Casal cria 'Tinder bovino' com IA para produzir leite de elite em Minas: 'futuro é genética'
Ex-proprietários de empresa de telecomunicações investem em estrutura automatizada e inteligência artificial para otimizar o melhoramento genético e buscar a liderança nacional em leite A2A2

Após anos no mercado de telecomunicações no Sul de Minas Gerais, o casal Arnon Belluzzi e Maria Paula Belluzzi, ambos de 34 anos, decidiu mudar os rumos dos negócios e migrar para o agronegócio. A transição culminou na criação de uma propriedade de pecuária leiteira altamente automatizada e no desenvolvimento de um software de inteligência artificial voltado ao melhoramento genético bovino, um "Tinder bovino".
A Fazenda Belluzzi, localizada em Cachoeira de Minas, a 20 minutos da residência do casal em Santa Rita do Sapucaí, começou a ser estruturada do zero há quatro anos. Inicialmente, os empresários avaliaram o plantio de mogno (madeira nobre), mas direcionaram o foco para a produção de leite ao buscarem maior rentabilidade por metro quadrado. Em 2026, com o término da montagem da infraestrutura e a venda definitiva da empresa de telecomunicações, o casal passou a se dedicar exclusivamente à atividade leiteira.

Algoritmo cruza 70 indicadores para achar o 'match' perfeito
Desenvolvido por Arnon, que atuou como gestor no setor de tecnologia desde os 17 anos, o software automatiza a escolha de touros para a inseminação artificial. Enquanto a seleção tradicional costuma ser feita manualmente por meio de planilhas ou cadernos, o programa analisa cerca de 70 indicadores genômicos de cada vaca e cruza os dados com catálogos internacionais de touros.
O sistema identifica as necessidades específicas do animal, como melhoria na produção de leite A2A2, saúde ou índices reprodutivos, e busca o doador com o perfil genético complementar mais adequado.

"A inteligência artificial analisa um volume de dados humanamente impossível de processar em grandes rebanhos. O software cruza as informações de cada vaca com bancos de dados do mundo todo para encontrar o touro ideal, funcionando exatamente como um 'Tinder bovino'", explicou Maria Paula à Itatiaia.
A ferramenta já foi utilizada para selecionar o rebanho inicial da propriedade, composto por 106 novilhas prenhas de alta linhagem adquiridas de grandes produtoras do país. Atualmente, a fazenda conta com 105 animais adultos e cerca de 45 bezerros recém-nascidos. Para acelerar o crescimento do rebanho principal, o casal utiliza gado de corte como receptor de embriões de vacas de leite (barrigas de aluguel).
Diante do interesse de outros pecuaristas, o casal planeja comercializar o programa para produtores de leite e de outras cadeias da pecuária.
O futuro da pecuária leiteira não é de quem tem o maior rebanho, mas de quem tem a melhor genética. Com animais geneticamente superiores, é possível produzir o mesmo volume de leite utilizando menos vacas
Automação e economia circular no campo
Com o objetivo de reduzir a dependência de mão de obra e otimizar custos, a fazenda adota um sistema automatizado de limpeza conhecido como flush (ou flushing) no galpão. "Como a mão de obra hoje no campo está muito escassa, tentamos automatizar o máximo possível. Três vezes por dia o flush é ativado de forma automática, como se fosse uma descarga, passando água pelas pistas onde as vacas ficam para levar todo o esterco embora", detalhou Maria Paula.

Após a lavagem automatizada, a estrutura opera em lógica de economia circular:
- Fração líquida: separada e destinada à fertirrigação das lavouras de milho utilizadas na alimentação do rebanho, substituindo fertilizantes químicos.
- Fração sólida: processada para a geração de biogás (gás metano), que será convertido em energia elétrica para complementar a usina solar já instalada na propriedade.
Metas de expansão nacional
A curto prazo, o planejamento do casal prevê atingir, nos próximos três anos, uma produção diária de 25 mil litros de leite A2A2, tipo de leite que possui digestibilidade facilitada, mantendo cerca de 520 vacas em lactação e um rebanho total de 1.000 cabeças, limite da capacidade física da atual propriedade.
A longo prazo, a meta projetada para os próximos dez anos inclui a aquisição de novas áreas em outros estados, como na Região Nordeste, para alcançar uma produção entre 100 mil e 150 mil litros de leite por dia e comercializar genética de elite para o mercado nacional.
"Acreditamos que o melhoramento genético é o caminho para colocar a pecuária leiteira brasileira em outro patamar. Queremos ajudar outros produtores a alcançarem uma genética de elite para que o Brasil seja reconhecido mundialmente como o maior produtor de leite do mundo", concluiu Maria Paula.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.




































