Belo Horizonte
Itatiaia

Feito inédito: Café de aldeia indígena atinge pontuação máxima na SIC 2024

Mais de 78 amostras de microlotes foram avaliadas nesta edição por um time de nove especialistas, durante a Semana Internacional do Café; café indígena alcançou 100 pontos

Por
Celeste Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal (R0) • Alexandre Rezende / NITRO

Provador profissional de café há 13 anos, o q-grader, Leonardo Custódio, explica que para se conseguir uma nota 100 em um café é preciso “fazer um trabalho muito bom no pós colheita, ter uma excelente nutrição na lavoura, um bom microclima e terroir e tudo o mais tem que colaborar. É muito difícil conciliar tudo isso”.

Pois esse foi o feito do cacique Rafael Mopimop Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal (RO) durante a 6ª edição do Concurso Tribos, da 3 Corações, durante a Semana Internacional do Café 2024, encerrada na última sexta-feira (22).

A mesa de avaliação contou com nove provadores profissionais, dos quais dois deram nota máxima, seguindo os parâmetros do Fine Robusta Cupping Form, como fragrância, sabor, acidez e equilíbrio. A análise sensorial do café foi feita com base numa lista de 100 itens. Trata-se de um feito inédito: um café com pontuação máxima. Mais de 78 amostras de microlotes foram avaliadas nesta edição por um time de nove especialistas liderados por Silvio Leite, juiz principal da premiação.

"Este café canéfora é um dos mais complexos e completos que eu já provei ao longo da minha carreira. É a primeira vez que tenho chance de pontuar e reconhecer um café robusta exemplar 100 pontos, produzido no coração da floresta amazônica. O conjunto de atributos surpreende os apaixonados por café com notas exuberantes de rosas brancas, rapadura, caramelo, hibisco, guaraná, açúcar mascavo, caramelo, doce de leite, chocolate amargo, quebra-queixo; aroma frutado de cupuaçu, morango, amora e cassis; aroma de bebidas amarula, guaraná, licor; aromas lácteos de leite ninho, leite condensado; corpo sedoso, cremoso, vigoroso, amanteigado, untuoso e retrogrosto frutoso”. Ufa…. Segundo ele, o resultado é uma experiência gustativa “excepcional".

Outro provador profissional que também deu nota máxima ao café indígena foi João Vitor Pereira da Silva, o João Coffee: “Pela primeira vez na minha vida que dei nota 100 para um café. Não tenho palavras para descrevê-lo a não ser perfeito”, disse João, acrescentando que o café apresentou alta complexidade de sabores e atributos muito diferenciados dos demais.

Segredo pode estar no terroir da terra indígena

O café vencedor foi representado por Celeste Suruí, da Terra Indígena Sete de Setembro. Segundo ela, o território Suruí conta com 36 aldeias e 3 mil pessoas, sendo 176 cafeicultores. Juntos, eles cultivam 245 hectares de robusta dentro do território Sete de Setembro. Ela acredita que o sucesso do campeão esteja no fato de ser produzido na região da Amazônia e em área em que se preserva o máximo de integridade do bioma. “Por estar em um ambiente tão íntegro, esse terroir preserva uma microbiota diferente, que interfere na qualidade do café, além do saber fazer indígena”, complementou Enrique Alves, pesquisador da Embrapa Rondônia.

A produção da última safra ficou em torno de 700 sacas.

Três Corações apoia a produção na aldeia Sete de Setembro

O Projeto Tribos investe na disseminação de conhecimento e na capacitação das comunidades aprimorando a infraestrutura adequada para a produção de cafés especiais sustentáveis em harmonia com a floresta amazônica. Os dez melhores lotes também são reconhecidos com prêmios em dinheiro e por meio da compra das sacas a preços acima do mercado.

Por

Maria Teresa Leal é jornalista, pós-graduada em Gestão Estratégica da Comunicação pela PUC Minas. Trabalhou nos jornais 'Hoje em Dia' e 'O Tempo' e foi analista de comunicação na Federação da Agricultura e Pecuária de MG.