Filmes com óleos essenciais avançam como alternativa sustentável ao plástico

Tecnologia promissora amplia a vida útil de alimentos, reduz impactos ambientais e ainda tem espaço para inovação no Brasil

Alternativa inovadora para o setor de embalagens de alimentos

O uso de filmes biodegradáveis com óleos essenciais está surgindo como uma alternativa inovadora para o setor de embalagens de alimentos. A tecnologia ajuda a conservar produtos frescos e processados por mais tempo, mantendo a qualidade, e ainda contribui para reduzir o uso de plásticos feitos a partir do petróleo, considerados grandes vilões ambientais. Um levantamento internacional de patentes mostra que o interesse por essa solução cresceu consistentemente nos últimos 12 anos, mas também revela uma lacuna importante: o Brasil ainda não protege inovações nessa área.

Segundo Daniel Terao, da Embrapa Meio Ambiente, a prospecção tecnológica, realizada a partir da base de dados Espacenet, do Escritório Europeu de Patentes, analisou documentos relacionados ao uso de filmes e revestimentos alimentares com óleos essenciais. A busca identificou 170 patentes válidas, depositadas entre 2012 e 2024, indicando que se trata de uma tecnologia relativamente recente, em franca expansão e com forte apelo comercial e ambiental.

O crescimento no número de depósitos é constante, com destaque para os anos de 2018 e 2023, quando foram registrados 30 e 35 documentos, respectivamente. Para os pesquisadores, essa tendência reflete tanto o avanço das pesquisas quanto o interesse do mercado por soluções mais sustentáveis. A queda observada em 2021 pode estar relacionada ao período de maturação de estudos e ao impacto da pandemia, já que os depósitos voltaram a crescer nos anos seguintes.

Etapa da pesquisa

China domina cenário global

Para Itala Silva, doutoranda da Universidade Federal da Bahia, a análise revelou uma forte concentração geográfica das patentes: a China responde por cerca de 93% dos depósitos relacionados a filmes com óleos essenciais para alimentos. O protagonismo chinês é atribuído a investimentos contínuos em inovação, políticas públicas voltadas à sustentabilidade e à força do setor acadêmico no desenvolvimento tecnológico. Outros países, como Coreia do Sul, Romênia, Chile, Espanha, Índia, Luxemburgo e México, aparecem com participações pontuais.

“Apesar do avanço internacional, nenhum documento de patente relacionado ao tema foi identificado no Brasil, considerando as palavras-chave e os códigos de Classificação Internacional de Patentes (CIP) utilizados, bem como a base de dados consultada. O dado chama atenção, especialmente considerando a forte produção científica nacional na área de alimentos, embalagens e bioeconomia”, explicou Itala Silva. “O cenário aponta um alto potencial para inovação e desenvolvimento tecnológico no país, desde que haja maior incentivo à proteção intelectual e à transferência de tecnologia”, acredita ela.

Universidades lideram os depósitos

Outro destaque do levantamento é o perfil dos depositantes. As universidades lideram os registros, respondendo por cerca de 69% das patentes analisadas. A Jiangnan University, na China, aparece como a instituição com maior número de depósitos. Empresas do setor de embalagens e do agronegócio também figuram entre os principais depositantes, embora em menor proporção.

Todos os documentos analisados têm autoria atribuída a pessoas físicas, o que pode indicar uma estratégia institucional de valorização dos inventores. Entre eles, destaca-se o pesquisador Chen Haiyan, da Universidade de Ciência e Tecnologia de Kunming, responsável por patentes envolvendo filmes à base de ácido polilático com óleos essenciais aplicados à conservação de frutas, cogumelos e outros alimentos.

Canela, orégano e cravo lideram entre os óleos essenciais

Em termos de composição, predominam os filmes elaborados com matrizes compostas, que combinam diferentes materiais para melhorar o desempenho mecânico e funcional.

Entre os componentes mais utilizados estão o amido e a quitosana, escolhidos por sua abundância, biodegradabilidade e propriedades estruturais. O colágeno de peixe e a gelatina também se destacam, especialmente por sua resistência mecânica, capacidade de retenção de água e proteção contra radiação ultravioleta.

Há ainda uma tendência recente de incorporar subprodutos da agroindústria, como cascas de frutas, sementes e bagaços, reforçando o alinhamento da tecnologia com os princípios da economia circular.

Entre os compostos bioativos adicionados aos filmes, os óleos essenciais de canela, orégano e cravo são os mais frequentes. O óleo de canela, rico em cinamaldeído e eugenol, é reconhecido por suas propriedades antifúngicas, antibacterianas e antioxidantes, além de ser classificado como seguro para uso alimentar. O óleo de orégano se destaca pelo alto teor de carvacrol e timol, enquanto o óleo de cravo apresenta forte ação antimicrobiana e contribui para a fragrância dos revestimentos.

Esses óleos podem ser usados isoladamente ou em combinação, potencializando seus efeitos por meio de ações sinérgicas. Técnicas como encapsulamento e nanoformulação ajudam a contornar limitações como volatilidade e baixa solubilidade em água, aumentando a estabilidade e a eficácia dos compostos.

O estudo foi publicado nos Cadernos de Prospecção, Salvador, v. 19, n. 1, janeiro a março, 2026.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.

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