Ora-pro-nóbis une tradição, cultura e nutrição na culinária mineira
Planta ganhou espaço na cozinha mineira por seu valor cultural e nutricional e hoje também movimenta o turismo gastronômico em Sabará

Uma famosa Panc (Plantas Alimentícias Não Convencionais), o Ora-pro-nóbis possui uma origem que se mistura com a igreja católica. A planta era muito usada durante o período colonial como ornamentação e cerca-viva nas cidades históricas de Minas Gerais, principalmente no entorno de igrejas e capelas. Conhecida por suas folhas verdes e lisas e caule espinhoso, a planta foi ocupando as cozinhas e se transformando em patrimônio da culinária mineira.
Segundo José Newton Meneses, professor do Departamento de História da UFMG, Ora-pro-nóbis é rogai por nós, em latim. “E esse rogai por nós significa, então, para essa população algo de atendimento à sua necessidade, como se Deus, da fé dessa população, desse a ela e pusesse à sua disposição um ingrediente que estava ali como algo para atender outra necessidade”, explicou o professor em entrevista à TV UFMG.
Um dos polos de produção e consumo da planta é a cidade de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde a Panc é reconhecida como patrimônio cultural imaterial. O primeiro restaurante especializado no preparo do Ora-pro-nóbis foi fundado em 1996, no bairro Pompéu, pela cozinheira Maria Rosa Andrade, que preparava a planta junto com marreco. Com o sucesso do prato, vários restaurantes da região aderiram ao ingrediente e foi criado até mesmo um festival.
Silas da Fonseca, filho de Maria Rosa, afirmou à TV UFMG que o ingrediente movimenta o turismo local e leva mais de 10 mil visitantes por ano para a localidade por meio do encontro gastronômico.
“O festival só vem crescendo e cada vez a gente se orgulha mais de poder abrigar essa festa e abrigar todo esse povo que vem para cá para participar. Antes do Ora-pro-nóbis, a gente era uma um bairrozinho, não tinha nenhuma visibilidade na mídia, a gente vivia muito esquecido dos poderes públicos. A partir do Ora-pro-nóbis, o poder público começou a olhar com outros olhos para a comunidade”, afirmou o produtor.
Uma alternativa à carne
A ora-pro-nóbis foi incorporada à culinária mineira por razões culturais e nutricionais. Para o professor Meneses, a alimentação é uma linguagem da cultura construída ao longo do tempo, com base na combinação entre necessidade e gosto.
“Se a planta tem uma série de características nutritivas boas, como a proteína, e esse é o caso do ora-pro-nóbis, ela começa a ser consumida como alternativa à carne, que era cara no período colonial, e passa a ser incorporada ao gosto e à identidade daquele grupo”, afirmou.
A partir disso, a folhagem ficou conhecida popularmente como carne de pobre ou carne vegetal. Segundo a professora Nathalia Sernizon, do Departamento de Nutrição da UFMG, além da alta concentração de proteínas, esse patrimônio alimentar mineiro reúne uma série de outros nutrientes como ferro, magnésio, cálcio e vitaminas A, B e C.
“É um alimento muito interessante do ponto de vista da sustentabilidade. Então, nos auxilia em diversas fontes da saúde, seja na saúde intestinal, pelas fibras dietéticas, seja no aporte necessário de proteínas”, concluiu a professora em entrevista à TV UFMG.
*Com informações da UFMG
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



