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El Niño pode encarecer alimentos em até 20% e elevar custos no agronegócio

Modelo matemático do Rabobank estima impacto nos preços com base no histórico do fenômeno no Brasil. Engenheiro Ricardo Valentini alerta para os riscos do calor extremo sobre lavouras, pecuária e abastecimento

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El Niño pode ser o mais intenso desde 1950, segundo NOAA
El Niño • Foto: NOAA

Os efeitos do El Niño podem encarecer os alimentos in natura em até 20%, segundo um modelo matemático desenvolvido pelo Rabobank com base no histórico do fenômeno no Brasil. De acordo com o relatório, a intensidade e a duração dos impactos variam conforme a força do El Niño, as condições da safra e o cenário econômico. A previsão acende um alerta para o agronegócio diante dos riscos de calor extremo, irregularidade das chuvas e perdas na produção e na conservação dos alimentos.

Em entrevista ao Itatiaia Agro, o engenheiro Ricardo Valentini, especialista em soluções contra o calor, afirmou que os impactos climáticos podem se intensificar até o fim do ano. “Eu gostaria de ser muito otimista para falar que a gente já viveu o pior, mas a gente está muito longe disso”, disse. Segundo ele, dezembro pode concentrar efeitos mais intensos das altas temperaturas, da seca e das chuvas fortes. “O calor custa caro e vai custar muito mais caro até o final do ano”, alertou Valentini. Para o especialista, produtores rurais e empresas precisam se preparar para reduzir prejuízos em todas as etapas da cadeia produtiva.

El Niño pode intensificar extremos climáticos

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial, fenômeno que altera os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do mundo. No Brasil, os efeitos variam conforme a região e a intensidade do evento. Valentini chama a atenção para a combinação entre temperaturas elevadas e irregularidade das chuvas, condições que podem comprometer lavouras, aumentar os custos da produção pecuária e dificultar a conservação dos alimentos. “Eu não estou aqui sendo alarmista, mas tenho que trazer a realidade dos impactos do El Niño em toda a cadeia produtiva”, afirmou.

Os reflexos, segundo ele, vão além das propriedades rurais e podem chegar ao consumidor por meio do aumento dos custos de produção, armazenamento, transporte e distribuição.

Café está entre as culturas ameaçadas pelo calor

O café está entre as culturas vulneráveis às condições climáticas adversas. De acordo com Valentini, a planta é sensível às variações de temperatura, e tanto as geadas quanto o calor extremo podem comprometer a produtividade.

“Quando a gente fala de uma cultura igual o café, extremamente termo sensível, quando a gente tem uma amplitude térmica, seja geada ou um calor extremo, como a gente vê agora com o El Niño, a gente vai ter quebra de produção”, afirmou.

O especialista também aponta riscos para outros países produtores, como Colômbia, Indonésia e Vietnã, que podem influenciar a oferta internacional. “O café que já está caro vai ficar ainda mais caro no final do ano”, projetou.

Para reduzir os riscos, Valentini recomenda o uso de modelos de previsão climática e ferramentas de georreferenciamento, que permitem avaliar as condições de cada região e orientar decisões sobre plantio e manejo.

“Quanto melhor a gente consegue ter os modelos matemáticos e o georreferenciamento do clima, a gente consegue preparar melhor o manejo da nossa cultura”, explicou.
Ele também recomenda avaliar alternativas, como a rotação de culturas, quando tecnicamente viável, para reduzir a exposição a condições climáticas desfavoráveis.

Estresse térmico ameaça a produtividade na pecuária

As altas temperaturas também preocupam segmentos como avicultura, suinocultura e pecuária leiteira. O estresse térmico pode prejudicar o desempenho dos animais e provocar perdas financeiras para os produtores. “A gente precisa de uma infraestrutura para reduzir uma questão muito importante, que é o estresse térmico nos animais. Quando a gente tem grande variação de temperatura, vai gerar prejuízo para o produtor”, afirmou Valentini.

O engenheiro defende investimentos em isolamento térmico e em soluções de engenharia capazes de reduzir a transferência de calor do ambiente externo para as instalações rurais. Ele compara a tecnologia ao funcionamento de uma garrafa térmica, que ajuda a conservar a temperatura de líquidos.

“Um isolamento térmico hoje não é um luxo. A gente fala de conforto, mas é margem financeira e margem operacional”, ressaltou.

Além de contribuir para o bem-estar animal, o isolamento pode melhorar a eficiência dos sistemas de climatização e reduzir a demanda por energia, dependendo das características da instalação e do projeto adotado.

Ricardo Valentini • Fabiano Frade/Itatiaia
Ricardo Valentini • Fabiano Frade/Itatiaia

Calor acelera perdas nas Ceasas e no transporte de alimentos

Os impactos das altas temperaturas também atingem as centrais de abastecimento, os sacolões e as empresas de transporte. Frutas, legumes e hortaliças podem perder qualidade mais rapidamente quando ficam expostos ao calor, aumentando o risco de desperdício e os custos da distribuição.

Para Valentini, o problema está, em parte, na falta de planejamento para lidar com os efeitos das temperaturas elevadas. “A gente não coloca a conta do calor na hora que vai fazer o nosso plano de negócio, e isso impacta toda a cadeia produtiva”, avaliou.

O especialista defende melhorias nos veículos de transporte, nas áreas de armazenamento e nas estruturas de comercialização. Segundo ele, a ausência de proteção térmica adequada pode acelerar a deterioração dos produtos. “A maioria dos sacolões não tem uma proteção de isolamento térmico. Então, o que isso vai resultar? A gente perder as hortaliças mais cedo”, afirmou.

O prejuízo pode representar desde o descarte de pequenas quantidades até a perda de grandes volumes de alimentos. “É aquela diferença de você ter que jogar fora toneladas ou quilos de tomate por causa do calor”, exemplificou.

Adoção de tecnologias de isolamento térmico • Reprodução
Adoção de tecnologias de isolamento térmico • Reprodução

Durante a entrevista, Valentini também citou soluções comercializadas pela empresa em que atua, com preços a partir de R$ 40 por metro quadrado. O valor não inclui necessariamente a instalação e pode variar conforme as características de cada estrutura.Tecnologia e planejamento para reduzir prejuízos

Para o engenheiro, a resposta aos impactos do calor exige planejamento integrado, que considere desde o manejo das lavouras até as embalagens, o armazenamento e o transporte dos alimentos.

“Não adianta a gente pensar só no produto. A gente tem que pensar em toda a cadeia logística que envolve o produto”, afirmou.

Valentini defende que produtores e empresas avaliem antecipadamente os riscos climáticos e invistam em soluções adequadas à realidade de cada operação. A adoção de tecnologias de isolamento térmico, aliada ao planejamento da produção e da logística, pode ajudar a reduzir perdas e custos operacionais. “Caro é não resolver o problema”, resumiu. “Quanto mais cedo a gente trabalhar com tecnologias que combatam os impactos do calor, mais dinheiro a gente vai ter no nosso bolso.”

A recomendação é antecipar as medidas de prevenção, em vez de agir somente depois que as altas temperaturas provocarem danos. Para o agronegócio, o desafio é proteger a produtividade, preservar a qualidade dos alimentos e reduzir os custos que podem chegar ao consumidor final.

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Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.

 

 

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