Manejo pode melhorar fertilidade do solo mesmo com limitações naturais
Estudo no Paraná mostra que práticas como plantio direto, rotação de culturas e uso de corretivos ajudam a reter matéria orgânica, água e nutrientes em diferentes tipos de solo.

Um estudo desenvolvido pela Rede Paranaense de Agropesquisa e Formação Aplicada comprova que características naturais, como diversidade de solo, relevo e clima, influenciam diretamente a fertilidade das lavouras. A pesquisa também revela que o manejo permite reter matéria orgânica, água e nutrientes.
Os locais de análise fazem parte de áreas experimentais em Presidente Castelo Branco e Cianorte, no Noroeste; Cambé, no Norte; Ponta Grossa, nos Campos Gerais; Guarapuava, no Centro-Sul; Dois Vizinhos, no Sudoeste; e Toledo, no Oeste. A previsão é que os resultados consolidados saiam em 2029.
As amostras coletadas nas megaparcelas apontam indicadores como matéria orgânica do solo, pH, capacidade de troca de cátions, fósforo e potássio, atributos que ajudam a demonstrar a capacidade do solo de armazenar nutrientes, sustentar o desenvolvimento das plantas e responder à aplicação de fertilizantes e corretivos.
“Esses estudos permitem estabelecer recomendações adequadas às diferentes condições de solo, relevo e clima do Paraná. Os resultados vão ampliar o conhecimento e contribuir para que produtores, técnicos e instituições adotem estratégias capazes de aliar produtividade e sustentabilidade na agropecuária estadual”, destacou o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette.
Nas áreas, os pesquisadores Marcelo Marques Lopes Müller e Edson Lucas Camilo, do Departamento de Agronomia da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro), analisam como diferentes práticas de conservação interferem na qualidade química do solo. Para isso, foram implantadas megaparcelas sem e com terraços. Em Guarapuava, também existe uma área conduzida conforme um conjunto de boas práticas de manejo.
A Rede Agropesquisa é integrante do Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação Prosolo (Napi-Prosolo) e conduz o projeto com financiamento do Sistema FAEP e da Fundação Araucária.
Clima e textura
O estudo indica a existência de dois grupos de solos nas áreas analisadas. O primeiro reúne os solos argilosos encontrados em Guarapuava, Dois Vizinhos, Toledo e Cambé. Nessas regiões, há maior capacidade de retenção de água e nutrientes, além de condições favoráveis à produção de soja, milho e trigo.
Ainda, em localidades de Guarapuava, as temperaturas mais amenas favorecem o acúmulo de matéria orgânica. A combinação entre clima frio, elevada quantidade de argila e matéria orgânica contribui para que a capacidade de troca de cátions ultrapasse o nível mínimo adequado. Em regiões mais quentes, como Dois Vizinhos, Toledo e Cambé, a decomposição dos resíduos vegetais ocorre de forma acelerada. Com isso, os teores de matéria orgânica tendem a ser menores, mesmo em solos argilosos.
“Nestas áreas, é necessário produzir e manter palhada sobre a superfície ao longo do ano”, explicou o pesquisador Müller.
O segundo grupo inclui áreas com solos de textura mais arenosa, como Cianorte, Presidente Castelo Branco e algumas áreas de Ponta Grossa. Esses solos apresentam menor fertilidade natural, capacidade de retenção de água e nutrientes, mas maior vulnerabilidade à erosão e à perda de matéria orgânica.
Manejo compensa limitações naturais
Apesar das diferenças geológicas e climáticas, os resultados demonstram que a fertilidade não depende apenas das características naturais do solo. O sistema de produção e as práticas de conservação adotadas ao longo do tempo podem melhorar os atributos químicos e reduzir parte das limitações existentes.
Um dos principais exemplos ocorre em Ponta Grossa, onde é possível encontrar áreas com solo de textura média a arenosa e baixa fertilidade natural. A adoção do Sistema Plantio Direto associada à rotação de culturas e ao uso de corretivos permitiu alcançar teores de matéria orgânica e nutrientes semelhantes aos observados em alguns solos argilosos.
Estratégia regional
As condições encontradas em cada parte do Paraná ajudam a explicar a distribuição das atividades agropecuárias. Na Planície Litorânea e na Serra do Mar, o relevo acidentado, a umidade elevada e a presença de solos rasos e pedregosos favorecem cultivos adaptados, como a banana.
No Primeiro Planalto, especialmente no entorno de Curitiba, o clima mais frio e os solos com maior teor de matéria orgânica oferecem condições favoráveis à produção de hortaliças e frutas.
No Segundo Planalto, onde está Ponta Grossa, parte dos solos apresenta textura média a arenosa e baixa fertilidade natural. Nessas áreas, é possível ampliar a produção de grãos, além de pastagens permanentes e reflorestamento aparecerem como alternativas.
No Terceiro Planalto, as condições de regiões como Guarapuava, Dois Vizinhos, Toledo e Cambé favorecem altas produtividades de soja, milho e trigo. Já no Noroeste, onde estão Cianorte e Presidente Castelo Branco, predominam cultivos como cana-de-açúcar, mandioca e citros, além das pastagens.
Mesmo nesses casos, a produção depende da manutenção de cobertura vegetal ao longo do ano, da reposição constante de resíduos e do planejamento da adubação. Em áreas mais frágeis, o uso de pastagens perenes ou reflorestamento também contribui para evitar erosão e perdas aceleradas de solo e nutrientes.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



