladas, ou seja, uma redução de mais de 60% em relação à safra anterior. O município conta com cerca de 160 famílias da agricultura familiar envolvidas na atividade de coleta e extração do pinhão.
Já Muitos Capões e Jaquirana, municípios com 70 e 160 famílias envolvidas na atividade, respectivamente, estimam ambos produção de 120 t, o que representa uma redução de 20% em relação à última safra. Cambará do Sul, com cem famílias envolvidas na atividade, apresenta uma estimativa aproximada de produção de 36 toneladas, 40% inferior à safra do ano passado.
O município de Bom Jesus, com previsão de colheita de aproximadamente 35 t, envolvendo 120 famílias, prevê uma redução na produção de cerca de 30%. Já São José dos Ausentes, com uma produção estimada de 30 t e 90 famílias envolvidas, estima uma diminuição de 50% na produção. Em Monte Alegre dos Campos, Pinhal da Serra, Esmeralda e Vacaria, a atividade também é significativa.
O pinhão tem destaque ainda nos municípios de Gramado, Canela e Nova Petrópolis, onde faz parte da cadeia do turismo. Devido à natureza predominantemente informal da atividade, não é possível estimar com precisão o número de famílias envolvidas e a quantidade produzida.
Toda a colheita é manual e a cadeia produtiva apresenta poucas iniciativas de beneficiamento, industrialização e armazenamento, concentrando-se a comercialização no período que vai de abril a junho, podendo estender-se até agosto em regiões com variedades tardias.
Comercialização e precificação
As estimativas de preços variam conforme o município e a modalidade de comercialização, feita praticamente toda de forma informal e "in natura". Na Serra, o valor parte de R$ 5,00 ao quilo, no caso de produto entregue aos intermediários, até R$ 16,00 em supermercados, feiras e outros. O beneficiamento da semente na forma de pinhão moído ou de paçoca agrega valor ao produto, que chega a R$ 20,00 ou R$ 30,00 o quilo. O preço mínimo pago para o extrativista de pinhão neste ano, conforme a Portaria do Mapa (nº 868, de 01/12/25), é de R$ 4,63/Kg.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



