O crédito sustentável para o café que conquista o mundo
Financiamentos ajudam produtores na cafeicultura regenerativa, na recuperação do solo, na ampliação do uso de bioinsumos e de tecnologias; práticas podem aumentar produtividade e gerar acesso a mercados internacionais

O café produzido em Minas Gerais encontra novos caminhos para conquistar consumidores no Brasil e no exterior. Por trás de lavouras que recuperam o solo, ampliam a biodiversidade e reduzem a dependência de produtos químicos, uma ferramenta ganha espaço: o crédito sustentável.
Linhas de financiamento têm permitido aos cafeicultores investir em recuperação do solo, bioinsumos, cobertura vegetal, compostagem, irrigação eficiente e outras tecnologias. A mudança responde a uma demanda ambiental, mas também se transforma em estratégia comercial diante das exigências cada vez maiores dos mercados internacionais.
Nesse processo, o Sistema Nacional de Fomento (SNF) reúne instituições financeiras de desenvolvimento que atuam no financiamento de projetos capazes de estimular o desenvolvimento econômico e sustentável. No estado, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) é uma dessas instituições e oferece linhas voltadas à agricultura regenerativa.
O Brasil é o maior produtor mundial de café, e os atributos ambientais passaram a fazer parte da competitividade do produto. Na chamada cafeicultura regenerativa, o objetivo é melhorar a saúde do solo, ampliar a biodiversidade e reduzir a dependência de insumos químicos sem abrir mão da produtividade.

Para Guilherme Oliveira, analista de sustentabilidade do Sistema Faemg Senar, muitas das práticas hoje classificadas como regenerativas já fazem parte do conhecimento dos produtores.
“São nomes novos para coisas antigas. São práticas adequadas de manejo, que mantêm a vida no solo. Você tem diversidade de plantas nas entrelinhas do café, utiliza menos produtos químicos e prioriza insumos orgânicos ou naturais”.
Crédito financia transformação das lavouras
Em Minas Gerais, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) oferece, desde 2022, por meio do programa Lab AgroMinas, linhas específicas para projetos de agricultura regenerativa, com foco em bioinsumos e recuperação do solo.
Aproximadamente R$ 34 milhões já foram liberados para essa finalidade, com os recursos chegando aos produtores também por meio de cooperativas.
A atuação do BDMG faz parte de uma estrutura mais ampla de financiamento ao desenvolvimento. Por meio do Sistema Nacional de Fomento, bancos públicos de desenvolvimento, agências de fomento e outras instituições financeiras de desenvolvimento atuam no apoio a investimentos com impacto econômico, social e ambiental.
Segundo João Paulo Barbosa Moreira, superintendente de Agronegócios do BDMG, o financiamento pode contemplar diferentes etapas da transição.
Entre os investimentos estão fertilizantes naturais, incorporação de matéria orgânica, insumos biológicos, unidades de produção de bioinsumos dentro das propriedades, biodigestores, sistemas de compostagem e irrigação eficiente.
Do solo ao mercado internacional
No Cerrado Mineiro, os resultados já aparecem na comercialização. Em Patrocínio, no Alto Paranaíba, a Fazenda Congonhas Estate Coffee adotou práticas regenerativas e conquistou a certificação Regenagri.
Segundo o administrador Rodrigo Ribeiro, o reconhecimento abriu novas possibilidades de venda, principalmente no mercado internacional.
“Hoje conseguimos vender café com essa certificação. A illycaffè, grande indústria italiana, já reconhece e paga prêmios pelos cafés regenerativos. Foi uma das portas que se abriram nos mercados internacionais”.
A experiência mostra como o investimento na propriedade pode deixar de ser apenas um custo de produção e se transformar em uma ferramenta de acesso a mercados que valorizam atributos ambientais.
Na Expocacer ( Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado), que reúne mais de 850 cafeicultores e foi a primeira do mundo a receber certificação em cafeicultura regenerativa, a avaliação é de que essa transformação veio para ficar.
Para o diretor-presidente executivo da cooperativa, Simão Pedro de Lima, a demanda tende a crescer. “Ela não é um modismo. É uma característica de mercado e será cada vez mais demandada”.
Produtores ampliam manejo regenerativo
Também em Patrocínio, a Fazenda Bom Jardim Estate Coffee utiliza plantas de cobertura, compostos orgânicos e produtos biológicos.

