'Se deixarem de encomendar jantar para cozinhar em casa, já valeu a pena', diz chef alentejano
Descubra a trajetória de Carlos Afonso, que transformou décadas de experiência em cozinhas Michelin num projeto digital que aproxima portugueses da gastronomia tradicional

Há pouco mais de um ano, Carlos Afonso gravava vídeos para cerca de 37 mil seguidores no Instagram. Hoje, a comunidade ultrapassou os 102 mil. O crescimento não aconteceu por acaso: o chef alentejano de 40 anos encontrou uma forma de ensinar receitas portuguesas que qualquer pessoa consegue reproduzir.
A fórmula mistura quase duas décadas de trabalho em cozinhas de referência — incluindo restaurantes com estrelas Michelin — com explicações diretas e sem complicação. Carlos acredita que cozinhar não precisa ser difícil e que a gastronomia portuguesa merece voltar ao centro da mesa das famílias.
Das mesas de família em Beja às cozinhas profissionais
A paixão de Carlos pela gastronomia nasceu em Beja, onde cresceu rodeado por refeições em família. A cultura de se reunir à mesa permanece viva até hoje. Basta o tempo melhorar para que o grupo combine um petisco.
O tio leva vinho da talha, cada um prepara um prato e tudo se organiza através de mensagens no WhatsApp. Foi nesse ambiente de convívio que o amor pela cozinha ganhou forma.
As memórias incluem também os dias inteiros de pesca com o pai no rio e nas barragens alentejanas. O peixe apanhado terminava sempre à mesa, preparado pela família. Havia o prazer de pescar, mas também o de cozinhar e partilhar aquilo que se apanhava.
A formação que abriu portas para o mundo
Aos 16 anos, Carlos saiu de Beja para Lisboa e concluiu um curso profissional de Comunicação e Marketing. Durante esse período, trabalhou em bares, discotecas, balcões e restaurantes para ganhar experiência e pagar as contas.
Chegou a iniciar um curso de Turismo, mas rapidamente percebeu que o entusiasmo real estava na cozinha. Procurou na Internet e encontrou Gestão e Produção de Cozinha, em Portalegre. As inscrições fechavam no dia seguinte.
Foi chamado para entrevista, conseguiu entrar e nunca mais parou. A formação abriu-lhe as portas da hotelaria profissional e, pouco depois, começou a trabalhar em cozinhas de referência.
Da Bélgica ao país Basco: a busca pelos melhores
Depois de passar pelo Marmòris, em Vila Viçosa, e pela Bica do Sapato, em Lisboa, Carlos decidiu procurar experiências fora de Portugal. Queria aprender ao mais alto nível.
Trabalhou na Bélgica, na Holanda e no País Basco, onde teve contacto com cozinhas distinguidas pelo Guia Michelin. Mais tarde, regressou ao País para integrar a equipa do Ocean, no Vila Vita Parc, no Algarve.
A passagem por restaurantes completamente diferentes deu-lhe uma visão muito mais ampla da profissão. Foi uma fase de enorme crescimento técnico e criativo.
O Frade e o Oitto: projetos que nasceram das raízes
Em 2019, Carlos abriu com o primo Sérgio Frade o restaurante O Frade, em Belém. O conceito recuperava muitas das receitas tradicionais alentejanas com que ambos cresceram. Tudo foi criado de raiz, desde o conceito ao branding, sempre com a preocupação de preservar uma cozinha muito portuguesa.
O sucesso levou-o a dar um novo passo. Em 2022 inaugurou o Oitto, no Chiado, um projeto onde teve liberdade para desenvolver uma identidade própria.
Ao fim de dois anos, percebeu que a vida já não cabia dentro de um restaurante. Estava a fazer televisão, consultoria e outros projetos. Decidiu vender o Oitto porque não conseguia estar a cem por cento em tudo.
A pausa inédita e a descoberta das redes sociais
Depois de quase duas décadas sempre dentro de cozinhas profissionais, Carlos tirou uma pausa pela primeira vez. Estava há cerca de 15 anos sem férias e precisava de pensar no próximo passo.
Percebeu que existiam muitas oportunidades na gastronomia para lá da restauração tradicional. Foi durante esse período que começou a construir a marca pessoal, procurando uma forma diferente de chegar às pessoas.
No final de 2025, começou a criar vídeos onde explicava receitas passo a passo, de forma simples e acessível. Investiu num estúdio próprio, estudou as plataformas e começou praticamente do zero.
Como transformar receitas de TV em conteúdo digital
Carlos tentou transportar para as redes sociais aquilo que fazia na televisão. Muitas pessoas viam uma receita, mas depois já não conseguiam anotar os ingredientes ou o modo de preparação.
