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Oscilação de temperatura aumenta risco para colônias de abelhas Apis mellifera e exige manejo

Mudanças bruscas de temperatura elevam o gasto energético das abelhas, podem reduzir as reservas de alimento e afetar a criação, o forrageamento e a produtividade das colônias

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Abelhas Apis mellifera agrupadas sobre os favos de uma colmeia.
Manejo adequado ajuda a reduzir os impactos das variações de temperatura e a preservar a força das colônias ao longo do ano. • Divulgação

As oscilações térmicas acentuadas elevam o custo da termorregulação de colônias de abelhas Apis mellifera e podem afetar as reservas alimentares, o desenvolvimento da cria e a resistência a agentes estressores. A manutenção da temperatura interna exige respostas de aquecimento e resfriamento que variam conforme as condições ambientais e a força da colônia. 

Nesse cenário, fatores como temperatura, umidade, disponibilidade de água e alimento, ventilação e características da colmeia devem ser considerados no manejo. As respostas também dependem da intensidade e da duração das oscilações térmicas, bem como das condições locais.

Segundo o artigo do zootecnista, doutor Heber Luiz Pereira, as colônias de abelhas Apis mellifera funcionam como um superorganismo. Diferentemente de um inseto isolado, a colônia é capaz de regular a temperatura interna, especialmente na área de cria, mantendo-a em uma faixa relativamente estreita e estável, geralmente entre 33 e 36 °C, com valor médio próximo de 34,5 °C. Em outras regiões da colmeia e no ambiente externo, entretanto, a variação de temperatura é maior.

A manutenção da faixa térmica ideal na área de cria exige grande investimento energético. À medida que a temperatura interna se aproxima do limite superior tolerável, as operárias se distanciam umas das outras e intensificam a ventilação, coletam e distribuem água para resfriamento evaporativo, depositam gotículas sobre os favos e podem reduzir a densidade de indivíduos no interior da colmeia, formando a chamada “barba” no alvado da colmeia. Não há, porém, um limiar único de temperatura externa que desencadeie essas respostas. 

Com a queda da temperatura ambiente, a colônia passa progressivamente a conservar e produzir calor. As abelhas se aproximam umas das outras, aumentando a densidade sobre a cria, e geram calor por meio de contrações dos músculos torácicos, sem bater as asas. O início e a intensidade dessa resposta dependem da força da colônia, da quantidade de cria, do isolamento da colmeia, do vento e da duração do resfriamento.

Esse processo de “tremor” muscular é metabolicamente caro e depende diretamente das reservas de mel e do néctar armazenado. A alternância diária entre resfriamento ativo durante o dia e aquecimento ativo durante a noite aumenta a demanda metabólica da colônia, e quando o gasto supera a entrada de recursos, as reservas podem diminuir, e a colônia pode chegar ao inverno/entressafra com estoques insuficientes, elevando o risco de enfraquecimento e mortalidade, ou iniciar uma florada muito fraca, comprometendo parte da produtividade.

O esforço termorregulatório também reduz a disponibilidade de operárias para o forrageamento. Em dias muito quentes, a atividade de coleta de pólen e néctar diminui, já em manhãs muito frias, o início do forrageamento é atrasado. O resultado é uma redução na entrada de recursos justamente quando a demanda energética interna está elevada.

Como o manejo pode auxiliar

Segundo Pereira, as intervenções devem ser adaptadas ao clima, ao material das colmeias, à força da colônia e ao risco de pilhagem. Algumas medidas incluem:

  • Escolha do local do apiário: deve-se preferir locais com sombreamento parcial, protegidos de ventos frios e com boa ventilação natural. Evite áreas de baixada, onde o acúmulo de ar frio é maior durante a madrugada;
  • Observe o isolamento e proteção das colmeias, utilizando coberturas adequadas ao clima local sobre as colmeias, com proteção contra insolação direta e chuva, sem bloquear a ventilação nem permitir acúmulo de umidade, e manta térmica sobre os quadros de cria quando necessário;
  • Cuide da ventilação: ajuste o tamanho do alvado, fundos telados e outros recursos de ventilação a depender das condições locais, considerando a força da colônia e risco de pilhagem (só manter grandes aberturas se não comprometer a defesa da colônia);
  • Garanta disponibilidade de água: mantenha fontes de água limpa e acessível próximas ao apiário;
  • Mantenha as colônias fortes, populosas e com rainha jovem, pois regulam melhor a temperatura e recuperam-se mais rapidamente de períodos de estresse;
  • Ofereça alimentação suplementar sempre que a inspeção indicar reservas insuficientes e houver escassez de recursos ou elevado gasto energético.

As variações bruscas de temperatura representam um desafio energético e fisiológico importante para as colônias de Apis mellifera. Entretanto, grande parte dos impactos podem ser mitigados por meio de práticas de manejo adequadas: escolha criteriosa do local, isolamento térmico, gestão da ventilação, garantia de água e manutenção de colônias fortes. 

O conhecimento dos mecanismos de termorregulação e a observação atenta do comportamento das abelhas permitem ao apicultor intervir de forma preventiva, aumentando a resiliência das colônias e a sustentabilidade da atividade apícola em ambientes ou momentos de grande amplitude térmica.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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