O produtor Mário Alves Rebehy administra aproximadamente 300 hectares de café, totalmente irrigados e com colheita mecanizada. A produção é voltada principalmente ao mercado externo.
Segundo ele, algumas práticas já faziam parte da rotina da propriedade, mas os investimentos permitiram ampliar o manejo para praticamente toda a área.
“As práticas regenerativas já existiam dentro da fazenda, mas nós as chamávamos de capricho. Sempre tivemos plantas de cobertura, compostos orgânicos e produtos biológicos, mas isso não era aplicado em 100% da propriedade. Com os investimentos, conseguimos levar esse manejo para praticamente todas as áreas”.
Pequeno produtor precisa de prazo maior
A transição, porém, exige investimento e os resultados não aparecem imediatamente. Por isso, produtores defendem condições de financiamento compatíveis com o tempo necessário para recuperar o solo e consolidar as novas práticas.
Mário Rebehy afirma que prazos maiores são especialmente importantes para os pequenos produtores.
“Você não vê o resultado de uma hora para outra. As linhas de crédito regenerativo precisam ter um prazo maior. Sou um produtor de médio a grande porte e tenho estrutura para segurar esses custos por algum tempo. O pequeno produtor não tem a mesma capacidade de investir e esperar dois, três ou quatro anos”.

Para Caio Oliveira, gerente regional do Sistema Faemg Senar, ampliar e simplificar o acesso ao financiamento é fundamental para a atividade rural.
O crédito também pode apoiar a regularização ambiental, incluindo recuperação de áreas de preservação permanente e reservas legais, licenciamento, outorga de água e atualização do Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Custo maior pode trazer retorno
A adoção do manejo regenerativo pode elevar os custos inicialmente. A Expocacer estima um acréscimo de aproximadamente 11% nas despesas de produção. Em contrapartida, a cooperativa aponta possibilidade de aumento de produtividade de dois a cinco sacos de café por hectare, dependendo das condições da lavoura.
Para Simão Pedro de Lima, a conta precisa considerar também o retorno produtivo e comercial.
“A cafeicultura regenerativa não significa apenas aumento de custo. Ela demanda cuidados diferentes, mas o ganho de produtividade pode compensar esse investimento”.
Além da produtividade, o manejo busca tornar as lavouras mais preparadas para enfrentar períodos de estiagem, temperaturas elevadas e outros efeitos associados às mudanças climáticas.
Crédito e conhecimento caminham juntos
O financiamento, porém, não é suficiente. A adoção de novas práticas também depende de assistência técnica e capacitação.
Em Piedade dos Gerais, na Região Central de Minas, Maria da Conceição de Jesus Lara, conhecida como Mariinha, administra o Sítio Campo Redondo, onde a produção é livre de produtos químicos.
A propriedade recebeu, em 2004, a primeira certificação de café orgânico concedida em Minas Gerais. Segundo a produtora, o acompanhamento técnico foi fundamental para aperfeiçoar o manejo.
“Sempre tivemos acompanhamento. Às vezes, fazíamos coisas que achávamos estar certas, mas estavam erradas. Hoje temos consciência de todo esse processo”.
O BDMG também oferece capacitação gratuita em agricultura sustentável. Desde 2023, quatro edições reuniram mais de 3,2 mil inscritos de diferentes regiões de Minas Gerais.
Sustentabilidade chega à xícara
A transformação começa no solo, passa pelo financiamento e pela propriedade rural, mas termina na xícara.

Para o barista Osnei Cesarino, instrutor de formação profissional no Senac Minas, o consumidor passou a valorizar não apenas o sabor do café, mas também a origem, o produtor e a forma como a bebida é produzida.
“Não se trata apenas de ter um café sustentável, mas de conseguir produzir no futuro. Com as variações climáticas, precisamos regenerar o solo, porque chega um momento em que ele deixa de ser produtivo”.
É nesse ponto que o crédito sustentável ganha importância estratégica para a cafeicultura mineira: financiar hoje uma produção capaz de manter a produtividade, responder às exigências ambientais e abrir espaço para cafés de maior valor nos mercados brasileiro e internacional.
Com a participação de instituições do Sistema Nacional de Fomento, o financiamento pode ajudar a transformar práticas de manejo em investimentos de longo prazo, aproximando produtores, tecnologia, sustentabilidade e mercado.
Para os produtores de Minas Gerais, regenerar o solo pode significar mais do que preservar o ambiente. Pode representar também uma nova porta de entrada para o café brasileiro no mercado mundial.
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