Criou um espaço onde essas receitas ficassem disponíveis e onde qualquer pessoa pudesse voltar a consultá-las. O crescimento surpreendeu-o: em poucos meses ultrapassou a barreira dos 100 mil seguidores no Instagram.
Mas garante que o resultado não apareceu por acaso. Foram muitas noites sem dormir a estudar as redes sociais, a perceber como devia comunicar e a aprender como funcionavam o Instagram, o Facebook e o TikTok.
A missão de fazer as pessoas voltarem a cozinhar
Mais do que ensinar receitas, Carlos encontrou uma forma de aproximar uma geração que cresceu sem cozinhar. Hoje pede-se muita comida através das aplicações. Ele queria mostrar que cozinhar não tem de ser complicado.
Recebe muitas mensagens de pessoas que nunca tinham feito um bacalhau com natas ou uma açorda e que agora perderam o medo. A missão vai além das receitas.
Carlos quer incentivar as pessoas a voltarem aos mercados tradicionais, a conhecerem os produtos e a criarem memórias à volta da mesa. A cozinha precisa de treino, mas também de convivência. Há momentos que ficam para sempre na memória e muitos acontecem enquanto se cozinha para a família ou para os amigos.
A relação com a imagem pública e o reconhecimento
Alto, atlético e bronzeado pelas horas passadas no mar, Carlos tornou-se presença habitual nas listas dos chefs mais mediáticos do País. Ainda assim, faz questão de separar completamente essa imagem do trabalho.
Nunca quis que o vissem como um sex symbol. É cozinheiro e é assim que quer ser reconhecido. Gosta de cuidar de si, treina há muitos anos e passa muito tempo no mar, mas isso faz parte do estilo de vida, não da profissão.
Acredita que, se deixasse essa imagem ganhar demasiado peso, poderia desvalorizar quase duas décadas de trabalho. A carreira foi construída com muito esforço, muitos riscos e muitas horas de trabalho.
O mar como equilíbrio entre cozinha e vida pessoal
Quando não está na cozinha ou a gravar conteúdos, é no mar que Carlos encontra o equilíbrio. Continua a fazer surf sempre que as condições permitem, pratica pesca e caça submarina.
Assume que dificilmente conseguiria viver longe da água. Não se considera nenhum surfista extraordinário, mas adora estar no mar. Sempre que tem oportunidade vai surfar ou pescar. Faz parte dele desde criança.
Essa ligação ao mar também se reflete na parceria atual com o Continente, onde assume o papel de chef de referência na área do peixe e marisco, trabalhando para valorizar o produto.
O sonho de abrir uma tasca com alma portuguesa
Apesar de hoje trabalhar sobretudo na consultoria, televisão e criação de conteúdos, Carlos nunca deixou de pensar em abrir outro restaurante. Mas, desta vez, imagina um projeto muito diferente.
Gostava de encontrar uma tasca antiga, daquelas em que os proprietários estão prestes a reformar-se. Um espaço pequeno, com cerca de 30 ou 35 lugares, que mantivesse a identidade portuguesa.
A ideia seria preservar essa alma, melhorar apenas as técnicas de cozinha e continuar a servir comida muito genuína. Anda à procura do parceiro e do espaço certos para concretizar esse sonho.
Os desafios da restauração portuguesa atual
Carlos acompanha com preocupação o momento que a restauração atravessa. Considera que o setor vive um crescimento difícil de sustentar e acredita que a falta de profissionais será um dos maiores desafios dos próximos anos.
Abriram muitos restaurantes, mas não existem trabalhadores suficientes para todos. O mercado vai acabar por se ajustar, mas neste momento há uma grande dificuldade em encontrar pessoas para trabalhar.
Ao mesmo tempo, mantém-se otimista quanto ao futuro da gastronomia portuguesa e ao papel que pode desempenhar na valorização dos produtos e receitas tradicionais.
O primeiro livro e a homenagem às raízes alentejanas
Até setembro, Carlos deverá lançar o primeiro livro, uma obra que mistura receitas, histórias pessoais e uma homenagem às raízes alentejanas. Tem uma componente autobiográfica muito forte e é uma forma de homenagear a família, o Alentejo e todas as receitas que marcaram o percurso.
O objetivo mantém-se exatamente o mesmo de quando começou a publicar vídeos nas redes sociais: fazer com que mais portugueses voltem a cozinhar.
Segundo Carlos: "Se conseguir que uma pessoa deixe de encomendar jantar uma vez por semana para cozinhar em casa com a família, já sinto que valeu a pena."
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